O último final de semana da Cidade de Deus

Marcado pelo terror, o último final de semana é um dos mais assustadores da história da Barra da Tijuca e Jacarepaguá

José Lucena/ Futura Press/ Estadão

Enquanto o texto está sendo escrito, Jacarepaguá parece estar em paz, ao contrário do dia de ontem. Ao que os moradores podem recordar, o último final de semana é um dos mais aterrorizantes da história do bairro, se não o pior de todos. Após uma tentativa de invasão a uma comunidade no Gardênia Azul, o confronto entre traficantes da Cidade de Deus e a polícia foi um assunto de sexta-feira para domingo sem fim, e, pelo visto, ainda sem conclusão.

Entender os motivos do conflito é bastante complicado, mas, se pudermos levar em consideração as histórias que estão correndo, estamos nessa por conta de uma bola de neve que vem se formando há um tempo. É de conhecimento comum que o tráfico nunca se deu muito bem com a milícia, e sendo Jacarepaguá um bairro da Zona Oeste, é fácil compreender quem tem a maior atuação na região. O que ninguém entende é como isso desencadeou uma confusão a esse nível, e, pelo visto, não vai dar para entender.

Além da boataria danada, observa-se, apenas, que foi algo tão grotesco, que o dia de domingo, depois da confusão toda, foi marcado pelas ruas vazias e baixa circulação de ônibus. Quero dizer, além da Estrada Miguel Salazar, que cruza a Cidade de Deus da Taquara ao Gardênia Azul, estar fechada desde sábado de manhã, mesmo sendo uma via fundamental, também, para bairros como Curicica, Tanque e Pechincha, o terror serviu para quem estava nas proximidades, especialmente a Linha Amarela. Não só há o relato do RJ TV de que motoristas se esconderam na via por conta dos tiros, como, também, há quem traga a informação de que, durante a tarde, pedras foram arremessadas contra os carros que cruzavam a via.

Isso quando não havia quem tentasse voltar pela contramão, fato observado nos principais acessos de Jacarepaguá à Linha Amarela sentido Barra, na Avenida Geremário Dantas. Atrás da famosa Papizzo, a briga era entre quem vinha do Pechincha para seguir para a Freguesia com quem vinha de uma via que supostamente era mão única. O trânsito estava um inferno. Na Estrada dos Bandeirantes, na altura da Merck e início da Estrada Miguel Salazar, carros fugiam da confusão pela faixa do BRT, na contramão. O risco de acidentes era eminente, isso quando não recordamos dos moradores que poderiam, a qualquer momento, serem vítimas de balas perdidas. Foi o retrato do caos.

Até o final desse texto, ainda não há como mensurar o número de mortos e feridos pelo conflito, além dos quatro policiais perdidos durante a queda do helicóptero, que ao momento, desconfia-se não ter sido ocasionada por conta de disparos. De qualquer maneira, são vidas perdidas, e esse peso precisa ser colocado na balança. Afinal de contas, a Cidade de Deus não é a única comunidade e Jacarepaguá não é o único bairro a sofrer com o transtorno da guerra às drogas e a violência. Novas medidas precisam ser adotadas, senão nossas canetas tornar-se-ão vermelhas como o sangue das vítimas dessa tamanha insensatez.