SOBRE URSOS E URSOS

Quando criança eu não era cricrítico e como toda criança feliz e só mais um filho de mãe brasileira eu via TV. Nada de TV Cultura, era Gugu. Mas o que mais me fascinava era quando aquele louro meio jovem de meia idade em rugas plastificado anunciava: Ursinhos de Pelúcia da Maritel!

Eu era apenas uma criança e não sabia diferenciar se isso de ter um ursinho de pelúcia era coisa de menino, de menina ou de viado, eu simplesmente queria ter um ursinho, mas só se fosse da Maritel.

Minha pobre família cedeu à greve de fome de uma criança de cinco anos e lhe deu o tal urso da Maritel.

Ele era lindo como toda coisa amada nos parece. Azul (há um mundo onde os ursos sejam azuis, talvez no mundo dos Ursinhos Carinhosos), com faixas coloridas no peito que na vida adulta aprendi que pareciam a bandeira GLBT (ou sigla mais atualizada). Não que as cores tenham influenciado em minha futura orientação sexual ou só pelo fato de eu ter comprado um ursinho tenha determinado tal, mas eu fico curioso pelas cores, cor é algo bem bicurioso, o que são as cores, se perguntavam os filósofos, mas aí veio a chata ciência e diz que a cor é uma percepção visual provocada pela ação de um feixe de fótons sobre células especializadas da retina, que transmitem através de informação pré-processada no nervo óptico impressões para o sistema nervoso e ainda não sabemos a relação dessa percepção visual com a minha sexualidade que pode ter sido determinada biogeneticamente ou é um construto social, como diz a Queer Theory, podemos dizer ainda de um golpe de um grupo segmentado da indústria de bichinhos de pelúcia para influenciar, com tais cores no coração dos ursinhos, as crianças a serem e pensarem o que se leu acima.

Enfim, o ursinho de pelúcia me tornou filósofo ou no mínimo gay.

A única coisa que me recordo é que tirei dele o laço aristocrata do seu pescoço e furei seu cu. Eu era uma criança engraçada.

Agora pasmem, meu segundo urso não era um urso, era um leão, mas disse pasmem pelo fato de eu o ter conseguido naquelas máquinas de pegar ursinhos de pelúcia, os caça-níqueis das crianças, pois não há ninguém que consiga pegá-los. Eu consegui. Primeira vez que tentei, consegui, e isso nunca mais se repetiu, foi como perder a virgindade da sorte.
Ele era um leão azul (ursos de pelúcia tem influência da fase azul de Picasso?) e tinha uma juba dourada digna da música de Caetano. Meu passatempo preferido era cortar-lhe a juba nos mais modernos cortes de cabelo da última moda. Não me tornei cabeleireiro, no máximo me tornei viado.

Urso, leão, viado, isso já está ficando confuso.

Pois então eu cresci e meus ursos se foram e hoje prefiro ursos que não são bem estes dos quais estou falando. Mas esta é outra história.

Bruno Latorre