Iniciei um caminho de espiritualidade e fé… e dei meia volta
Carla Lazzari
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Esse texto caiu nas minhas mãos na hora certa, e não tenho dúvidas disso. Desde a minha infância, estou ligado à fé. Sou filho de um ítalo-brasileiro, então nem preciso entrar em detalhes a respeito da visão deles a respeito de religião e sobre o catolicismo. Minha mãe sequer queria me batizar, mas a família do meu pai colocou tanta ênfase de que isso era importante para mim, que ela acabou cedendo com os seus dois filhos. E não parei aí: ainda passei por uma escola católica e algumas missas, mas, não cuspirei no prato: eu adorei esse período em escola católica, pois, de todas que estudei, o maior sentimento de família que eu tive, foi nela. E isso é refletido por qualquer pessoa que estude no Marista São José, Santo Inácio, Santo Agostinho, Maria Raythe, São Bento, São Vicente, Padre Leonardo Carrescia, entre outras católicas. E não só isso: eu percebo uma concepção diferente de mundo que muitos amigos meus não tiveram. É porque, das aulas de religiões, eu consigo me lembrar dos diálogos que surgiam em debates sobre a famosa “ética cristã”, mas que não eram tão focadas na bíblia em si, e sim, em “como ser uma boa pessoa”, como acontece com os estudantes da PUC-Rio. O que quero dizer com isso é: o catolicismo foi importantíssimo na minha vida, mas para a minha formação como ser humano, cidadão, indivíduo, e não para com a fé.

A minha história com a fé é complicadíssima, pois sempre tive ceticismo com o mundo, mesmo sendo filho de uma espírita, cuja intuição é uma das formas de comprovar as experiências vividas por quem é seguidor dessa doutrina — de acordo com Kardec, o espiritismo é uma doutrina, e não uma religião. Se assim posso dizer, creio que sou cientista desde jovem, pois não acreditava em nada que não fosse experimentado, testado e comprovado, e desde que comecei a estudar filosofia, eu não acredito que vivemos em um mundo real, e sim, em uma representação imagética e psíquica dele. Mas, vamos retornar ao que nos interessa.

Nunca fui católico praticante. Se ia à missa, tenha certeza de que era por duas situações: eventos religiosos da escola — éramos obrigado a ver a primeira comunhão de todos os nossos coleguinhas de classe— ou porque fizemos alguma besteira. Porém, eu adorava as aulas de religião, não só pelo fato de termos ficado no horto da madre superior cheio de coelhos ao redor, e sim, por causa das discussões sobre ética e moral, o que me deu base para uma visão filosófica que tenho hoje. Entretanto, nunca consegui “engolir” os dogmas religiosos como um todo. Algumas vezes, eu concordava e seguia aquilo, mesmo sendo bem diminuto. Porém, eu não via sentido algum em fazer o sinal da cruz com as mãos, tampouco, achava que rezar resolvia alguma coisa. Durante toda a minha adolescência, me perguntei se eu era ateu ou não, duvidando até da existência de Jesus Cristo. Por uns dois anos, declarei-me agnóstico, até chegar na concepção do que hoje eu sigo, o panteísmo.

O ser humano é uma criatura que me deixa impressionado, pois, quando se apaixona cegamente por algo, se mata por aquilo, indo atrás até o fim. A fé é uma dessas coisas, após anos crendo em um realidade mítica de um criador presente em todo o mundo, porém, castigador. Se tem uma coisa que eu critico (e muito) são os seguidores das religiões do Oriente Médio, não por causa delas (por favor, me compreendam), e sim, pelo fanatismo que os levam a cometer tais guerras por conta de religião, utilizando o nome de seus deuses para justificar os atos. Do mesmo, vejo o passado: embora eu considere a Igreja como uma instituição de enorme importância para a humanidade por acobertar o conhecimento e ainda desenvolvê-lo, fico pasmo com o que acontecia com as cruzadas.

O ponto que eu quero chegar é: a fé é importante sim, mas não para tudo e todos. Do contrário, temos a espiritualidade. Ir atrás dela que é importante. Porém, isso não quer dizer que vamos viver como um monge tibetano, vestindo túnicas vermelhas, sentado na posição de lótus o dia inteiro, meditando. Nem ficar indo à missa religiosamente (sic) todos os domingos de manhã. Não. Isso significa que você precisa se encontrar, se conhecer, e procurar o que te faz bem, mesmo que seja imitar um bicho de manhã cedo. A meditação é justamente isso. Aliás, a meditação não é fechar os olhos, falando “jai guru deva om”. Qualquer momento de reflexão é uma meditação, seja de olho aberto ou fechado. E é assim que os cientistas encontram a paz, a calma interior — pelo menos, é o que acredito/prefiro acreditar: acostumados a ter decisões racionais e a ter métodos criteriosos a respeito da natureza e o que há ao seu redor, nada entra pela cabeça deles sem uma profunda reflexão. Do mesmo, os filósofos. Porém, a gente precisa saber intercalar o que é racional e o que é emocional. Caso contrário, torna-se algo maníaco e psicótico, além de se tornar uma pessoa fria e bem calculista — o que estou me tornando, por conta de reflexões erradas, e é por isso que dizem que devemos ter cuidado com algumas meditações, porém, sou teimoso e fiz assim mesmo (pois é!).

Não precisamos acreditar em figuras sagradas, deuses gigantes, pequenos, humildes, o que for. Precisamos acreditar em nós, e isso é uma das coisas que mais agradeço à ciência, pois conheci o panteísmo. Caso não saiba, isso significa que Deus não é um ser superior e castigador, e sim que ele está presente em tudo. Muitas vezes, não é que os cientistas não acreditem em Deus. Eles acreditam em deus, mas não acreditam em Deus. Ou seja, acreditam que sim, alguma coisa criou o universo, podendo ser uma micropartícula com propriedades particulares de se multiplicar e se modificar sem estímulo externo, uma energia, e que ela continua presente espalhado em todas partículas que hoje existem.

Ainda assim, como você, não retiro o poder da fé, o que me faz recordar os três estágios de Kierkegaard, sendo o terceiro, o estágio religioso. Muitas pessoas atestam a sua existência por conta disso, e isso as faz bem. Por isso, vejo com maus olhos aqueles ateus ou agnósticos que passam a vida criticando quem é religioso, tampouco, fico pasmo quando alguém me rebate, quando digo “deus existe; Deus, não”. O importante é acharmos o que nos faz bem, o que nos faz nos encontrar, em busca do nosso eu interior. E, claro, respeitar o próximo. O resto é só o resto.