Dia dos namorados? — Parte 2

O outro lado da moeda

Ela acordou naquele dia e, para ela, era um dia como qualquer outro. Em período de provas finais na faculdade, ela não tinha outra opção senão marcar sua presença na sala de aula. Após um gole de café que desceu mal, ela começou a atravessar o que mais tarde descobriria ser uma crise existencial. Ela não sabia por que fazia o que fazia, e nem exatamente onde queria chegar. Mas ela continuava estudando e se destacando como uma das melhores de sua turma. Isso dava a ela uma satisfação pessoal momentânea, que se esvaía com o passar do tempo.

Antes de sair, ela recebeu uma notificação em uma rede social. Uma lembrança de um ano antes: uma foto que ela publicara com o ex-namorado. O namoro havia acabado há alguns meses, e ela não se lembrou de apagar tudo sobre os dois. Ela queria que todas as evidências desse namoro desaparecessem, pois nem do motivo do término ela gostava de se lembrar. Ela começou a se questionar por que aquilo ainda estava ali, e por que diabos ela ainda se importava. Sua crise piorou, e ela teve vontade de chorar. Porém, ela queria parecer forte, e reprimiu a vontade ao longo do dia.

Após as últimas provas, em seu horário de almoço, ela não sentiu fome, mas foi com uma amiga almoçar em um restaurante no centro da cidade. Ela desabafou, colocando para fora tudo aquilo que a incomodava, sem derramar uma lágrima sequer. A amiga a confortou, como fazia há muitos anos. Propôs que as duas fizessem algo à noite, mas ela queria ficar sozinha naquele dia. Pelo menos para encarar suas lembranças e fantasmas do passado de frente. O dia cinzento tornava a dor dela um pouco mais suportável, pois ela não gostava de sol forte, nem de céu azul.

Naquele horário movimentado, ela via muitos casais abraçados na rua, um ou outro com um buquê de flores, e isso a incomodava. Ela queria passar mais um dia dos namorados acompanhada. Quando estava solteira, ela sentia vontade de estar apaixonada. Quando se apaixonava, aproveitava cada pequena fase do processo de conquista como se tudo pudesse acabar em um instante — o que pode acontecer quando se trata de amor. E, quando finalmente namorava, era a melhor namorada do mundo. Porém, nem todos a mereciam. E nem todos eram dignos de seu comportamento. Por isso, muitos relacionamentos acabavam. E ela sentia saudade do último. Ela podia jurar que ele a tratava de forma diferente dos outros, e que era especial, ou qualquer coisa assim. Ela o havia esquecido até aquele dia, quando a maldita rede social a lembrou que algo dentro dela continuava vivo, ainda que fraco.

Após se despedir da amiga, percebeu que ia começar a chover. Ela não tinha muitas opções, visto que voltar para casa naquele momento significava relembrar todos os momentos que os dois viveram lá. Mas ela queria provar para si mesma que era capaz de deixar tudo aquilo no passado. Colocou uma música um pouco mais triste no celular e começou a vaguear pelas ruas da cidade, isolada do mundo por seus fones de ouvido. O volume estava alto o suficiente para que pessoas ouvissem a música abafada quando passavam ao lado dela. Mas ela não se importava. Tudo que ela queria, naquele momento, era sentir que estava fora do mundo.

Ela estava na estação do metrô quando a chuva começou. Ao entrar no vagão, sentou-se perto de uma janela e começou a observar as pessoas em volta. Uma mulher carregava a filha pequena no colo, e a preocupação transparecia no olhar. Uma turma de estudantes conversava em voz alta sobre como era divertido matar aula para ir ao cinema. Ela lembrou que o primeiro beijo dos dois foi no cinema, e aquela lembrança beliscou seu coração com força. Desceu do metrô na última estação, já retirando o guarda-chuva amarelo da mochila. Ela gostava muito daquilo, por lembrá-la de seu seriado favorito, mas sempre escutava comentários sobre a cor incomum do objeto. Ela andou por alguns quarteirões em direção ao seu lugar preferido na cidade. Ali, ela tinha certeza de que ninguém a incomodaria.

Chegando na praça, ela avistou alguns casais e isso a deixou ainda pior. Ela havia se esquecido de como aquele lugar se tornara seu preferido. Era um ponto de encontro de casais, e seu ex-namorado a levara ali em alguma ocasião especial. Ela praguejou em silêncio por qualquer pensamento a conduzir a ele. Não se deixando levar pela fraqueza provocada pela lembrança, ela andou até um banco mais afastado, de frente para um mirante. Acima de tudo, ela gostava da bela vista panorâmica da cidade onde morava.

Sentado no banco molhado, um homem solitário, vestindo apenas roupas pretas e segurando um guarda-chuva, também preto.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.