18.

Bruno Frika
Apr 11 · 3 min read

Uma das minhas primeiras memórias de infância eram as chuvas do final da primavera. As gotas gordas batiam e rolavam nas telhas da casa, despencavam pela janela e formavam grandes poças no quintal da frente. Eu tinha 5 ou 6 anos, e toda vez que a chuva começava, o Gato da casa ao lado pulava o muro e se abrigava no batente da janela da nossa sala. E como um bom Gato, ele me fazia companhia e me encarava. Os olhos amarelos com rendas verde-escuras pareciam duas galáxias cortadas por uma fina elipse que ao menor sinal de ameaça, viravam dois buracos negros. Enquanto ele me olhava, eu ouvia a chuva. Esse era o som que embalava meus pensamentos nessa época, dos mais lindos aos mais sujos. A vontade que eu tinha de fugir de casa para morar com a minha tia, meu desejo de me tornar um artista, meu apetite sexual que começava a florescer.

Passei anos acompanhado pelo Gato e pelas gotas, até que nos mudamos. Aos 17 anos, conheci meu primeiro namorado. Duramos duas semanas. É claro que eu não via dessa forma, mas foram apenas alguns encontros escondidos, tentativas desajeitadas de sexo e declarações cafonas ao som de um violão desafinado. Eu achava que estava apaixonado. Num espaço de quinze dias, a paixão louca deu lugar a um ranço que eu não sabia de onde vinha. E foi ali que esse ciclo se iniciou para se repetir em praticamente todas as minhas relações afetivas. As relações terminavam tão abruptamente quanto começavam. O tédio sempre vinha como um Gato preguiçoso, primeiro se aproximando de forma desconfiada, depois roçando nas minhas pernas e, por fim, pulando no meu colo e me fazendo lar.

Tive namoros incríveis, casos inesquecíveis e trepadas dignas de um livro. Todos eles terminaram com uma visita do Gato. Minto. Todos, menos um. Aos 36, conheci você e as coisas tomaram proporções maiores e cores mais vivas. A sensação de completude esteve presente desde que começamos a nos envolver e nos entregar um ao outro, e foi isso que manteve afastado o meu Gato entediado. Ficamos juntos por longos anos e aprendemos muito. Não há nada que eu possa escrever aqui que você já não saiba, porque se houve um erro que não cometemos, foi o de não nos fazer entender o quanto um fazia bem ao outro. Eu não preciso relembrar, porque são memórias que nunca me deixaram.

Quando nos despedimos, éramos homens melhores. Você bem sabe, a decisão mútua pela separação não teve nada de dramática ou negativa. Fomos dois adultos decidindo não estar mais juntos. Mas é claro, isso não me livrou de passar um longo tempo de luto por nós. Jamais imaginava que esse luto um dia seria literal.

Com meus 63 anos (bem vividos, devo te dizer) não consigo sentir uma gota de arrependimento pelo simples fato de que tudo — absolutamente tudo — me trouxe ou me permitiu chegar até aqui. Depois da nossa separação, convivi com outros homens e fiz as pazes com o meu Gato. Aprendi a apreciar a companhia persistente e caprichosa que vinha me lamber com a língua áspera e avisar quando era hora de me despedir de cada um deles. E eu aprendi a ouvir.

Hoje, com a maior dor que já senti na vida, eu me despeço de você. Desde que recebi a notícia da sua partida, meu coração aperta como se um defibrilador descarregasse três mil volts. Sinto o meu peito tentando entrar em si mesmo, todas as minhas costelas se curvando em um vácuo desprovido de luz, cores e formas. Eu não estava com você no que eu gosto de imaginar ter sido um dos momentos mais calmos e acolhedores da sua vida: o fim dela. Sei que você estava rodeado das suas pessoas e das suas memórias, e espero que nada tenha te faltado. Seria egoísmo meu me arrepender de não estar lá. E é por isso que escrevo a você, mesmo não tendo um endereço. Para que você saiba que o tempo foi generoso e deixou as nossas memórias comigo.

Aqui eu te agradeço, me despeço de você pela segunda vez e deixo essa carta na minha janela, na esperança de que a energia contida nessas palavras possa chegar até você de alguma forma. Espero que o lugar em que você está seja repleto de chuvas de primavera, janelas e Gatos com olhos amarelados.

Bruno Frika

Written by

escrevendo contos em sequência, eles ainda viram livro.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade