15.

Abriu os olhos e imediatamente sentiu o peso extra na caixa torácica, um peso que dificultou o simples ato de virar de lado para alcançar o celular e verificar as horas. O relógio acusava 13:18, horário em que normalmente estava voltando do almoço. Esse era um dia de folga do trabalho, um dia de folga do dia, dos outros. Mas a pessoa da qual Ele mais precisava se afastar estava ali, lutando contra o peso do próprio peito para se colocar sentado na cama. Se o coração não estava em um dia normal, o estômago não fazia cerimônia e já se contraía pedindo atenção.

Eram 13:21 quando conseguiu colocar a coluna na vertical e deixar que os pés tocassem o chão frio de madeira. Na ponta da cama, O Gato preguiçoso olhava de soslaio e esticava as patas dianteiras, colocando as garras para fora e arranhando o ar. O bocejo do felino por pouco não o puxou de volta para as cobertas, um grande ato de traição contra Ele, que encontrava dificuldade em simplesmente estar vivo. Mas não era simples, de fato. Não hoje. Ele estava nublado, suportando o peso de nuvens carregadas de água morna e estática. Atrás das cortinas escuras, as ruas estalavam e tremiam sob o sol, mas Ele não saberia dizer. Como se previsse o estado em que acordaria, vedara todas as janelas na noite anterior, e agora agradecia a si mesmo pela decisão. Agora que os pés haviam esquentado os tacos de madeira que tocavam, sentia que podia tentar a longa caminhada até a cozinha. Não que houvesse muitos metros entre onde estava e a geladeira, mas qualquer passo hoje seria um salto sobre uma ponte. O estômago impaciente encontrou um consolo ácido no pão amanhecido coberto com a margarina quase congelada e um copo de refrigerante sem gás. Antes que os ácidos lhe causassem azia, acendeu um cigarro e preencheu a pequena cozinha com sua fumaça picante. A garganta ressecada ardia, trazendo lágrimas aos olhos ainda marcados pelo travesseiro. Secou-as antes que o corpo interpretasse o lacrimejamento como permissão para chorar.

Fechou os olhos e respirou.

Às 14:05, acendeu o terceiro cigarro, sentado no sofá, observando O Gato preguiçoso desfilando ordinariamente pela sala como se fosse um dia como qualquer outro. Ou talvez estivesse apenas tentando convencer a si mesmo disso. Parecia-lhe que os gatos haviam inventado a dissimulação e os humanos a haviam aprendido sua forma mais rudimentar. Foram 5 minutos tentando aprender com o felino alguma sutileza que o aliviasse da carga que trazia. Essa carga o incomodava há dias, mas o peito cedera em algum momento entre a noite anterior e aquela manhã-tarde. Enquanto sua mente se ocupava em organizar informações e projetar sonhos surrealistas, o coração aproveitara para se desenrolar e alagar aquela carcaça o quanto pôde. Uma flor escarlate secretando uma seiva escura e densa que teria manchado irremediavelmente as cobertas e o colchão com seu cheiro doce de putrefação. E O Gato se aninhou em seu colo. O calor de um corpo externo em contato com o seu provocou ânsia de vômito. Expulsou O Gato, engoliu a saliva espessa e fechou a epiglote. Com a ânsia controlada, voltou a sentir o miocárdio forçando as costelas, e só então se perguntou a causa do mal que lhe acometera durante o sono. Com certeza não fora um sonho, afinal já havia alguns meses que não dormia bem o suficiente para sonhar. Não havia feito nada na noite anterior além de assistir um filme ruim na televisão e ido dormir com enxaqueca. Também não estava ansioso por algo que estava por vir, a vida estava confortável e previsível o suficiente para acordar despreocupado. Por que é que, então, Ele se sentia com os pés à beira de um buraco negro que parecia lhe fisgar pelos ventrículos? Era essa força exercida sobre o órgão que causava a pressão que sentia, e sentia-se completamente incapaz de lutar contra ela. Sentiu a necessidade de se arrastar de volta para a cama. Os passos arrastados o levavam quando o tórax trincou. Sentiu as rachaduras descerem a clavícula, esmigalhando o esterno, fraturando a 2ª e a 3ª costelas. A dor o puxou para trás, o empurrou para frente, mão no peito, visão turva, chão.

Acordou às 16:43 despencado ao lado da cama, o braço direito para cima, tentando alcançar a cabeceira. O corpo gelado não havia transferido calor algum para o chão, um homem-iceberg no mar gelado de madeira. Drenado das forças, não se levantou, mas se empurrou até ficar prostrado sob as costelas direitas. Posição fetal. O Gato chegou silencioso e se acomodou entre seus braços e seu peito, aquecendo e ninando com o ronronado. Ele adormeceu mais uma vez. Acordou com O Gato ainda o velando, medicando-o com as vibrações da laringe. Olhou para o felino e recebeu de volta o habitual olhar desconfiado de carinho e curiosidade. Os pulmões relaxados davam espaço ao músculo central, que agora batia de forma cansada, mas regular. A dor mais aguda havia passado, deixando uma ressaca latejante, mas suportável. Apoiou-se na mesa de cabeceira e colocou-se de pé. O Gato saiu do quarto e foi cuidar de comer, usar a caixa de areia, lamber os pelos das patas e procurar os pequenos insetos que por vezes entravam voando pela janela. Ele não carregava no corpo o peso das suas decisões. Considerava que todas elas eram boas e, por isso, eram.