Eu não conseguiria morar novamente na casa dos meus pais
S. Paiva
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É muito engraçado ler esse texto publicamente, pois isto já foi pauta dos nossos emails (saudade deles, inclusive). Me lembrei de todos eles logo assim que li o título, e resgatei um pouco à memória um diálogo que tive com os meus amigos, recentemente. Diferente de ti, não tive outra cidade, nem nada. Máximo que aconteceu foi eu morar em outra região da cidade por 1,5 ano por conta da praticidade, e sequer sozinho. Mesmo assim, essa experiência mudou muito a vida.

Me lembro exatamente como se fosse ontem quando eu avisei aos meus pais que sairia de casa para facilitar as coisas. O trânsito da casa deles para o trabalho levava uma brincadeira de 2h do meu dia, condição que eu não conseguia suportar para quem estava arrumando tudo para começar a fase adulta. Eu tinha metas difíceis de serem atingidas, ou seja, o tempo era escasso. Depois, o dia da mudança. Fiquei perplexo, pela primeira vez, com uma coisa: passei no mercado para comprar xampu, condicionador, pasta de dente, remédios que tomo com frequência — e eu nunca pagava por eles — , e todas essas coisas, que eu precisava, e deixei R$ 80 na farmácia. Quase gritei para o vendedor:

— Você está de sacanagem, não é?!

Mas ouvi, apenas:

— Débito ou crédito?

Quase entreguei o cartão de crédito e pedi para parcelar.

Foi 1,5 ano morando em outra região da cidade, “longe” dos meus pais. Os primeiros meses foram um inferno. Comecei tendo uma depressão profunda, ainda mais quando eu fazia o balanço mensal. Conta da Vivo? Papai não pagava mais. Internet? Oi, agência xxxx conta xxxxx-x no débito automático. Bilhete Único?! Antes, eu ia à esquina de ônibus. Naquela época, eu pagava BikeRio só para economizar. Foi um choque de realidade muito grande, especialmente quando se diz a respeito de organização. Ou eu me arrumava ou eu ficava para trás, mesmo com todo o comodismo que eu tinha por causa da minha vó.

Isso me fez crescer o que eu demoraria muito tempo. Na época, por exemplo, eu sequer sabia fazer um arroz. Hoje, eu chego na cozinha e faço o jantar completo. Aprendi coisas desde lavar roupa a lavar banheiros (eu odeio isso). Foi tão impressionante, que afetou até os meus relacionamentos. Se antes eu era o imaturo que dizia “faz isso depois”, agora, eu digo “me liga quando terminar”, entre outras coisas. Aprendi a dar valor ao tempo, dinheiro, mérito e trabalho. Mais ou menos aquilo que chamamos de ser adulto.

O engraçado é que, depois desse período, eu não consigo mais voltar a morar com os meus pais. Eu tive uma experiência de quase seis meses, no final do ano passado, que me sucedeu em alguns estresses. Embora eu more com os meus avós, a cobrança é diferente. Uma coisa não se pode desviar: a gente sempre vai dar satisfação a eles, mesmo distante, porque eles cobram disso. Dá para fugir, mas é impossível quando estamos morando com eles, e, quando temos a experiência da independência, criamos novas ideias, pensamentos, formas de viver, que não batem. No final das contas, retornar ao que chamo de “estaca zero”, é quase um castigo. Em outras palavras: nossos pais podem ser as melhores pessoas do mundo, você pode ter a melhor relação de todas com eles, entretanto, quando se trata de dividir o mesmo teto, isso não consegue impedir os desentendimentos que corriqueiramente podem acontecer.