Bastidores do segundo turno carioca

Com 1,7 milhão de votos, Marcelo Crivella (PRB-RJ) foi eleito à Prefeitura do Rio de Janeiro, mesmo em cenário preocupante

Wilton Junior/Estadão Conteúdo

É o fim da era Paes, também do PMDB, depois de oito anos na Prefeitura do Rio de Janeiro. Eles tentaram, mas não conseguiram. Queriam, mesmo, era eleger Pedro Paulo, desgastado já antes mesmo de iniciar as candidaturas. No final, Eduardo Paes foi o grande perdedor nessa história toda. Com cerca de 1,7 milhão de votos, Marcelo Crivella (PRB-RJ) é o novo prefeito do Rio de Janeiro, além de ser o primeiro do partido em uma capital.

Mantendo o cenário inicial, mesmo com os posicionamentos intolerantes e preconceituosos, era o preferido desde o início. Em primeiro lugar desde as pesquisas incipientes, acabou sendo um peso para os demais oponentes. Começou lidando com Pedro Paulo (PMDB-RJ) e Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que possuíam forças para lhe impedir. Um deles já era quase que tarefa resolvida. Já o outro, precisava de um trabalho maior.

Freixo, que há duas eleições tenta o cargo executivo, perdeu uma chance inédita. Poderia, hoje, estar comemorando vitória, mas não conseguiu por falhas estratégicas. Houve muita aparição por conta da militância do partido. Focando no peemedebista, tal como os demais candidatos, acabou indo ao segundo turno. Foi, depois do fiasco de Jandira Feghali (PCdoB-RJ) que conseguiu apenas 3,34% dos votos, a voz da esquerda, o que subiu a sua cabeça.

Seu erro foi confiar demais por ter ido ao segundo turno, caindo na estratégia de Crivella que, desde o início, desejava este cenário. Não havia dúvidas de que seria o melhor caminho para angariar os votos úteis. Com o desgaste da esquerda brasileira, havendo apenas as duas opções, a oposição ao socialista foi imediata. Não deu outra: foi complicado até mesmo na Zona Sul, onde se concentra a maior parte do seu eleitorado.

Mesmo assim, é possível notar a insatisfação do povo carioca com todas as opções. Persistindo as reações do primeiro turno, foram cerca de 1,31 milhão de cariocas ausentes às urnas, 26,85% do eleitorado, além de 719,4 mil brancos e nulos, 20,08%. Foram, no total, cerca de 3,58 milhões votos, sendo apenas cerca de 2,86 milhões válidos, 79,92%.

Somando tudo, dá mais que os votos ao prefeito eleito. Ou seja, é um sinal de que algo está errado. Ao momento, deve-se observar e compreender o que as urnas têm a dizer. Isto porque Crivella não foi eleito por conta do seu programa. A vitória se deu por conta da oposição nacional à esquerda brasileira, nesse caso, ao Marcelo Freixo. Crivella não era oponente difícil, pelo contrário, era fácil. Com o auxílio da mídia, militância e diversos setores da sociedade  — incluindo, aí, até quem não mora ou vota no Rio — , que tanto atacaram o bispo em peso, especialmente com exposições que pudessem manchar a sua imagem, havia ainda mais chances para derrotá-lo. Porém, não conseguiu. Apelou ao “nós contra eles” quando deveria ter dado voz ao “nós”. Foi radical demais e manteve um discurso com propostas delicadas à maior parte da população — e, quando amaciou, foi tarde demais. A boa estratégia se fez ao aproveitar essas questões para angariar votos, além dos erros do socialista. Deu certo.

Com isso e a queda do PT nas prefeituras brasileiras, podemos entender que a esquerda brasileira está com sérios problemas. No final, tudo acabou mantendo a maior parte das prefeituras com o PMDB e o PSDB, cenário que pode favorecer os tucanos em 2018, ou não, por conta do número de votos inválidos e abstenções. 2016 ficará conhecido por conta desses dados, além do ano em que o Rio de Janeiro elegeu o preconceito encarnado em forma de gente.