WISLAWA

Por Bruno Latorre

Wislawa aos 82 anos era virgem. Era cadastrada nas redes sociais como uma jovem bonita de ar cool, vinte e quatro anos, inteligente, com quase dois mil amigos no Facebook. Começou a fazer sucesso com suas postagens irônicas e inteligentes até que começou a chamar atenção da crítica com seus poemas. No entanto, recusava todos os convites, pois afinal, era Sophie, 24 anos, linda, prodigiosa e envolta em todo um mistério. Apesar dos quase dois mil amigos, Wislawa nutria um grande desprezo pela sociedade. Vivia para seus poemas e para seus gatos, pois acreditava que, apesar de todo egoísmo do ser humano, se vive para o outro. Mas o outro necessariamente não é um ser humano, pode ser um gato ou um poema.

Descobriu a epifania lendo seus poemas para seus gatos, treze no total. Sentia-se nesses momentos a Clarice Lispector, uma escritora sempre muito complicada.

Vivia num vilarejo abandonado cheio de velhos que odiava, mas assim era melhor, velhos estão sempre em casa e assim não era visitada. Não gostava de velhos, gostava dos jovens do seu facebook. Chamava-os carinhosamente de “meus beatniks” quando conversava com um dos seus gatos, o Godot, isso quando ele aparecia.

Os vizinhos a achavam estranha, aquela velha reclusa com treze gatos que parecia não ter ninguém e que só recebia visita uma vez por ano de uma travesti de olhos tristes.

E ainda tinha um hábito que assustava quem passava: todo dia à meia-noite punha-se à sacada para fumar um cigarro na noite gélida da Polônia. Olhar a estrelas e fumar o cigarro fazia Wislawa se sentir viva, se sentir corpo.

Era tão sóbria e feliz em sua vida, mas às vezes chorava quando pensava em seus pais. Wislawa os viu morrer sem dizer a eles que nunca acreditou em Deus e que não gostava dos homens.