Prisão invisível

E uma cela solitária

Bruno Garofalo
Aug 22, 2017 · 2 min read

O homem de terno acordou naquele dia já vestido, pronto para mais um dia da rotina que o sufocava. Não teve fome, não precisou pentear os cabelos. Era como se nem tivesse dormido. O terno, impecável, não apresentava um amassado sequer. Olhou o relógio no pulso: travado. Nenhum ponteiro se mexia. Tentou tirá-lo, mas estava preso. Como se fizesse parte dele. A gravata apertava o pescoço. O paletó não desabotoava. E o homem de terno saiu de casa.

O motorista de ônibus pareceu ignorar sua presença no ponto. Decidiu então pedir um táxi. Ao acenar, o taxista seguiu o exemplo do outro, e é como se ele não tivesse sequer visto o homem de terno. As pessoas em volta passavam e esbarravam nele, mas não pediam desculpas. Simplesmente olhavam para frente e seguiam seu caminho. O homem de terno seguiu a pé para aquilo que ele acreditava ser seu local de trabalho. Preocupado com um possível atraso, perguntou as horas a um senhor que lia um jornal enquanto tomava café do lado de fora de uma padaria. Não obteve resposta. Não satisfeito, o homem de terno entrou na padaria e perguntou para a mulher no caixa. Nada. Irritado pelo silêncio que toda a gente fazia, ele começou a derrubar prateleiras de produtos, a quebrar garrafas de vidro no chão. As pessoas se assustavam por um breve instante, e logo retomavam suas posturas no que parecia ser outra dimensão. Um faxineiro veio com o esfregão em punho para limpar a bagunça causada pelo homem de terno.

Ele correu para o lado de fora e gritou. Gritou como se o apocalipse estivesse em curso. E ninguém parecia escutá-lo. O homem de terno tentou arrancar as roupas, e percebeu que ainda pareciam coladas ao corpo. Como se ele próprio fosse feito não de pele, carne e ossos, mas de tecidos finos e acessórios. Tomado pela ira, atirou-se no meio da avenida movimentada. Por alguns momentos, sua visão escureceu, e ele esperou pelo pior. Quando abriu os olhos, percebeu que estava ileso, e o terno intacto.

Ainda no chão, o homem de terno teve medo do que vinha pela frente. Sem saber como chegara ali, ou para onde deveria ir, amaldiçoou em silêncio com todas as palavras que pôde. Levantou-se, ajeitou a roupa no corpo e seguiu um rumo aleatório. Não chegaria a lugar nenhum. Mas tinha a liberdade de fazer aquilo que quisesse, de ir para onde desejasse. Pelo menos era o que ele pensava.

Pois o homem de terno não sabia que estava preso.

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Bruno Garofalo

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Levando poesia à vida comum. Textos às segundas, com (cada vez menos) raras exceções. Escrevo sobre o que quer que me inspire.

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