17.

Cresceu sem abraços, sem canção de ninar, sem um fim de semana no parque. De fato, não se lembrava sequer dos presentes impessoais que ganhava no Natal, comprados pela mera obrigação social. Ainda muito novo aprendeu que não poderia contar com eles para estabelecer ligações emocionais, especialmente após seu pai decidir que não deveria mais se envolver na criação do filho. O filho tinha algo de errado.

Cresceu tentando decidir se preferia brincar de boneca com as meninas ou jogar futebol com os meninos. Elas o tratavam como um bichinho de estimação exótico. Eles o tratavam como um alienígena. E ele era. Passou boa parte da infância e adolescência tentando se encaixar, quando no fundo sabia que era exatamente o que não queria ser: um alienígena.

Cresceu se masturbando com filmes pornôs comprados na banca de jornal (não sem um enorme constrangimento) sem saber direito se olhava para o ator ou para a atriz. Mas quando gozava, era sempre olhando para o pau na televisão. Sentia seu saco escrotal se contraindo enquanto a próstata inchada pulsava, a uretra expandida cuspindo o líquido grosso sobre sua barriga. E era sempre no homem que ele descobria estar pensando quando seu cérebro voltava a maquinar depois do gozo.

Cresceu com amizades mais rasas do que gostaria. Não se sentia próximo o suficiente de alguém a ponto de trocar confissões. As conversas eram leves e sempre deixavam uma sensação de vazio quando ele estava de volta ao seu quarto. Aquele quarto escuro e úmido, com o cheiro característico de hormônios desregulados de adolescente. Não havia uma foto pendurada ou um porta-retrato. Não gostava o suficiente de si mesmo nem da mãe — e muito menos do pai — para ter fotos. Seu retrato era a fronha suja do travesseiro, com as lágrimas secas que só ele conseguia enxergar.

Cresceu com uma mãe que não entendia e não queria entender o que quer que fosse que estivesse acontecendo com aquele menino estranho e calado. Ele passava tempo demais no quarto. Ele andava com mulheres e em algum momento deve ter falado algo sobre fazer faculdade de arte. Ela nunca soube como lidar com aquele ser que dividia a casa com ela, principalmente quando deixou de dividir o incômodo com o imprestável do marido. Então não foi uma surpresa quando ela decidiu que não o queria mais. A surpresa foi dela ao ouvir da vizinhança que o filho era feminino demais e andava fazendo coisas erradas pelas suas costas. Aquela foi a gota d’água. No dia seguinte, ele estava na rua com uma mochila contendo duas camisetas e duas cuecas. Por sorte, a mãe de uma colega da escola soube da história e o acolheu.

Cresceu na casa da amiga. Ela era como um espelho dele, e da mesma forma, alienígena. Sendo seu oposto, ela era masculina demais, nada parecida com uma princesa. Reconheceram-se imediatamente em suas dores e desejos subversivos. Cúmplices. E com os anos, conheceram outros cúmplices que também traziam suas histórias de sofrimentos, dúvidas e armários com portas pesadas demais.

Cresceu rodeado de carinho, e então cresceu muito mais. Amou quem quis, foi amado e abraçado. Um abraço enorme, emaranhado de pessoas que se reconheciam, finalmente, parte de uma família.

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