Agridoce

“A vida é oca, meu filho”, já dizia meu avô quando eu nem consciência tinha do meu papel no mundo.

Ali, deitado na rede, ouvindo os boleros mais românticos que uma rádio AM poderia oferecer, ele destilava sua sabedoria de boteco para um menino que mal sabia o que a palavra significava.

Segundo o Aurélio, é tudo aquilo que não tem nada dentro, fútil, vão, sem juízo. Será mesmo que a vida é assim?

Vovô era um homem sério. Não carrancudo, mas sério. Tanto que aos domingos, sempre na hora do almoço, rolava uma disputa entre os netos para ver quem conseguia arrancar um sorrisinho que seja dele.

Confesso que ganhei poucas vezes (uma das grandes tristezas da minha vida), porém quando aconteceu foi bonito de ser ver porque foram com sonoras gargalhadas, aquelas com gosto, sabe.

O tempo passou, meu vô se foi, os almoços de domingo com a mesa cheia também. Passei dos 40 sem pressão alta, diabetes ou qualquer uma dessas “doenças da moda”. Tive muitos amores, entre eles meus dois filhos, um Basset que chamei de Chaplin pelo simples fato de nunca latir, minhas taças de vinho nos finais de domingo e Lúcia, que bem, foi a Lúcia.

Tive dias cinzas e coloridos, mas não deixaram de ser dias.

Até hoje não sei ao certo meu papel no mundo, só sei que ainda estou em cena, errando e acertando como um reles mortal.

Por isso, a vida pode até ser oca em alguns momentos, mas vamos combinar o seguinte? Não deixe de preencher cada vazio da melhor maneira possível.