
O Dia Que Capotei De Ônibus Para Ver o Metallica.
A primeira banda que tive na vida foi um Metallica cover, onde eu tocava bateria.
Eu era super fã da banda e, quando descobri que em 1999 eles tocaria no dia seguinte do meu aniversário de 18 anos, tive que dar um jeito de ir nesse show.
Infelizmente, morava em Brasília e eles tocariam em São Paulo.
Tudo começou com o lugar estranhíssimo para a compra do ingresso. Um loja da M.Officer em um shopping de bacana em Brasília.
Fomos lá. Eu e um amigo, vestidos com a farda do Colégio Militar comprar o ingresso.
A excursão de ônibus de Brasília a São Paulo, sairia na sexta a noite e domingo a tarde já estaria de volta.
Meus pais, com alguma preocupação, deixaram eu ir.
Já com 18 anos e me sentindo muito responsável, entrei no ônibus e a primeira pergunta que nos fizemos foi: “Será que essa porta de emergência funciona?”. Estávamos bem abaixo dela, que ficava no teto.
A viagem começou normal. Um monte de metaleiros, tocando a zona durante a noite inteira era algo totalmente esperado.
Uns perderam um pouco a noção e já começaram a beber demais.
Uns gritavam: “Coloca Meshuggah pra tocar!”. Outros, queriam descansar e apenas dormir para a viagem de quase 14 horas fosse mais rápida.
Por volta de 6 horas da manhã, ainda havia um pouco de zona na parte de trás do ônibus. Eu e esse amigo, estávamos mais no centro do lado direito.
Eu me sentei na janela e consegui finalmente dormir um pouco.
Lembro de escutar ao fundo “Snow Blind” do Black Sabbath tocando no sistema de som do ônibus e aproveitei pra fechar os olhos.
Alguns momentos depois, senti o ônibus fazer uma curva para a esquerda, pressionando meu ombro direito na janela com muita força.
Quando percebi o que estava acontecendo, o veículo já estava no ângulo de 45 graus.
O tombo era inevitável.
Meu mundo ficou em câmera lenta. O Filme Matrix havia estreado há poucos meses daquele mesmo ano e a referência foi bem clara pra mim.
Em milésimos de segundo, consegui pensar na minha vida toda.
“E se eu morrer? Minha mãe vai ficar arrasada! Minha família? E minha vida? Tenho tanta coisa pra fazer ainda!”, eu pensava.
Me imaginei como o Cliff Burton, ex-baixista do Metallica que morreu em um mesmo acidente de ônibus sendo jogado pela janela e que acabou esmagado pelo veículo.
Mas até hoje não entendi muito bem o que aconteceu, mesmo sendo tudo em câmera lenta.
O ônibus bateu no chão e uma gritaria cheia de “puta que pariu”, “caralho” e “merda”, ofuscou a música de fundo.
Na minha cabeça, imaginei um penhasco enorme e o ônibus iria rolar ladeira abaixo até se chocar com uma dessas pedras enormes e explodir. Era o meu fim.
Me lembro de ter agarrado o banco da frente e virei de cabeça pra baixo rodopiando mais do que qualquer brinquedo de parque de diversões.
O ônibus parou. E agora? Um silêncio.
Mexi as pontas dos meus dedos do pé para ter certeza que não havia sofrido algum trauma nas costas.
Tirando a dor nos meus braços, tamanha força que usei para segurar no banco da frente, eu estava perfeitamente bem.
Olhei para cima e meu amigo já estava de pé com a cabeça sangrando e seu casaco de moletom cinza estava metade vermelho.
Perguntei se ele estava bem e ajudei a abrir a saída de emergência.
Sim, ela funcionava.
Ajudei algumas pessoas a saírem do ônibus com suas mochilas, que como a minha, deviam ter apenas um par de meias reserva, uma cueca extra e uma outra camisa do Metallica para o momento do show.
A ajuda dos bombeiros chegou rápido. Estávamos há alguns quilômetros de distância da ponte que dividia o estado de Minas Gerais e São Paulo.
Já passei algumas outras vezes por essa mesma estrada e posso confirmar, era a última curva que o motorista poderia tombar. Ele não perdeu a oportunidade.
O que o motorista contou para todos é que ele estava com sono e havia muita neblina e quando viu a curva era tarde demais.
Quem estava mais calmo tentou acalmar os que ficaram mais nervosos. Havia prioridade aos que mais se machucaram para entrarem nas ambulâncias das cidades mais próximas, como estávamos bem, esperamos a segunda leva do resgate.
Ainda bem que não houve fatalidades. Apenas feridos.
O mais impressionante foi que uns 10 minutos depois do ônibus já estar tombado de lado, alguém gritou: “Caralho! Cadê o outro motorista?!”
No começo da viagem, haviam dois motorista para o revezamento da direção e um deles foi dormir em uma rede que ficava na parte de baixo do ônibus, a mesma onde colocamos as malas de viagem.
“Puta que pariu! E agora?”
De repente, o compartimento de malas abre sua porta de lado e podemos ver duas mãos segurando a base para se levantar.
O outro motorista fica de pé naquele ônibus tombado e, com um nascer do sol digno de cena de filme, se espreguiça e grita bem alto para todos ouvirem:
“Mas que porra foi essa?!”.
Todos rimos.
Três quartos da excursão seguiu viagem para ver o show do Metallica e os outros precisaram ou escolheram voltar para casa.
Liguei para os meus pais, que queriam pegar o carro e me buscar imediatamente. Eu disse: “Saí de casa para ver o Metallica, só volto depois que ter meu sonho realizado. Estou bem. Confiem em mim”.
Vimos os show. Foi demais.
A vida é assim. A gente precisa querer muito as coisas. Tudo a nossa volta vai tentar nos derrubar, mas siga em frente. Não desista. Se você ainda pode se levantar das feridas que os tombos de causaram, ande mais devagar, mas siga em frente.
Viva o metal. :)