19.

Bruno Frika
May 24 · 6 min read

O som do piano ecoava pela estação da Luz colaborando para criar o clima calmo que pairava naquele fim de tarde de sexta-feira. Apesar dos corredores e trens lotados na hora do rush alguns metros abaixo, a estação demonstrava pouco movimento enquanto o pianista dedilhava as teclas pretas e brancas. Quinze pessoas acompanhavam o repertório clássico, alguns de olhos fechados, outros emocionados.

Fernando passou longos minutos nessa bolha de calma até encontrar um bom momento para ir embora e seguir em direção à Pinacoteca. Ajeitou a mochila nas costas, fez um gesto mental agradecendo o pianista pela desaceleração e saiu da estação em direção ao museu. Olhou para baixo e viu os tênis surrados e agradeceu por ter escolhido o par mais confortável. Era dia de caminhar sem pressa para voltar. Do lado de fora, o sol descia largando uma aura laranja com nuvens rosadas carregadas de poluição e uma garoa que provavelmente cairia na manhã seguinte. A brisa quente pedia um café gelado pra refrescar e garantir que a mente continuasse no presente. Fernando se orgulhava de ser um ótimo planejador de passeios, então o café gelado já estava em suas mãos desde que havia desembarcado na Luz. Abriu a garrafa de vidro e deu um gole, sentindo o amargo amendoado do café descendo pela garganta. Agora, um cigarro para acompanhar. Terminou o cigarro do lado de fora da Pinacoteca, apagou a brasa na sola do tênis, jogou a bituca e a garrafa vazia na lixeira e entrou.

Teo deixara o trabalho no escritório de advocacia mais cedo e andava pela região da Santa Ifigênia sem rumo, como adorava fazer no tempo livre. Ligou o som no celular e colocou os fones de ouvido para embalar a caminhada. Alguns minutos depois, notou que estava próximo à Pinacoteca, e que não entrava naquele prédio impressionante havia anos. Por que não? Comprou um ingresso e caminhou pelo museu sem se preocupar em ler as placas de identificação. Preferia encarar as obras pelo que eram. No passeio, notou um quadro de uma mulher nua deitada em uma cama, dentro de um quarto escuro. Ela se sobressaía e ao mesmo tempo, fundia-se com o lençol alaranjado. Com a mão delicadamente pousada sobre o peito, ela com certeza tinha pensamentos prazerosos. A moldura dourada no qual a colocaram parecia sarcástica, quase afrontosa à simplicidade da cena retratada. Desviou a atenção do quadro e decidiu continuar a explorar a galeria.

Fernando passou pela portaria e antes de seguir para o local de encontro, lembrou-se que queria visitar sua pintura preferida do museu. Depois do Sonho, de Virgílio Maurício, era uma pintura desprestigiada de um pintor desprestigiado. Havia sido premiada em Paris, onde Virgílio morava na época, mas no Brasil não chegou sequer a ser comprada, terminando sua jornada na Pinacoteca por doação da família do pintor. Fernando apreciava as pinceladas escuras do cabelo da mulher nua em contraste com sua pele pálida. Era um quadro simples, despido de qualquer traço marcante, e ele a apreciava exatamente por isso. Era comum, tangível. Quase medíocre. A mulher nua lhe dava a sensação de que arte era algo alcançável, extremamente humano. A moldura dourada zombava dessa ideia.

Deu as costas à mulher e foi enfim ao local combinado. O pavilhão pequeno que abrigava a exposição temporária estava excepcionalmente frio — provavelmente a pedido do artista, pensou — e com um público pequeno. Ao menos aquela exposição dera ao museu a chance de ficar aberto para visitação além do horário habitual. O artista era grego — ou era iraniano? Essa dúvida com certeza dava um ar misterioso a ele e a suas obras — e havia construído instalações e esculturas de plástico moldado em formas abstratas com cores duvidosas. Cinzas, marrons, caramelos. Pareciam escombros de prédios de repartição pública, pensou. O que não era um pensamento depreciativo, apenas uma constatação. Sentou em um banco próximo ao centro da exposição e aguardou a chegada.

Teo olhava uma escultura retorcida e translúcida quando desviou o olhar e viu aquele menino lindo sentado distraidamente em um banco no meio da exposição. Os tênis sujos não condiziam com a roupa que, apesar de casual, denotava uma preocupação com detalhes e harmonização. O cabelo desalinhado, a barba perfeitamente penteada e lustrosa. A assimetria o encantou. Sem se dar conta, havia caminhado em direção a ele e agora estava parado em sua frente ensaiando um oi. Só então se deu conta de que o outro segurava o celular na mão e deixava transparecer algum descontentamento. Achou melhor apenas sentar ao seu lado.

Fernando respondia a amiga que havia acabado de cancelar o passeio por conta de uma dor de cabeça terrível — ele sabia que isso era um código para ressaca — quando notou uma sombra próxima à sua frente. Tentou sorrir enquanto explicava à amiga que tudo bem, afinal podiam fazer o passeio outro dia, sem problemas. Ele não se importava em continuar a visita ao museu sozinho, mas confessava a si mesmo que aquela exposição de plástico provavelmente pedia uma companhia para debater ou, na pior das hipóteses debochar e segurar as risadas. Baixou o celular e percebeu que havia outra pessoa sentada no banco. Não quis olhar para o lado, mas de canto de olho conseguiu notar uma figura longilínea, azul-marinho, de pernas elegantemente cruzadas. E notou o perfume. O aroma agridoce abria os vasos capilares do nariz e se alojava no fundo de sua garganta quase deixando um gosto. Respirou fundo, engoliu a saliva e não encontrou nenhum. O cheiro não se transformava em sabor, e isso lhe dava mais vontade de inalá-lo. Olhou para o lado finalmente e notou o sorriso lhe fitando de volta. Não conseguiu conter o pequeno sorriso que devolveu enquanto subia o olhar para se deparar com um rosto negro extremamente simétrico, de contornos angulares e sérios. Os olhos ovalados filtrados por óculos redondos de armação fina tinham as íris do mesmo exato tom do café que ele havia tomado alguns minutos antes. Vestia um terno azul de caimento impecável. Por sorte, Fernando era detalhista, ou teria ficado alguns minutos encarando o outro para conseguir absorver todas essas informações antes de recebê-lo com um oi.

Teo segurou o sorriso respondendo ao oi e podia jurar que presenciava o desaparecimento do descontentamento no rosto do outro. Mas podia ser só impressão, não queria presumir nada. Ajeitou os óculos no nariz e estendeu a mão para se apresentar. A mão quente do outro o surpreendeu, com o frio que estava fazendo na sala. Ou era a dele que estava gelada? Apontou com a cabeça para uma das esculturas, propondo que a olhassem de perto. Juntos. Teve uma grande dificuldade tentando dividir a atenção entre a exposição e o menino que fazia comentários vagos enquanto ria alto de forma desenvergonhada e fazia movimentos involuntários com os dedos como se tocasse as obras no ar, acompanhando as retorções e curvas das estruturas de plástico. Tudo nele tinha um charme descontraído e inocente, com exceção dos olhos. Ali ficavam evidentes a ferocidade, a precisão e a habilidade instintivas de um grande felino. Sabia muito bem quando aquele par de olhos desviavam de uma escultura para percorrer seu corpo inteiro.

A coreografia de troca de olhares secretos os deixava desconfortáveis de uma forma excitante, ora sexual, ora mental. Quase sempre, os dois ao mesmo tempo. A tarde já havia dado lugar à noite, os visitantes deixaram a exposição aos poucos e até os funcionários pareciam ter sumido. A Pinacoteca poderia fechar a qualquer momento. Fernando e Teo ignoraram todo o contexto, enchendo o lugar de risadas largas e um perfume agridoce que quase podia ser saboreado. Continuaram a dança pelo salão enquanto o pianista da estação tocava mais uma valsa.

Bruno Frika

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escrevendo contos em sequência, eles ainda viram livro.

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