Como buscar, revelar e entender nosso propósito de vida.

Bruno Jankowisk
Sep 4, 2018 · 7 min read

É importante iniciar esse texto com uma contextualização, para o melhor entendimento do leitor.

Essa busca por propósito foi concluída com situações que, sem suas devidas menções, não compõe o espírito e embasamento do texto.

Durante essa busca por propósito, questionei os outros monges do templo onde fui ordenado - Wat Sriboonruang, Fang, Chiang Mai, Tailândia. E dessas conversas e conclusões nasceu esse texto.

Não espere uma fórmula facil, um quiz de internet ou um processo místico. Auto-descobrimento leva tempo e dedicação. Mas para aqueles que tem interesse real em se dedicar para esse mergulho, tenho certeza que essa estrutura vai ajudar.

E aproveitando o ensejo, parafraseando o próprio Buda, eu vos convido a ler, entender e tentar, mas não se esqueça:

"Não acredite em nada do que digo até que você veja por si mesmo".

Nas primeiras perguntas sobre propósito para os monges me deparei com uma resposta uníssona:

"O nosso propósito é nos libertar do sofrimento, envelhecimento e morte através de meditação para alcançarmos o nirvana".

Então conversei com o monge que é meu professor, Phra Ajahn Clyde Jaruddhamo, sobre isso, e questionei o propósito do próprio Buda, que além de ter alcançado a iluminação, também cumpriu um propósito importantíssimo como filósofo, ativista e professor.

Ele concordou. Estávamos caminhando pelo vilarejo, voltando da escola. O sol queimava as costas, mas a conversa foi tão prazerosa que nem o sol nos moveu mais rápido. Chegamos no retiro e terminamos a conversa à beira do lago, de pé, como costumamos fazer.

"Como e quando você descobriu o seu propósito?" Questionei.

E ele me contou todo o processo de deixar a vida na sociedade e se entregar a vida monástica. Humilde como é, no final, me disse:

"Não sei se era o que você queria ouvir, mas essa é a minha história."

Enquanto eu equilibrava o manto, uma sacola, caderno e escrevia os pontos-chave que constituem esse texto.

Mal sabia ele que tinha me ajudado a entender essa estrutura com algo que ele achava que não tinha muito valor: o processo. Ele se tornou mais que professor e amigo: se tornou o mestre que balizou minha mudança e o entendimento do meu propósito. E esse era o ponto que faltava pra amarrar tudo.

Pois bem.

Entendemos então que, temos dois tipos de propósito: o pessoal, como fruto da condição humana. E o do indivíduo inserido na sociedade.

Mas e como descobrimos o nosso propósito?

Conversando com ele e refletindo sobre nossas próprias descobertas de propósito, consegui mapear alguns pontos-chave pra quem está na busca pelo seu.

Vale a pena pontuar que por ser um processo longo, cabe a cada um entender em qual fase desse processo está. Assim a visão sobre completude fica mais tangível pra realidade de cada um.

1. Pare de buscar fora e busque dentro.

Nosso propósito se encaixa no que somos. No constructo de presente/passado que nos trouxe até aqui. Se questionar é o primeiro passo. E aqui estão algumas perguntas para ajudar:

Através da minha percepção sobre mim mesmo, quais mensagens eu passo através dos meus atos?

Através dos meus atos, como as pessoas se sentem quando, durante o ato me sinto completo e feliz?

Em que eu já ouvi diversas vezes que sou bom mas nunca aceitei? Por quê?

Quais hábitos ou comportamentos eu preciso abandonar e ainda não abandonei?

O que eu faço hoje me faz feliz?

Veja que não tem nenhuma pergunta especulando futuro, drenando o passado ou confabulando aspirações. A ideia é se concentrar no seu constructo presente.

A meditação ajuda muito nessa fase. Acalmar a mente com Samatha ou gerar insights praticando Vipassana vão contribuir bem para trazer nossa atenção para esse momento presente.

Nota: esse processo pode ser doloroso. Olhar pra dentro nos faz entrar em contato com a nossa sombra e memórias não muito prazerosas. É um bom momento para começar a se perdoar e ver que o eu de ontem não é o eu de hoje. E que o eu de amanhã está dendo construído com o melhor que você se tornou. Confie no processo e siga em frente.

2. Mude de direção

As chances são de estarmos no caminho errado. Ou pelo menos não no mais adequado. Caso contrário não estaríamos procurando por propósito, certo?

Mudar de direção é praticar um hábito. Não é jogar tudo pro alto e cair numa aventura irresponsável. Isso você pode fazer depois.

Cultive o hábito de se permitir coisas diferentes. Tente comidas que você não gosta de novo. Vá a lugares que você nunca foi. Converse com alguém que normalmente você teria aversão, veja um filme de outro país, retome contato com amigos de infância, passe frio, faça um curso aleatório, retome a prática do violão... São pequenos atos que dependem única e exclusivamente do redirecionamento dos seus esforços. Não dá pra colocar a culpa no mundo.

Essa mudança de direção vai te ajudar a redefinir prioridades, eliminar preconceitos, retomar confiança, ampliar seu conhecimento e certamente te trará satisfação e boas histórias pra contar.

Esse processo pode parecer solitário. Pode parecer que ninguém vai te entender. Fique atento e pratique ouvir as pessoas. Sempre tem alguém na mesma busca que a gente. Conversar é sempre bom.

3. Sinais

Parece besteira, mas fique atento as coincidências. Elas são sincronismos em algumas situações. Aquela pessoa que reaparece do nada, um convite diferente, repetições de estímulos incomuns, um sonho, uma sugestão estranha de filme do netflix...

Fique atento. Seus órgãos sensoriais vão buscar magnetismo naquilo que o cérebro está trabalhando. Trataremos novamente sobre sinais mais à frente.

Sinais são delicados e precisamos de parcimônia pra entender aquilo que se coloca a nossa frente como inevitável e aquilo que tentamos forçar de forma quase conspiratória ou infantil. Mas não tem problema. Você vai perceber isso com o tempo. Esse contraste também é necessário para reforçar os sinais importantes e latentes.

4. Desapego e desconforto

Depois de mudar de direção, a sua mente já deve estar mais aberta para novas experiências. Essa curiosidade e energia que devem aparecer nessa fase podem ser aproveitadas para guinar um pouco mais a mudança de direção e se desfazer de coisas e ideias velhas. É momento de perder coisas, de esvaziar, de ficar mais leve para focar nas coisas que são de fato importantes e reduzir nosso ego a um constructo presente, simples e de fácil entendimento, com verdades claras e energia plena.

Desabafe aquele rancor entalado a anos. Reavalie seus relacionamentos de amizade, amorosos, biológicos e sociais.

Doe ou venda livros, quadros, roupas.

Mude hábitos enraizados como alimentação, consumo de álcool em excesso, fumo, falta de sono, auto-medicação, reclamar, etc.

Nessa fase a sua mente já abandonou boa parte da carga negativa e pressão social e pessoal que nos impede de ver a realidade com clareza. Que nos distrai e nos faz desviar das nossas verdades para crer nas dos outros e em convenções sociais.

Sem nossos confortos nossa mente capta mensagens mais sutis e coincidências Abandonar o medo do desconhecido e da incerteza é parte desse processo. Confie nos seus sentidos e instintos. Se parecer um desafio, vá.

5 - Chamado para o desafio

Durante esse processo todo, algumas coisas vão ficar claras. Sua mente mergulhou num processo de autoconhecimento e esse precisa ser colocado em prova. Chegará o momento de se testar.

Os sinais captados apontam para algo inevitável. Seja uma oportunidade de trabalho, uma vontade incontrolável realizar algo novo, mudança de religião, uma viagem, mudar de cidade, etc. E aqui é a fase mais solitária da busca pelo propósito. Apesar de ainda não saber qual ele é, você sabe onde ele está e o que você tem que fazer pra entendê-lo.

Esse momento é crucial. E pode ser também assustador. O medo de falhar não pode te impedir. Atenda o seu chamado e se dedique a ele.

Se descobrir como indivíduo é ponto chave na revelação do propósito. E depois de testarmos nossos limites, esses se expandem e nos colocam na trilha certa para finalizar nossa busca.

6 - Mestre

Inúmeros serão os personagens pela estrada. Para aquele que está atento aos sinais, todo ser é um professor. Mas tem alguém que vai te conduzir. Essa pessoa, provavelmente, não vai bater na sua porta. E nem sempre é óbvio. E esse é o momento de terminar de destruir nossas ilusões e aprender com quem tem experiência.

Mas por que precisamos de um mestre?

Facilmente confundimos altruísmo com egocentrismo, superação com culpa, insatisfação com incompetência e direito com dever. Um mestre vai ajudar a te questionar e deixar sua busca mais clara e menos egocêntrica.

Nosso propósito deve se revelar de forma simples e elegante, com poucas palavras e muito significado. Como experiência própria, eu mantive 2 perguntas comigo nos últimos meses, e as respondi diversas vezes de forma errada e egocêntrica. E essa estrutura me ajudou a delimitar as respostas dentro do que eu sou e não do que eu achava que os outros deveriam ser. Pergunte-se:

O que eu quero provar pra mim mesmo?

O que eu quero provar para os outros?

E essa última é a grande catarse. Não querer provar para os outros que, através do que nos somos, somos melhores do que eles. Mas que através do que aprendemos, nosso propósito reside em curar os outros dos males que superamos ou que identificamos.

Sempre o propósito é a cura, perpetuação da espécie e da sua qualidade de vida. Da expansão do amor e do cultivo da equanimidade, da empatia, do bem estar e da felicidade. Seja como professor, orientando os caminhos tortuosos pelos quais ele já percorreu. Seja na psicologia, orientando com destreza como apaziguar os movimentos da mente. Seja o padeiro, provendo alimento fresco pra começar nossos dias. Seja através da música, levando mensagens pra quem precisa. Seja através de um texto, mostrando que você pode.

E esse é o meu propósito. Mostrar para as pessoas que elas podem e ajudá-las a conquistar o que querem. Encontrei nos meus escombros força pra recomeçar e provei pra mim mesmo que eu podia. Relato esse processo pois percebi que tem muita gente também nessa busca e todos os sinais me trouxeram até aqui. Assim como os outros monges também tiveram caminhos similares. Incluindo meu mestre, que inspirou e revisou a estrutura e conteúdo desse texto.

Olhe a sua volta e questione as pessoas que passaram por esse processo e constate por si mesmo.

Para quem tiver interesse, um ótimo texto para se ler é "A jornada do herói", do incrível Joseph Campbell.

E para finalizar, o mestre do meu mestre, Luang Pu Thong (Wat Phradathu), diz:

"Aqueles que fazem o que dificilmente alguém pode fazer, suportam o que dificilmente alguém pode suportar e superam o que dificilmente alguém pode superar. Esses alcançam o que dificilmente alguém vai alcançar: desenvolvimento espiritual."

Espero ter ajudado. E pra você que leu até o final, obrigado e boa sorte. Descobrir o propósito é o começo do caminho.

Executar o propósito é o caminho.

Bruno Jankowisk

Written by

Consultor de estratégia de marca, designer de identidade visual, professor, pesquisador, viajante, instrutor de meditação e ex monge budista.