Leivas


Meu nome é Junior. Juninho pros meus pais. Catisso para os amigos de infância. Ju para as raras garotas que tiveram algum tipo de apreço por minha pessoa. É Junior Alves no crachá que me adorna todos os dias. Crachá pesado e frio, apesar de ser feito de um plástico vagabundo, que irrita minha pele quando o coloco para dentro da camisa. Certamente foi feito na China, onde algum japa (chinês, japonês, coreano: é tudo a mesma coisa) mergulhou essa cartelinha de plástico em um monte de produtos químicos, embalou e despachou pelo mundo afora. É o que eles fazem de melhor.

No fim das contas, meu nome é Júnior Leivas. No crachá está errado. Não me importei em reclamar, assim como quem fez esses crachás não se importou em revisar. Ninguém se importa com crachás. Ninguém se importa comigo. Eu não sei muita coisa. Inclusive porque estou escrevendo essas linhas. Ultimamente, ando procurando o que ser da vida. Digo, o que ser além do que eu já sou. O que, pensando bem, não é praticamente nada.

Ninguém sabe muito bem o que eu faço no meu trabalho todos os dias. Inclusive eu mesmo. Passo o dia andando de elevador, levando pilhas e pilhas de papel de uma sala para a outra. Sou uma babá de pilhas de papel. Coloco-as no carrinho, amarro bem e saio a passear pelos corredores. Sorrio para quem me olha dos cubículos. Nunca recebo ordens de ninguém. Quem decide quais as pilhas de papel e quais as salas de destino sou eu mesmo. Na primeira semana, um cara de bigode e prancheta até me explicou qual era meu carrinho e o que exatamente tinham nos papéis (algo que tratei de ignorar e esquecer ao longo do tempo). Hoje, aquele cara nem trabalha mais aqui e o cargo do dito não foi preenchido por ninguém.

Há exatamente dois anos, passo oito horas por dia vestido com uma camisa branca, uma gravata bordô, calças escuras de um tecido que desconheço e sapatos pretos lustrados. Oito horas por dia passeando com meus papéis de uma sala para outra. Vou te dizer uma coisa. Acho que nasci para isso, pois nunca ninguém reclamou a falta de algum documento ou a desorganização de alguma sala com novos documentos recém deixados por mim. Parece que escolho somente os papéis corretos para transferir. Tenho um dom, uma aptidão especial para organização celulosística. É uma ginga, uma ligação espiritual.

A quem estou enganando? Eu só continuo fazendo isso porque me sustenta nesse quartinho com telhado, paga a minha Internet e de quebra, sobra um dinheiro para comprar aquela pilha de genéricos de miojo, que de maneira misteriosa se equilibra ao lado da mesa do computador. Não tenho incomodação, cobranças e responsabilidades. Talvez seja por isso que minha busca por algo novo para fazer e me sustentar não esteja produzindo resultados.

Já pensei em ir para algum paisinho pequeno, perdido do mundo e jogar futebol no time local. Até, seilá, a Zâmbia possui um campeonato e uma confederação de futebol por lá. Certamente conseguiria uma vaguinha. Nem que fosse de reserva. Sou um bom zagueiro. Espano bolas e dou carrinhos certeiros em todas os jogos do pessoal do setor, nas quintas feiras. Dois ou três comentaram que eu deveria tentar uma peneira, se eu fosse uns sete anos mais novo e uns dez quilos mais gordo. Idiotas. Zagueiros não precisam ser gordos.

Poderia também ir para a Nova Zelândia ou algum outro país de primeiro mundo para trabalhar na construção de casas para pobres e desabrigados (que certamente possuiriam mais dinheiro do que eu tenho atualmente vivendo aqui). Passaria o dia dando duro, subindo paredes de madeira pré fabricada, pregando tábuas no teto ou prendendo janelas com argamassa. Coisas desse tipo que se fazem em construções, imagino eu. Aí eu receberia um prato de comida, daria uma cochilada e sairia caminhando por aí, sem rumo. Descobrindo que o mundo é bem maior do que o meu quarto. Que é só fazer um pouco de esforço para mudar e ser alguém independente. Mesmo que ferrado e sem dinheiro, mas livre pra dizer que viveu em alguns dias do que nos últimos dois, cinco, dez anos.

Mas o crachá me segura.

O crachá me faz sentir impotente. Mas também de importância. Me lembra que faço parte de um sistema. E se eu parar de distribuir papéis por aí? E o próximo que entrar, ficar perguntando as pessoas onde pegar, para onde levar, o que dizem esses papéis. E o pior: imagina se ela questionar para que serve esse peregrinação? E se ela questionar o porque de ninguém perguntar nada sobre os carregadores de papéis? Uma catástrofe. Uma hecatombe. O sistema precisa continuar. Só eu sou capaz. As pessoas dependem de mim. Sempre vão depender de Júnior Alves.

Tá no crachá.

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