DANDO NOME ÀS CLARICES

Deus disse: “Faça-se a luz!” E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz DIA, e às trevas NOITE. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia. (Gênesis, 3–5)

Até Deus que não tinha estudado Linguística (porque ele ainda não a tinha inventado) sabia que só se cria as coisas por meio de um ato de linguagem. Deus foi criando o mundo denominando-o. No universo mítico, dar nome é criar e a linguagem é o que dá sentido ao mundo.

Depois deus criou os Poetas e se ferrou. Os Poetas viram que podiam ser deuses. Que podiam criar um mundo por meio da palavra e assim dar um sentido para um bando de gente que queria que a vida fosse mais do que isso que se vê. Deus se sentiu desautorizado, mas viu que isso era bom.

Não contentes, os outros mortais também queriam ser deuses, queriam inventar nomes e dar nomes. Daí os marginalizados criaram as gírias. As comunidades geográficas os dialetos. Os ricos e pobres seus socioletos. E por aí vai.
Não contentes, os donos de animais de estimação quiseram dar esquizofrenia para seus bichos. E começaram a dar nomes de pessoas para eles.

- Este é meu gato Joyce.
- Joyce? Mas ele não é macho?
- Joyce, de James Joyce, o escritor de Ulysses, conhece não? Ai, difícil falar com quem não tem cultura.
- E sua cadela?
- Ah, ela é a Clarice. Desde pequena vi que ela ía ser complicada então coloquei Clarice. Mas ela é linda, não é?

E Clarice, vendo tal homenagem, deixou-nos um depoimento psicografado pelo facebook:

“A gente escreve um monte de livro pra depois esses idiotas colocarem nosso nome em bicho!”.

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