Que horas ela volta?

Por Bruno Latorre

Acredito que o valor de uma obra de arte não está em suas especificidades técnicas, mas em sua universalidade, que é o poder de identificação com cada um de nós. E nisso, o filme “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert, é um espelho de identificação da sociedade brasileira, majoritariamente classe C, majoritariamente empregada doméstica e filha de empregada doméstica, como eu sou um filho de.

O filme me fez lembrar especialmente alguns momentos da minha vida. Um deles foi quando estava hospedado como visita num apartamento de classe média-alta em São Paulo e depois de comer, coloco-me à pia para lavar a louça que sujei enquanto a empregada doméstica tenta intervir dizendo que deixasse que ela lavaria. Eu disse que não, que eu mesmo iria lavar o que sujei. Embora eu estivesse ali como visita da patroa, compartilhando, aparentemente, com esta o mesmo “nível” nas relações de poder, eu via naquela mulher, a empregada, a minha mãe.

Me levo a pensar que domésticas são, no panteão das profissões, uma categoria especial. Quantas mulheres vivem parte de suas vidas vivendo a vida de Outras famílias, criando Outros filhos, dentro de Outras casas? Acabam sendo consideradas da família, mas nunca serão da família, como vemos a personagem Val, que é da família, mas não pode sentar-se à mesa com os patrões porque este não é o seu lugar. Eu, como filho de empregada doméstica, enquanto ficava em casa fazendo o trabalho também doméstico, quantas vezes não me perguntava “Que horas ela volta?” sempre atento ao som da parada do ônibus.

Além da identificação como a personagem de Val com a minha mãe identifico-me eu próprio com a sua filha, Jéssica, uma migrante nordestina que vai até São Paulo para prestar vestibular de Arquitetura, na FAU, para espanto dos patrões de Val. Jéssica é o inesperado. Articulada, inteligente e insubmissa às relações de poder hierarquizantes na sociedade, ela vem para incomodar aquela ordem vigente, me lembrando até o personagem principal de Teorema, filme do italiano Pasolini. Exatamente como eu, que sempre procurei fugir do determinismo social da origem da minha família, tornando-me crítico e articulado, Jéssica não se conforma com aquilo que é imposto à mãe, ela não se vê como cidadã de “segunda categoria”, mas se vê como igual, com o mesmo direito e poder de fala.

Eu e também Jéssica lutamos contra todas as agruras ao longo da vida para que pudéssemos ter um aprendizado capaz de nos levar à educação universitária, Jéssica passando num vestibular de universidade pública, e eu, tendo uma das maiores notas do ENEM na minha cidade para ter bolsa integral.

Ademais algumas falhas de argumento, o filme de Muylaert toca na raiz de nossa estrutura social, como também incomoda ao desmascarar a falsa boa afetividade das relações de poder. E merece destaque, como obra, por pôr luz àquilo que se quer apagar, por dar visibilidade aos invisíveis, que é o brasileiro em sua maioria.