Peças que se encaixam

(originalmente publicado em 19/08/16)

Estou escrevendo esse texto por três motivos. O primeiro: em uma conversa bem recente com alguns amigos, me dei conta de que pouca gente conhece essa história (ou conhece apenas partes dela). O segundo: essa história precisa ser conhecida. O terceiro: hoje, dia 19 de agosto, é Dia do Historiador no Brasil — e nada melhor do que falar sobre História e jogos numa sexta-feira como essa (ou qualquer outra).

Começando quase do começo, então. Em outubro de 1861, o escritor russo Nikolai Nekrasov (1821–1878) publicou um poema na revista Sovremennik, um dos periódicos mais prestigiados do país à época. O poema de Nekrasov teria sido originalmente escrito em 1859, durante uma viagem do escritor pelo interior da Rússia. Ele e um amigo mercador, Gavriil Zakharov, organizavam essas pequenas excursões em algumas épocas do ano, especialmente durante as temporadas de caça. Nekrasov costumava anotar as histórias mirabolantes de comércio de Zakharov ao longo do percurso, e usá-las como inspiração para seus próprios poemas e textos. Sem surpresa, a publicação de 1861 foi inteiramente dedicada à criatividade do amigo.

O poema fala sobre a jornada, supostamente verídica, de um jovem caixeiro-viajante — um korobeiniki — chamado Ivan. Ivan teria conhecido Katya (diminutivo de “Yekaterina”), uma donzela campesina, em uma de suas muitas viagens, e se apaixonado perdidamente por ela. Embora se conhecessem há pouquíssimo tempo, Ivan prometeu casar-se com Katya tão logo completasse seu tradicional percurso de vendas pelo interior do país. Ao longo caminho, o caixeiro-viajante registrou as discrepâncias sociais e econômicas da Rússia, e testemunhou os efeitos das relações internacionais nos hábitos comerciais de outros korobeiniki, temendo que sua própria profissão eventualmente se tornasse obsoleta. Por fim, há poucos quilômetros de retornar para a donzela Katya, ele e um colega foram surpreendidos por um grupo de saqueadores, e acabaram sendo assassinados.

A crítica social (e, não menos importante, a história de amor) no texto de Nekrasov fez um sucesso gigantesco nas comunidades campesinas da Rússia e, por questões óbvias, entre os caixeiros-viajantes das zonas rurais. Semanas antes da publicação oficial na Sovremennik, o escritor e sua irmã distribuíram pequenos livretos com o poema entre os korobeiniki e mercadores locais, como parte de uma iniciativa de alfabetização que os dois inauguraram em algumas comunidades mais pobres da Rússia. Em pouco tempo, a trágica jornada do mascate Ivan se transformou em um hino político. O filósofo socialista Nikolay Chernyshevsky foi um dos primeiros a sugerir, ainda em 1861, que o poema tomasse as ruas e campos do país como um potencial instrumento revolucionário dos trabalhadores.

Alavancado pela Reforma Emancipadora do Imperador Alexandre II, que teoricamente “aboliu” a servidão no país, o poema rapidamente se espalhou. É impossível dizer qual exatamente foi seu impacto social nos anos seguintes, mas sua popularidade é inegável. Entre 1862 e 1863, os korobeiniki já viajavam sob o som das primeiras versões musicalizadas do texto — um método eficaz que os russos encontraram para difundirem a mensagem política entre os analfabetos. A Revolução Russa de 1905 propiciou um espaço ainda maior para essa difusão, incluindo declamações públicas do poema durante atos de greve nos centros urbanos da Rússia. Acredita-se que a década entre as duas grandes revoluções no país — tanto a de 1905 quanto a de 1917 — tenha sido a época em que as versões musicalizadas ganharam um tom mais “profissional”, incluindo instrumentos, modificações nas rimas e corais ocasionais.

Ao longo da década de 1920, já existia uma versão “oficial” da melodia — promovida ao grau de “canção folclórica” entre os russos. Por censura governamental ou por uma questão de “bom gosto”, as últimas estrofes do poema, que incluíam a morte trágica de Ivan e a parte mais polêmica da crítica social de Nekrasov, foram sistematicamente removidas. Em alguns casos, outra estrofe era acrescentada, promovendo a reunião e o tão ansiado casamento de Ivan e Katya, sua donzela. Essa versão era muito popular entre militares soviéticos, que por vezes passavam meses (ou anos) longe de suas namoradas(os) e esposas(os).

Oportunamente, a difusão folclórica da canção entre o final da década de 1920 e os últimos anos da Segunda Guerra Mundial foi majoritariamente militar — de militares para militares. Em 1929, o Conjunto Alexandrov — hoje conhecido como Coral do Exército Vermelho — já estava organizado, e suas apresentações alegadamente incluíam a história do korobeiniki Ivan no repertório. Soldados envolvidos com trabalho braçal, especialmente nas linhas férreas da Rússia Oriental, ritmavam suas atividades ao som da canção.

Entre 1945 e 1950, o Coral do Exército Vermelho, cujo talento conquistou a atenção da mídia internacional, começou a organizar turnês pela Europa. A União Soviética, contudo, não tinha muitos motivos para seguir cantando: a Segunda Guerra Mundial causou a morte de quase trinta milhões de pessoas no país, e as perseguições ideológicas de Stálin foram responsáveis por outras milhões de baixas. O regime soviético mantinha sua reputação, em parte, por demonstrações públicas de disciplina, e o Coral militar era um excelente instrumento de propaganda. Enquanto os camponeses do interior morriam de fome, o Exército Vermelho cantava sobre a determinação dos korobeiniki em Paris e em Londres.

Com a crise gerada pela Guerra Fria, as turnês internacionais do conjunto foram criticamente afetadas. O mundo se dividiu mais uma vez, política e culturalmente. Pouquíssimas produções soviéticas encontravam espaço no mercado ocidental. O que nos leva a um salto na História, até a década de 1980 — quando o caixeiro-viajante mais famoso de 1861 seria milagrosamente revivido.

Em 1984, o programador Alexey Pajitnov, então com 28 anos, apresentou um projeto de inteligência artificial para o Centro de Computação de Moscou, uma das muitas divisões da Academia Soviética de Ciências. Pajitnov era pessoalmente encarregado de desenvolver programas que de alguma forma desafiassem o potencial dos computadores do centro, e seu projeto aparentemente tinha condições para tanto. Tratava-se de um jogo, um dos primeiros puzzles eletrônicos da História. A premissa era bem simples: obedecendo a algoritmos particularmente desafiadores, blocos divididos em doze formas geométricas distintas desciam pela tela do computador, e os usuários precisavam ordená-los na base da pilha, de forma a encaixá-los. Intencionalmente ou não, o jovem pesquisador projetou um software que não desafiava apenas o hardware soviético, mas também testava a velocidade do raciocínio humano.

O teste do computador foi bem-sucedido e, em um efeito colateral não premeditado, o jogo fez enorme sucesso entre os pesquisadores da Academia Soviética de Ciências. Contudo, a experiência do puzzle na plataforma do Electronika 60 soviético não correspondia às reais ambições de Pajitnov. Os “tetrominós” — como o desenvolvedor apelidou as doze peças do jogo — não se comportavam com a fluidez desejada, muito em parte pelo contorno dos polígonos ser formado por caracteres; ainda não havia na União Soviética um computador capaz de processar gráficos retilíneos fora da plataforma ASCII. Felizmente, Dmitry Pavlovsky e Vadim Gerasimov, colegas de trabalho de Pajitnov, tinham acesso a um PC IBM importado dos Estados Unidos. Em meados de 1985, os três desenvolvedores começaram a adaptar e transferir as linhas de código do jogo, incluindo os novos gráficos, para a plataforma mais moderna.

Essa versão atualizada foi “oficialmente” batizada de Tetris.

Entre 1985 e 1986, as duas versões de Tetris já tinham se espalhado por todas as principais escolas de computação da Rússia, especialmente em Moscou. Também havia registros de jogadores em outros países europeus, como Alemanha e Hungria, e versões “piratas” — com algumas modificações estéticas nas linhas de código originais — se multiplicavam a cada dia. Nos meses finais de 1986, Pajitnov (ou o Centro de Computação de Moscou) percebeu que precisava tirar algum proveito desse fenômeno, e vendeu parte dos direitos do puzzle para a Spectrum HoloByte dos Estados Unidos — famosa à época pelo lançamento do clássico Sokoban. Curiosamente, outros desenvolvedores também assinaram acordos semelhantes com empresas menores, passando-se por reais criadores do jogo. Pajitnov não tinha como saber, mas o impacto econômico da pirataria e da falsidade ideológica em sua vida lhe custaria milhões de dólares.

Enquanto os primeiros problemas legais de Tetris começavam a aparecer na Europa, a Spectrum HoloByte tinha pressa para receber seu quinhão. A ideia inicial era começar a distribuição do software nos Estados Unidos, e eventualmente expandi-la para o Japão. Em uma aliança provisória com os desenvolvedores da empresa, Pajitnov repaginou as linhas de código do jogo, deixando-as mais elegantes e funcionais. A Spectrum HoloByte também sugeriu que o fator “exótico” da Rússia pesasse mais sobre essa repaginação, porque as tensões e o mistério da Guerra Fria provavelmente alavancariam as vendas do produto no continente americano. Diante desse fôlego criativo, Pajitnov tomou a liberdade para acrescentar três recursos então inéditos ao puzzle: imagens de fundo (majoritariamente compostas por paisagens russas), efeitos sonoros e…

… música.

Aqui, o campo da especulação é vasto. Não se sabe de quem foi a ideia de incluir a canção dos korobeiniki, praticamente esquecida àquela altura, à trilha sonora de Tetris. Há quem diga que o pai de Pajitnov tenha sido um caixeiro-viajante, e que o desenvolvedor tenha crescido ouvindo a música. Outros dizem que Pajitnov teria escutado a música pela primeira vez em um ponto aleatório daquela mesma década ou ano, em alguma apresentação militar pelas ruas de Moscou (possivelmente durante as celebrações de 70 anos da Revolução de 1917). O fato é que, numa manhã de 1987, em plena Guerra Fria, milhares de estadunidenses acordaram com uma melodia russa do século XIX ditando o ritmo da jogatina em seus computadores.

Até 1988, mais de uma dezena de desenvolvedoras diferentes, espalhadas pelos Estados Unidos, Europa e Japão, já tinham reivindicado os direitos de propriedade, criação e distribuição do precioso software de Pajitnov. Em 1989, a Nintendo era uma delas. Em menos de dois anos do lançamento “oficial”, sob o qual o desenvolvedor teve algum controle, quase todo controle foi perdido. Curiosamente, o cerne de Tetris, mecânico e estético, permaneceu razoavelmente o mesmo nessa bagunça. Hirokazu Tanaka, um dos compositores mais famosos do Japão à época (e ainda hoje), foi o responsável pela “readequação” cultural das músicas originais do jogo no Oriente e, por uma felicidade do destino, a canção dos korobeiniki não foi removida — apenas “melhorada”.

A preservação da identidade original do Tetris soviético, e sua explosão de popularidade no mundo ocidental, lhe rendeu espaço de destaque em livros, museus e documentários. O Instituto de Tecnologia de Massachusetts estima que quase 90% dos norte-americanos com mais de trinta anos saibam reconhecer a música e os gráficos do jogo. O número não deve ser muito menor para o restante do Ocidente. E é muito interessante que todo esse espetáculo, toda essa mitologia, deva-se — em grande parte — a uma manhã fria de 1859, quando dois amigos de infância resolveram sair para caçar e trocar ideias sobre romances impossíveis e causas trabalhistas na Rússia imperial. O mundo gira, e as peças se encaixam.

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