Good bye, Lenin!

Por Bruno Latorre

A queda do muro de Berlim e todas as transformações decorrentes são demonstradas por meio de um drama familiar no lado socialista da Alemanha.

Em 1989 a Alemanha é dividida em dois lados: Ocidental-Capitalista e Oriental-Socialista. Neste último lado, sob o regime marxista-leninista, o protagonista-narrador vive tranquilamente sua vida.

Desde criança, Alex (Daniel Brühl) quer sercosmonauta (termo socialista para astronauta), demonstrando seu lado sonhador, porém ele pouco se importa com a política. Já sua mãe, Christiane Kerner (Kathrin Sass), é uma defensora contumaz do regime socialista. O marido ficou no lado Ocidental, deixando-a depressiva, mas passada essa fase ela concentra sua libido no trabalho. Seu novo marido é o Partido Comunista Alemão. Tornara-se uma idealista.

O drama inicia-se quando Alex foi “passear” numa passeata pelo direito de andar sem a intervenção do muro de Berlim. Neste momento Christiane observa a manifestação e vê Alex em combate com a polícia. Passa por sua cabeça uma gama de graves emoções: medo de perder Alex da sua vida, como perdeu seu marido; ficou chocada com a violência policial e pelo fato de seu filho estar participando de uma manifestação contra um regime do qual ela defende. Enfarta e como efeito colateral entra em coma.

Durante o período em que a Srª Kerner está internada, Alex cuida dela e conhece a enfermeira Lara (da URSS) (Chulpan Khamatova), e a Alemanha (e o mundo) tem uma das maiores transformações da sua história: a queda do muro de Berlim. Acontece a derrocada do Socialismo na Alemanha. O Capitalismo vencera. As fronteiras entre os dois lados agora está aberta e muitas pessoas do lado oriental agora podem experimentar os prazeres da vida neoliberalista.

A economia de mercado invadira rapidamente a vida de todos na Alemanha Oriental. A irmã de Alex, Arine (Maria Simon) desiste da faculdade de Teoria da Econômica e vai trabalhar no fast-food Burguer King. Além deste símbolo do capitalismo, temos a Coca-Cola em todos os lugares, carros novos, etc. As mudanças não foram somente no panorama político-social, mas se estenderam ao cotidiano e à ideologia das pessoas, algumas aceitando passivamente a esta mudança brusca e outras tentando se adaptar. Os idosos foram os mais resistentes, pois como aceitar que algo que eles lutaram por 40 anos, os seus sonhos, etc, acabou em poucos meses? Essa é uma das características que veio com a pós-modernidade: tudo muda muito rápido.

Oito meses foi o tempo que Christiane Kerner ficara no coma. O médico orienta Alex para que sua mãe não sofra nenhuma emoção devido sua frágil saúde. Alex sente-se culpado pelo que aconteceu com sua mãe e os seus atos a partir disso serão o motor da história.

Como explicar para a Srª Kerner que todas as coisas em que quis acreditar para compensar a perda do marido simplesmente desapareceram? Como isso era praticamente inviável inicia Alex a sua saga de reconstruir a antiga Alemanha Oriental como se nada tivesse acontecido naqueles oito meses do coma da sua mãe e para isso, usa produtos, notícias e até mesmo pessoas, mostrando, posteriormente, uma fictícia derrocada do capitalismo na Alemanha.

Alexander é o narrador-protagonista que manipula toda a história. Como disse anteriormente sobre o pouco interesse dele por política, através de um amadurecimento deficitário, com os acontecimentos últimos, ele revê seus objetivos sobrevivenciais e começa a ter todo um ideário de valores familiares e políticos. Durante a trama Alex se mostra totalmente sonhador, criativo e persistente, movido por uma intensa vontade de fazer os últimos tempos de sua mãe felizes. Suas artimanhas nos proporcionam cenas bem humoradas e criativas, como por exemplo, nas investidas que Alex faz com seu amigo que possui uma veia cinematográfica, editando notícias para a Sr.ª Kerner assistir, ou seja, eles criam até um canal de TV para enganar a mãe comunista.

A mais bela cena acontece quando a Sr.ª Kerner sai da ilusão do seu quarto e vai à rua. Observa, estranhando o que vê e confusa, coisas que não existiam em sua vida, em seu país, e vê sendo carregada por um helicóptero a estátua de Lênin, que passa por ela com o braço estendido, como se dizendo adeus. Mas Alex sempre acha uma desculpa para tudo. Ele explicou o fato de as coisas estarem diferente a sua mãe com a criação da notícia de que o socialismo não visa somente um mundo melhor, mas sim conviver com outras pessoas e por isso as portas das fronteiras foram abertas (cenas da queda do muro de Berlim) e os dois lados se misturaram, ou seja, ele fez uma inversão da realidade. E essa manipulação acaba sendo a construção da própria ideologia do protagonista, pois estas notícias eram no fundo o que ele mesmo gostaria que tivesse acontecido.

Naquela época era fácil manipular a verdade quando se imita a estética discursiva de algo que tem autoridade sobre o que é verdadeiro ou falso, num regime autoritário, como foi o socialismo.

Em contrapartida, também o filme tem um cunho apelativo nostálgico não no sentido de “idealizar o passado socialista”, mas de questionar a atitude daqueles que aceitaram tão passivamente as fórmulas do mercado de trabalho e do capitalismo em tempos de reestruturação liberal.

Voltando à trama, há uma cena em que a mãe Christiane conta a seus filhos que seu pais não os deixou por outra mulher, mas que juntos iriam para o lado ocidental, mas ela se manteve no lado oriental com os filhos, temendo represálias. Este episódio, e outro posterior, em que, após outro infarto, a namorada de Alex e enfermeira Lara conta a Sr.ª Kerner toda a verdade, perdendo Alex a onisciência da narrativa, a mãe finge não ter descoberto nada, mostrando a abnegação e amor que tanto filho quanto mãe tinham um pelo outro.

Nos aspectos técnicos cinematográficos o filme não tem grandes inovações. Há estratégias narrativas e estéticas convencionais. Há fórmulas causais de Hollywood repetidas, como as cenas em que Alex engasga comendo uma fruta quando conhece a amada, o desenho animado com os meio-irmãos, o modo como Alex e a irmã reagem com o pai, entre outros clichês. O que não se sustenta no filme é o fato de que é inconvincente de que Alex dispusesse de tempo e dinheiro suficientes para satisfazer os desejos de sua mãe. E um fato curioso: a necessidade obsessiva de Christiane por marcas específicas de produtos socialistas, de idiossincrasia preferencial pode ser uma distorção exagerada das obsessões consumistas? Há referências (ou emanações plagiadoras) de Kubrick e uma belíssima trilha sonora composta pelo francês Yann Tierssen. Mas o filme por si só se figura excelente pelo engenhoso roteiro e pelo modo do diretor apresentar a história da Alemanha de maneira tão universal, atingindo no tocante a todos os espectadores.

De maneira lúdica, inteligente e dramática, o diretor conseguiu mostrar como a queda do muro de Berlim afetou as pessoas que acreditavam em um mundo socialista, e as mudanças políticas, sociais e culturais do período. E um lindo relacionamento de amor e carinho de um filho por sua mãe.

***
Aspectos interessantes: A determinação do protagonista Alex; a relação afetiva dele com sua mãe; o “mundo” que ele cria para ela, as situações inusitadas decorrentes desta criação; a combinação de política, bom humor e emoção.

Ficha técnica:
Titulo original: (Good Bye, Lenin!)
Lançamento: 2003 (Alemanha)
Direção: Wolfganger Becker
Atores: Daniel Brühl, Katrin Sass, Chulpan Khamatova, Florian Lukas, Alexander Beyer, Burghart Klaubner
Duração: 118 min
Gênero: Drama/Tragicomédia

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