Marvel’s Jessica Jones: 1ª temporada

(originalmente publicado em 26/11/15)

Pra começo de conversa, a primeira temporada de “Jessica Jones” me convenceu. Tipo, de tudo. E olha, a gente está falando das desventuras de uma mulher com superpoderes, fugindo e perseguindo um vilão com habilidades telepáticas. Todas essas coisas absurdas soaram absolutamente verossímeis pra mim. E eu tenho um excelente motivo pra ter acreditado na superfície sobrenatural que a série queria me vender: ainda que a narrativa seja fantástica no conjunto da obra, ela nunca deixa o recheio simbólico de lado. As coisas em Jessica Jones têm um motivo e um sentido escancaradamente enraizados no mundo “de fora”, e sua contraparte fictícia se alimenta perfeitamente dessa raiz.

E o que exatamente é o mundo de fora, né? Bom, um monte de merda. Por muitos prismas, especialmente para as mulheres. Se você é homem, você é tão parte do problema quanto eu. Se você não se vê como parte do problema, então você é tão cínico quanto o antagonista da série. Pedir (e insistir) por um sorriso de uma mulher pode, à primeira vista, parecer algo absolutamente inofensivo no gigantesco universo das cantadas baratas, mas o poder das palavras passeia em uma via de mão dupla. É óbvio que não é apenas a opinião do indivíduo ativo, o potencial ofensor, que conta. Há dois lados ou mais em qualquer história, e a palavra do oprimido geralmente não é levada em consideração — ou pior, muitas vezes é abertamente descreditada. Por esses e outros motivos, Jessica Jones é tão verossímil: paralelamente à história da super-heroína, está a história da mulher. A opressão, as lutas, os traumas e o contínuo esforço para recuperar a credibilidade e o amor próprio, tudo ali.

O trauma do estupro é uma tragédia recorrente ao longo da jornada de Jones, mas, além de insinuações, não há estupro físico em tela. Não é necessário. A alegoria de Jessica Jones repousa principalmente sobre o estupro da vontade, o estupro do livre arbítrio e do já mencionado amor próprio. Bebendo para esquecer, Jones inicialmente apenas sobrevive às desgraças que Kilgrave, o vilão da série, polvilhou sobre sua vida. Isso é de uma tristeza absurda: enquanto a protagonista é baleada, atropelada e surrada sem muitas implicações, ela é constantemente oprimida pelas memórias daquilo que Kilgrave um dia fez. Não é forçado presumir que esse mecanismo narrativo só funcione por ter mãos femininas atreladas à parte criativa da série (as mesmas mãos que roteirizaram a “Saga Twilight”, curiosamente). E você não precisa de muito esforço para imaginar o que Jessica Jones seria se fosse completamente gerida por homens — tem um vasto mundo machista de quadrinhos e fanservice por aí para poupar o nosso trabalho.

E sobre a série em si, metáforas de lado?

Irmãos e irmãs, é um negócio louco. A Krysten Ritter surpreendeu meio mundo com o alcance dela. Fisicamente falando, ela não se parece em muita coisa com a personagem clássica, e isso não poderia importar menos. A mulher é uma máquina de emular sarcasmo e angústia, e já é difícil imaginar a Jessica Jones da série encarnada em qualquer outra atriz. É de longe o melhor papel de Ritter — sim, incluindo Breaking Bad –, e ela mergulhou de cabeça nessa oportunidade. Teve sucesso inquestionável ao interpretar uma anti-heroína mesquinha e, ao mesmo tempo, não suprimir a parcela altruísta da personagem, aquela que está em contínuo ponto de ebulição. Jones não quer ser apenas a salvadora que a sujeira do mundo merece, mas a salvadora que o mundo precisa — e Ritter entende esse dilema.

Quanto ao David Tennant… Melhor vilão da Marvel, sem pestanejar. Eu disse o mesmo do Kingpin que o Vincent D’Onofrio trouxe às telas em “Daredevil”, mas Tennant não deixa muito espaço pra debate com seu Purple Man/Kilgrave. O cara é magistral. Se a Marvel fosse uma empresa um pouco mais perceptiva, teria colocado o camarada para interpretar todos os vilões do MCU até hoje. Iron Monk? Tennant. Red Skull? Tennant. Loki? Meu deus, Tennant. É sensacional perceber que o estúdio finalmente entendeu que antagonistas podem ser caricatos, desde que a audiência seja capaz de criar alguma empatia pela caricatura.

Em suma, é meio esquisito apoiar a maior parte dos elogios à série no fato de que ela trata mulheres com o respeito que mulheres merecem. É meio esquisito assumir que a discussão e a acusação de relacionamentos abusivos na ficção ainda sejam questões de “coragem artística”, e que mulheres “normais” sejam tratadas como personagens atípicos, passíveis de ovação pelo simples fato de finalmente existirem. Eu prefiro entender que seja uma vibração de momento, normal em contextos de transição. Por enquanto, escolho ser grato por esses pequenos (mas importantíssimos) passos. Com Jessica Jones, a Marvel nos deu uma oportunidade de ouro — tanto no campo da fantasia quanto no campo da sociologia –, e mais uma vez provou que super-heróis são bem mais que capas e decotes no umbigo.

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