Sai Beltrame, fica a crise

Após quase 10 anos como secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame deixa o cargo

Jane de Araújo/Agência Senado/Creative Commons 2.0 Generic

A saída de Beltrame da Secretaria de Segurança Pública do Governo do Estado do Rio de Janeiro deve ser analisada com atenção. Não por conta da figura emblemática que ele se tornou para diversos setores da população, como, também, por conta do panorama atual. Com o que aconteceu na Zona Sul nessa semana, fica mais que evidente que a calamidade pública do Rio não deve ser somente pensada na questão financeira, como, também, com relação à segurança do Estado. Só em 2016, são quase cem policiais assassinados, sem contar o número de assaltos a pedestre, que sobe sem parar, sem sequer uma melhoria de janeiro para cá.

É muita coisa! Como dito por Rene Silva em artigo publicado no jornal O Globo, “ruim com ele, pior sem ele”. Beltrame teve quase uma década de atuação no Governo do Estado. Estando na secretaria desde janeiro de 2007, escolhido pelo ex-governador Sérgio Cabral, o ex-secretário foi responsável pela implantação das UPPs, que salvou 21 mil vidas com a atuação da polícia nessas comunidades, em suas palavras.

Com estatísticas apresentadas pelo jornal, suas atuações foram satisfatórias, reduzindo a taxa de homicídios por 100 mil habitantes de 41,3 para 25,4 de 2005 até 2015, uma queda de 51,31% nos registros de homicídios dolosos na capital de 2006 a 2015. No mais, de acordo com uma pesquisa da FGV/DAPP realizada nos primórdios da UPP, em 2009, a satisfação foi garantida por 96% dos entrevistados que habitam as primeiras comunidades a terem a implantação do programa, Cidade de Deus e Santa Marta, defendendo a sua expansão. Para esses moradores, o programa foi um fator positivo por trazer a redução da violência nessas comunidades, tal qual para moradores de bairros localizados no entorno dessas localidades, entretanto, não é o que se vê hoje, uma vez que inúmeros tiroteios são relatados de março para cá, como o último, em Copacabana.

É nesses fatos que os debates atuais se sustentam. Embora bem sucedido no passado, muitos trazem o argumento de que o modelo das UPPs precisa ser repensado. A essa resposta, Roberto Sá (anteriormente conhecido como a “sombra de Beltrame”), que assumirá a pasta já na segunda-feira, nos traz algumas pistas, prometendo 25 bases blindadas, mas, com a atual situação financeira do Estado, a ideia corre o risco de ser impedida. No entanto, essa não é a principal meta do atual secretário, uma vez que, de início, o mesmo pretende aumentar o policiamento nas ruas visando a redução das taxas de roubos a pedestres, sobretudo, estimular os policiais, que há tanto se queixam dos salários.

José Mariano Beltrame deixa a pasta com inúmeras críticas e elogios ao seu trabalho, inclusive com movimentos como o “Fica, Beltrame”, levantado pela Associação Comercial do Estado do Rio (ACRJ), Paulo Protásio, em entrevista à coluna do Ancelmo Gois, do jornal O Globo:

— O Rio não pode abrir mão do seu trabalho. Ele vem fazendo muito pelo Rio. A associação vai iniciar, com cartazes, a campanha “Fica, Beltrame”.

Será?