Nós criamos um ídolo empresarial, e agora ele quer limitar a nossa internet

De um executivo famoso pela sua gestão de respeito ao consumidor a agora um dos mais temidos do Brasil

Foto: IstoÉ Dinheiro

Foi em 2014 quando o presidente do conselho administrativo e CEO da espanhola Telefónica César Alierta Izuel correu para a Grécia para fazer uma proposta ao chairman da francesa Vivendi, antiga proprietária da GVT. Não deu outra: por US$ 9,29 bilhões, a operadora brasileira que tanto revolucionou o mercado nacional de telecomunicações foi vendida aos espanhóis, que já possuíam operações no Brasil com a Vivo. Logo após a aprovação do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), não houve mais dúvidas: depois de tantas empresas tentando comprá-la, a GVT deixou de pertencer à Vivendi, e, por isso, ela e a Vivo agora são do mesmo grupo.

Era o início de uma nova era, e todos sabiam disso. A princípio, clientes da GVT ficaram receosos, porém, com um anúncio em março do ano passado, todos passaram a respirar com alívio e, ainda, pensar num futuro próspero para a Vivo. De maneira surpreendente e esperada, afinal, uma das principais motivações da compra foi a cabeça por trás da companhia, Amos Genish, presidente e fundador da GVT, havia tomado posse como presidente e CEO da Telefônica Brasil no lugar de Antonio Carlos Valente, ex-presidente da companhia e hoje presidente do conselho de administração, e do CEO Paulo César Teixeira, que, ao contrário de Valente, deixou a companhia. De sobra, Genish ainda levou toda a sua equipe de executivos da GVT para a Telefônica Brasil. De fato, todos ficaram ansiosos com o que poderia vir.

Isso trouxe novos ares para as duas empresas e, em especial, para seus consumidores, que temiam algumas atitudes um tanto desagradáveis praticadas pela Vivo nos últimos anos. A partir desse anúncio, as coisas realmente pareciam que iam mudar, e não é para menos: sendo uma das poucas operadoras pequenas que restaram para contar história depois da privatização da Telebras, a GVT era referência nacional em qualidade. Em tempos nos quais quase o país inteiro sofria nas mãos da Oi e tinha apenas a NET como saída, a GVT veio para salvar. Não é difícil de recordar a enorme quantidade de pessoas passando horas elogiando a empresa pelas redes sociais e, inclusive, fazendo portabilidade. Em 2010, quando ela chegou ao Rio de Janeiro, foi festa. Quem tinha Oi ou NET Virtua, migrou na hora. Foi um sucesso. Desde então, a operadora se tornou um símbolo de respeito ao consumidor, e, por isso, Amos Genish era visto como visionário, a ponto de ser eleito, em 2015, como “empreendedor do ano em telecomunicações” pela revista IstoÉ Dinheiro.

Pelo visto, isso acabou. Desde o anúncio de março, muitas mudanças negativas vieram acontecendo na Vivo. A primeira delas ocorreu antes da gestão de Amos Genish, com o fim da “internet ilimitada” na operadora, isto é, ao passar da sua franquia contratada, você continuaria tendo acesso à internet, porém com velocidade limitada. De dezembro de 2014 aos dias atuais, isso acabou. Ou seja, diferente de qualquer operadora que não a Vivo, se você, por exemplo, adquirir 2GB de internet e consumir toda essa quantia, logo após você não terá mais como acessá-la pela rede móvel, a não ser que contrate um pacote extra de dados, e que seja dita a verdade: não são baratos, tampouco flexíveis. A exemplo, em fevereiro, retornei à Vivo e quando assinei o novo contrato já havia algo diferente comparado ao que assinei em 2013:

Após atingir o limite de dados do plano contratado a internet é bloqueada até o próximo ciclo de faturamento e o cliente terá a opção de, conforme a disponibilidade, contratar um pacote adicional em sua linha.

A notícia foi recebida com indignação. Aos poucos, muitos clientes se revoltaram, e não é para menos. De um dia para o outro, a Vivo alterou, sem aviso prévio e sem muito alarde publicitário, o contrato de todos os clientes, que, de repente, tiveram sua internet “promocionalmente” ilimitada até o dia 31 de dezembro de 2014. Restou somente aos veículos de notícias a responsabilidade de espalhar a ação da operadora.

De lá para cá, muitas polêmicas aconteceram. A exemplo, em agosto do ano passado, Genish desrespeitou bilhões de usuários, inclusive seus clientes, tal como feito pela sua operadora meses antes. O executivo, sem mais nem menos, decidiu demonstrar a sua verdadeira face, dizendo que o aplicativo WhatsApp, tão conhecido pelos brasileiros pela troca de mensagens instantâneas, ligações e mídias ilimitadas sem cobrança alguma pela utilização da internet, era um serviço pirata. Isso indignou tanto seus clientes, como aqueles que nunca tiveram um vínculo com a operadora.

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Contudo, foi em 2016 que muitos, senão todos os clientes, tiveram motivo para ir contra a operadora. No finalzinho do carnaval, na quarta-feira de cinzas, de acordo com o Tecnoblog, não somente os clientes da Vivo Móvel teriam a internet cortada ao atingir 100% da franquia. Isto é, tal como com os celulares, no Vivo Internet Fixa, a partir de agora, a operadora está oferecendo uma “promoção” até o dia 31 de dezembro de 2016, na qual, até tal data, seus clientes poderão utilizar a internet sem limite algum, ou seja, sem redução de velocidade ou bloqueio do serviço, questão ainda não decidida pela operadora.

A partir dessa data, haverá um limite de consumo, estabelecido em contrato, de 10GB a 130GB, dividido entre as velocidades contratadas. Quem contratar a Banda Larga Popular de 200 kb/s, 1 e 2 Mb/s terá direito a somente 10GB por mês; os assinantes de 4 Mb/s terão apenas 50GB; 8 e 10 Mb/s contarão com 100GB; 15 Mb/s, com 120GB e 25 Mb/s, com 130GB. Ou seja, passou disso, já sabe: bloqueio ou redução. Ainda a decidir, a operadora, pelo Twitter, diz outra coisa:

Procurada pelo Tecnoblog, a operadora desmentiu a informação, dizendo que ainda estão avaliando o que será feito em relação aos clientes Vivo Fibra e GVT, uma vez que, quando pesquisado o Contrato de Prestação de Serviço da GVT no dia 17 de fevereiro, não foram encontradas referências a franquias, podendo deduzir que esta seja ilimitada, já que nunca houve um relato sobre limites de banda ou bloqueios após consumo excessivo de dados na operadora.

O estabelecimento de franquias em internet fixa no Brasil não é novidade e nem pioneirismo da Vivo. Sendo cliente da NET desde 1996, pude observar a estratégia da empresa colocando limites da mesma maneira, porém bem mais generosos do que os da Vivo. Caso eu assine o plano básico de 2 Mb/s, terei uma franquia igual a 30GB mensais; 15 Mb/s com 80GB; 30 Mb/s: 100GB; 60 Mb/s: 150GB; 120 Mb/s: 200GB. Caso ultrapasse, você terá a velocidade reduzida, como prevista em contrato:

Franquia de Consumo NET VÍRTUA é o limite mensal de consumo de cada cliente e varia conforme o plano contratado. Ela existe para garantir a boa qualidade da conexão. O cálculo da franquia é feito com base na soma de uploads e downloads consumidos ao longo do mês. Quando o limite da franquia é ultrapassado, a velocidade é reduzida para 512kbps. Neste caso, é possível contratar um upgrade de velocidade ou uma franquia complementar de 5GB ou 20GB.

Observa-se, porém, um fato: além de a NET ser a única operadora a mencionar a franquia no momento da assinatura — sem criar a necessidade de o cliente ter de ler detalhe por detalhe do contrato para descobrir se há limitações ou não –, poucos são os que relatam algum caso de limite imposto pela operadora, acontecendo somente em regiões cuja rede esteja constantemente sobrecarregada. Há, também, o caso de algum problema técnico na região, como aconteceu no meu bairro recentemente, quando um incêndio atingiu uma central e diversas fibras óticas da Embratel e da NET e deixou o serviço indisponível com frequência por duas semanas, além de dois meses intermitente.

O mesmo acontece com a Oi, que, embora possua limites — assim como a GVT –, até hoje não apresenta relatos de limitações de banda após o consumo total da franquia. Entretanto, diferente da NET, a Oi segue a mesma escala da Vivo, inclusive com a “promoção”, uma vez que é informado em contrato onde, até o dia 15 de março de 2016, a internet será ilimitada. Ela só é um pouquinho mais generosa do que a operadora espanhola, visto que oferece 60GB mensais para quem assina o plano de “até 2 Mb/s”, 70GB por 5 Mb/s, 90GB por 10 Mb/s, 110GB por 15 e 20 Mb/s e 130GB por 25 e 35 Mb/s. Além disso, uma vez esgotada a franquia mensal de dados, “a Oi poderá, a seu exclusivo critério, reduzir a velocidade contratada pelo cliente até 300 Kb/s até o final do respectivo mês”, isto é, depende da boa vontade dela, o que acredito que não vá acontecer, pois os equipamentos da Oi são tão defasados e sucateados que, em muitos casos, alterações de velocidade só podem ser feitas manualmente em centrais telefônicas. Ou seja, é quase óbvio que eles não vão reduzir.

Por incrível que pareça, há uma saída das boas. Em relação às principais operadoras que oferecem serviço de internet, a Live TIM é uma das poucas que, além de oferecer um plano com preço justo e velocidades decentes, sem fidelização e sem a necessidade de um combo — assim como o contrato atual da GVT –, não apresenta nada sobre franquias e limitações de banda ou bloqueio de conexão por consumo excessivo. Mesmo no plano Live TIM Extreme — serviço extremamente caro, porém um dos únicos com conexão por fibra ótica com um plano de 1 Gb/s ilimitado — nada sobre isso é encontrado.

Sendo assim, há para onde correr, pois, até agora, temos duas opções: GVT e Live TIM. Certo? Errado. Em primeiro lugar, a GVT, a marca com tantos méritos, inclusive com premiações como “o melhor lugar para se trabalhar”, já está com dias contatos. É o que relata a própria operadora, que já planeja a adoção da marca Vivo em todos os produtos da companhia (incluindo a própria GVT) a partir do dia 1º de abril, tendo a convergência completa em outubro. Porém, basta ir às lojas oficiais da Vivo para ver a logomarca da recém-adquirida espalhada por todos os cantos, além de ofertas de combos, como oferecidas pela NET e a Claro. Dessa forma, é quase que certo que as limitações virão, também, para os clientes da GVT, só não há como supor de que forma e quando. Em resumo, criamos um monstro, e o nome dele é Amos Genish.

Em segundo lugar, é que a Anatel defendeu os interesses das operadoras. De acordo com o superintendente de competição Carlos Baigorri, isso é positivo ao consumidor, uma vez que os que consomem menos dados deixarão de financiar aqueles que consomem demais:

Não há um único consumidor com o mesmo perfil. Mas, conforme a seleção adversa, muitas vezes se faz o preço pela média do perfil de consumo. Isso significa que há aqueles que consomem acima da média e os que consomem abaixo da média. Ou seja, quem consome menos paga por quem consome mais

Ou seja, não vai adiantar reclamar na operadora, pegar o protocolo e abrir um chamado na Anatel. Ao que deu a entender, nada será feito, ainda mais se for algo previsto em contrato. Da mesma maneira, mais uma vez, confirmamos que a Anatel apenas defende os interesses dos gigantes das telecomunicações, ao invés dos interesses de seus consumidores.

Por último — o que é a pior parte — , é que, na maioria dos casos, a Vivo (a Vivo Fibra não se inclui nessa categoria) é a única opção em muitos lugares, especialmente no interior de São Paulo. Contudo, isso não é exclusividade deles. No restante do Brasil, a Oi, que também possui limitações similares, é, também, a única operadora tanto para telefonia fixa quanto para internet fixa. Em Saquarema, Araruama e demais cidades da Região dos Lagos e Serrana, por exemplo, os habitantes contam apenas com a opção de assinar o serviço da Oi, que, ainda assim, não segue os mesmos valores praticados na capital, além de oferecer um serviço bem abaixo do esperado ou, até, contar com disponibilidade técnica para telefones com valores exorbitantes.

Mesmo assim, não precisamos ir para muito longe. Na capital, mesmo com valores conforme apresentados em anúncios publicitários, existem regiões onde a Oi tem exclusividade. E não são bairros afastados, pequenos e com baixa concentração de renda. Em alguns casos, existem ruas em bairros grandes, estruturados e de classe média alta que só possuem essa opção, e, caso haja cabeamento de alguma outra operadora, a concorrente não possui permissão para oferecer serviços que concorram diretamente com aqueles oferecidos pela Oi, mantendo um monopólio.

Agora, com a fusão entre a GVT e a Vivo, só há de piorar e reduzir mais ainda as opções. Tendo a Oi presente em todas as regiões do Sul do Brasil e tendo a GVT como a única ou principal concorrente em algumas cidades pequenas e médias, não haverá para onde fugir, uma vez que a Live TIM, atualmente, é a única operadora a não obrigar e nem oferecer ao consumidor planos com franquias de consumo. Contudo, ela atua apenas nas capitais Rio de Janeiro e São Paulo e, mesmo assim, apenas em localizações limitadas destas — de preferência, nas ruas movimentadas ou nas principais de cada bairro, a maior desvantagem do produto.

Pelo visto, existem meios e possibilidade para piorar a atuação desses serviços no Brasil, e estaremos observando a prova viva disso ao longo do ano, com a fusão entre a GVT e a Vivo, especialmente quando esses limites forem impostos. Ao todo, contamos, no país, com poucas opções de operadoras, mantidas por grandes empresários estrangeiros no ramo das telecomunicações — ou você pensava que alguma operadora no Brasil pertencia a algum brasileiro? — e donos de inúmeras empresas espalhadas pelo mundo inteiro, com históricos de casos de corrupção que, inclusive, afetaram até o Brasil. Entretanto, a cada dia que se passa, perdemos mais e mais o poder de escolha e a liberdade econômica — especialmente em cidades pequenas, onde há monopólios da Oi e da Vivo –, uma vez que, com as regras, normas, regulamentações e impostos excessivos postos pela Anatel e pelas instituições do governo, o pequeno empresário não possui estímulos e capital suficiente para empreender em um projeto que traga mais uma opção à população, impedindo que novos Amos Genish (na época de ouro da GVT) venham a existir, revolucionando o mercado novamente. Por fim, quem paga a conta, obviamente, somos nós.


Ajude-nos a derrubar a ação da Vivo! Participe da nossa petição pública para pressionarmos contra a nova ação! Sua participação é muito importante!