Jogo de azar

“Quando não se tem mais nada a perder, só se tem a ganhar.”

Bruno Garofalo
Aug 29, 2017 · 3 min read

Aquela noite tinha algo de diferente. Digo isso porque eu frequentava bastante aquele cassino, mas nunca o vira tão cheio. Parecia que o universo arrastara o máximo de pessoas possível para aqueles salões por algum motivo que não ficava claro para mim. Pelo contrário; a cada copo de uísque, minha cabeça criava um novo obstáculo entre a concentração e eu. E tudo que eu tinha para cruzar esses obstáculos era uma corda fraca chamada raciocínio, que arrebentava sempre que eu dava um puxão mais forte. Ou sempre que a garçonete me entregava outro copo.

Amontoados em volta da mesa, pessoas de todos os tipos físicos, mas do mesmo tipo financeiro. Eu estava numa mesa de milionários. E eu conseguira isso apenas com o dinheiro que eu ganhara lá dentro. Todos eles provavelmente poderiam se dar ao luxo de perder um ou dois jogos daqueles. Ainda teriam seus diversos investimentos, mansões, carros ou qualquer riqueza que o valha caso perdessem ali, naquela noite. E eles pareciam não dar valor ao jogo. É como se fizessem por simples e pura diversão. Eu, fora daquela mesa, fora do terno que eu usava, fora do relógio caríssimo que adornava meu pulso, também prêmio pela minha sorte, não tinha nada. Talvez nem fosse nada. Tudo que eu tinha era a fortuna incerta e muita, mas muita vontade de ganhar, não importasse como.

Em um canto, uma funcionária alta e magra, metida num daqueles uniformes supostamente sensuais que todas devem usar para atrair clientes. Para ela, não funcionava. Com um cigarro na ponta dos dedos e a expressão mais antipática que podia ser encontrada naquele cassino, ela observava o fluxo de pessoas que passavam de um lado para o outro, mas sempre se demorava mais em mim. Eu sentia. E sentia todo o azar que ela queria me transmitir naquele momento. Deu o último trago no cigarro e atirou-o numa lixeira, sem sequer desgrudar os olhos de mim. Se eu estivesse sóbrio, certamente teria me assustado com a cena. Se.

Na outra extremidade da mesa,outra figura se destacava. Não porque se vestia melhor do que os demais, certamente. Mas porque era um trapaceiro. E todos sabiam, mas ninguém conseguia provar. E a cada aposta, ele me provocava, como se esperasse meu momento mais vulnerável para aplicar as suas e me arrancar tudo que eu tinha. Eu o insultava mentalmente enquanto podia. Mas aquele jogo era meu. Eu não suportaria a minha própria presença se perdesse por causa dele, especialmente naquele cassino. E eu já tinha usado de tudo para evitar que ele trapaceasse. O próximo passo era a violência, mas eu não estava em posição de arriscá-lo.

Depois de um determinado número de doses de uísque, minha mente escureceu por um momento. O barulho estrondoso da música somado com a algazarra causada pelas milhares de pessoas no cassino foi reduzido a nada por um tempo que, dentro de mim, pareceu uma eternidade. Tudo que eu conseguia enxergar em minha frente era um número. Escarlate. Como se meu cérebro tentasse desenhar aquilo com meu próprio sangue.

22.

Quando eu abri os olhos, entendi que era tudo ou nada. Coloquei todas as minhas fichas nesse número. A funcionária olhou com o desprezo de sempre. O trapaceiro riu, como se estivesse certo da vitória. Os demais jogadores hesitaram por um momento e, logo em seguida, gritaram como se não houvesse um amanhã. Eu apostara tudo naquele momento, por mais que eu não tivesse nada. Eu queria aquela vitória, mas não pela fortuna. Mas pela sensação de glória. E pela história que eu contaria no futuro. E, acima de tudo, pelo próprio jogo.

Naquele momento, pensei por que eram chamados jogos de azar. E tudo que minha mente ébria me entregou foi o seguinte: nesses jogos, você tem mais azar do que sorte. Porque só ela não é suficiente; você precisa de fé para passar por cima de todos aqueles que podem te atrapalhar. A funcionária. O trapaceiro. A bebida te coloca no limite da adrenalina. Com adrenalina, você perde o medo. Sem medo, sua fé não tem limites. E ninguém pode te segurar.
Eu tinha fé. Aquele era o meu jogo de azar.

E, pela última vez naquela noite, a roleta girou.

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Bruno Garofalo

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Levando poesia à vida comum. Textos às segundas, com (cada vez menos) raras exceções. Escrevo sobre o que quer que me inspire.

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