Colheres dobradas

(originalmente publicado em 26/08/16)

Nesses tempos áureos de Pokémon GO, uma pequena historinha sobre como escolher o Team Mystic pode ser um tiro no pé da sua própria causa.

Os psíquicos Abra, Kadabra e Alakazam foram três dos primeiros 151 pocket monsters concebidos por Ken Sugimori, entre 1994 e 1995, e apresentados ao mundo nas edições Red And Green/Blue dos jogos de Pokémon, em 1996. Embora os membros do trio tenham aparecido em inúmeros outros produtos licenciados da franquia, não são personagens universalmente populares na história da série — Kadabra foi o único a figurar no top 100 de Pokémons organizados pela IGN EUA em abril desse ano, por exemplo, e apenas na 91ª posição.

Dito isso, pouquíssima gente sabe que “Abra”, “Kadabra” e “Alakazam” não são os nomes originais desses Pokémons. Aliás, por uma decisão de marketing da Nintendo, apenas alguns dos Pokémons originais mantiveram seus nomes de batismo na transição Japão/Estados Unidos. Para os executivos japoneses, crianças e adolescentes estadunidenses supostamente teriam mais facilidade em memorizar os nomes dos Pokémons se eles fizessem alusões a elementos mais enraizados na cultura ocidental, ou se fossem nomes relacionados a características físicas dos próprios bichinhos. No Oriente, “Abra”, “Kadabra” e “Alakazam” ainda são respectivamente conhecidos como “Casey”, “Yungerer” e “Foodin”.

Embora os japoneses tenham parecido um pouco arrogantes ao renomearem os Pokémons nos Estados Unidos, sob a ideia de que os norte-americanos enfrentariam dificuldades para assimilar os nomes originais, a verdade é que os nomes originais também atendiam a alguns critérios de memorização no Japão. Memorizar centenas de criaturas fictícias não era uma tarefa das mais fáceis, e nomeá-las sem alguma regra norteadora seria ainda mais difícil. No caso do nosso exemplo, “Casey”, “Yungerer” e “Foodin” — títulos de Pokémons místicos/psíquicos — foram inspirados em nomes de indivíduos místicos/psíquicos do “mundo real”. Se é que existe tal coisa (não existe).

Casey, o Abra, foi inspirado em Edgar Cayce, um suposto paranormal estadunidense, internacionalmente famoso por transes e por previsões aparentemente proféticas. Foodin, o Alakazam, foi inspirado em Harry Houdini, um dos ilusionistas/escapistas mais famosos da História, que por anos ludibriou audiências de todo o mundo com suas habilidades ímpares. Yungerer, o Kadabra, foi inspirado em Uri Geller, “paranormal” israelense, um showman que por anos usou de má fé para se vender como uma entidade sobre-humana, divinamente tocada. E é justamente no dueto Kadabra/Geller que a nossa história começa a ficar complicada.

A popularidade do Pokémon Kadabra se deve, em parte, ao seu visual. Anatomicamente, Kadabra se parece com um híbrido antropomorfizado de uma cabra e uma raposa, animais historicamente vinculados ao misticismo e à magia. Sua testa e seu abdômen são tatuados (ou marcados) com símbolos que remetem ao antigo Baralho de Zener, cartas inventadas pelo parapsicólogo Joseph Banks Rhine como instrumentos alegadamente capazes de mensurar níveis de mediunidade através do “método científico”. E, o que é mais importante, Kadabra segura uma colher em sua mão direita — dobrar talheres com os “poderes da mente” tornou-se um símbolo extraoficial da paranormalidade humana, especialmente entre as décadas de 1970 e 1980.

Em agosto de 2000, enquanto participava de uma sessão de autógrafos em um evento televisivo no Japão, Uri Geller — um dos mais célebres “dobradores de colheres” de nossos tempos — foi surpreendido por um fã de Pokémon. O garoto trazia consigo um card colecionável do Kadabra, aparentemente impresso em território japonês, e, portanto, sob o nome original de “Yungerer”. Geller ficou furioso com a correlação que alguns admiradores japoneses já tinham estabelecido entre aquela criatura fictícia e seus supostos “dons” sobrenaturais, e temia que a analogia futuramente vazasse para o Ocidente. Em novembro daquele mesmo ano, o místico israelense decidiu processar a Nintendo em decorrência do que ele próprio chamou de “apropriação intelectual indevida”.

Para enrijecer seu caso, Geller também sugeriu que, além de ser uma paródia bestializada, Kadabra também o vinculava a forças malignas — ou, no mínimo, polêmicas. De acordo com o místico, os símbolos que o Pokémon carregava na testa e no abdômen remetiam a rituais satânicos e a insígnias nazistas, alegações que, ao que tudo indica, alguns grupos de cristãos fundamentalistas dos Estados Unidos o ajudaram a construir. Temendo que o processo também conquistasse o apoio da mídia internacional e eventualmente tivesse força para extinguir o personagem, a Nintendo descaradamente mentiu: seus executivos disseram que Kadabra não tinha qualquer vínculo ou inspiração na natureza “paranormal” de Geller.

Até onde se sabe, a estratégia foi parcialmente bem-sucedida. Embora o israelense tenha saído sem um tostão furado de todo o processo jurídico (que, segundo diretores e roteiristas do anime, existe até hoje), a Nintendo foi obrigada a cancelar a impressão de cards do Kadabra — evitando que o cerne de toda a dor de cabeça voltasse à tona. Ironicamente, o oportunismo e o charlatanismo do “time místico” censuraram um dos representantes mais místicos (e icônicos) dos 151 Pokémons originais.

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