No ônibus
Estão olhando pela janela. É como se a paisagem fosse mero detalhe — uma mancha em cada vidro. O motorista tornou-se o capitão e os passageiros se afogam entre lembranças e o vazio que o sono proporciona.
Estou atrasado. O condutor parece saber disso e começa a esquecer do freio. Ao menos é o que gosto de imaginar — boa, piloto! — , e isso faz o itinerário parecer mais curto. Você acaba criando vínculos com pessoas anônimas por passar mais horas na rua do que em casa. A cada momento surge uma amizade de faz-de-conta.
- Passa na rodoviária?
- Sim.
- Então, vou descer aqui mesmo.
- Espera a curva.
- …
Cochilei. Mal pude ouvir o carro ultrapassando o coletivo. Não por problema auditivo, mas pelo som vibrante da caixa de som. Era um som pesado de rap… numa viatura de polícia. Tem noção? GTA: Rio de Janeiro, talvez. Só que o RJ consegue ser mais surreal.
Perdi o sono na curva.
Foi um dia quase fictício.
