Suicide Squad

(originalmente publicado em 05/08/16)

O Esquadrão é suicida, mas quem quis se matar depois do filme fui eu. Começo a desconfiar que o David Ayer, diretor de Suicide Squad, foi mal interpretado. O que ele quis dizer naquela coletiva de imprensa não foi “F*ck Marvel!”. O que ele quis dizer foi “F*ck, Marvel” (e pensando em Guardians Of The Galaxy, aposto).

A pergunta que não quer calar: Suicide Squad é um filme melhor ou pior do que Batman v. Superman? É uma pergunta justa, só que não é a pergunta completa. Suicide Squad é muito, muito pior do que Batman v. Superman, mas pelo menos não é tão criminoso — o que é uma afirmação curiosa, levando em conta que o filme é protagonizado por, bem, supervilões. Meu ponto é que, enquanto SS é um circo com personagens icônicos (mas secundários) da DC, BvS é um circo protagonizado pelos três maiores personagens da editora — a Santíssima Trindade de Batman, Superman e Wonder Woman — e de alguma forma conseguiram descarrilar esse trenzinho.

Mas o tempo de falar mal de BvS já passou. O alvo agora é outro. Até porque o que falta de fama para personagens, sobra de fama para atores e atrizes no nosso alvo mais recente — e esse trem também descarrilou.

Em primeiro lugar, Suicide Squad tem, chutando por baixo, uns quatro ou cinco “começos”. É uma confusão desgraçada de flashbacks seguidos de flash forwards seguidos de flashbacks. O filme perde quase trinta minutos para ter certeza de que a audiência entendeu que determinado personagem é muito bom de mira, e essa habilidade dele sequer é explorada ao longo da história. Mais além, as personalidades e habilidades de quase todos os personagens são essencialmente ignoradas ou suprimidas em decorrência das cenas de ação — uma bagunça descoordenada que Michael Bay aplaudiria de pé. Há, sem dúvida, uma preocupação crônica em nos lembrar de que ali são todos vilões execráveis, mas só porque esse supostamente é (não é) o maior diferencial da produção.

É um filme com personagens ofensivamente burros, burros como personagens de um episódio ruim de Smallville. Vocês lembram quando o Clark aparecia e confessava para o Jonathan que tinha um camarada congelando pessoas em Pequenópolis, e o Jonathan dizia que aquilo era coisa da imaginação dele — porque, embora o Clark pudesse levantar um trator sobre a própria cabeça, “pessoas congelando pessoas” era uma noção absurda demais? Então, Suicide Squad tem dessas. A vilã, uma bruxa que seria melhor rivalizada pelo Brendan Fraser em alguma sequência de “Múmia”, acabou de usar um feitiço para desintegrar uma das maiores cidades dos Estados Unidos, e as autoridades veem como “impossível” a chance dessa semideusa todo-poderosa localizar bases secretas em território americano. “Como uma bruxa pode fazer isso?”, se pergunta um funcionário do governo, como se “bruxa” numa frase fosse a coisa mais absurda daquele mundo recém-invadido por alienígenas. Vai entender.

Antes apenas os personagens fossem rasos e burros. A trama — ou esse trailer de duas horas que o David Ayer ousou chamar de “trama” — é, para ser bem educado, estúpida. Para efeitos de ilustração, pense em um teatro infantil improvisado ao vivo. Personagens somem, personagens aparecem, personagens somem novamente, personagens reaparecem. O antagonismo de um instante dá lugar a um “senso de família” no instante seguinte. Informações absurdamente complexas brotam das nuvens, e são imediatamente absorvidas pelos protagonistas. Por falar em “cair”, quedas de helicóptero por algum motivo acontecem como um fenômeno natural no filme, e não acrescentam qualquer tipo de profundidade à história. Não há risco real — Ayer provavelmente não gastaria trinta introduções com cada protagonista só para matá-los em acidentes aéreos (ou em qualquer outra instância), mas efeitos especiais impactantes não podem ser desperdiçados.

Nesse mar revolto de burrice e ingerência, duas personagens/atrizes se destacam: a Amanda Waller da Viola Davis e a Harley Quinn da Margot Robbie. E, veja bem, eu não estou tentando entusiasmar ninguém; aqui, “destaque” não é sinônimo de “qualidade”, e sim uma palavra que a gente usa para tentar dizer que “uma coisa é menos pior do que outra”. Davis, um pouco deslocada entre os demais, interpreta uma Waller razoavelmente forte e ameaçadora, muito semelhante à Waller popularizada pela série animada de Justice League. E Robbie dá vida ao que estou chamando de “Harley certa no universo errado”; algumas das tiradinhas da personagem são interessantes, engraçadinhas, mas é como se o cenário e os demais protagonistas estivessem imersos demais nos próprios fracassos para se importarem com elas. Desnecessário dizer, não ajuda o fato de que ela foi tão objetificada quanto todos temiam que ela seria.

Mas e o Joker?”, você deve estar se perguntando. Não sabendo que era impossível, o Jared Leto foi lá e estragou o Joker. Não tenho sequer como dizer que o personagem foi mais hype do que aquilo que vi no filme, porque — a bem da verdade — o hype daquela figurinha forçada nas imagens promocionais nunca me atingiu. O Joker de Suicide Squad é um adolescente que quer muito pagar de malvadão, e calhou de ter acesso a armas, tatuagens e DVDs do Jack Nicholson e do Heath Ledger.

Antes de amarrar o texto, eu gostaria de dedicar algumas palavras à trilha sonora. Não sei se foi uma coisa objetivamente calculada, mas, além de ruim, a trilha sonora de Suicide Squad é a prova cabal de que o filme não se contenta apenas em ser burro — o círculo da ignorância só estará completo se você, a audiência, sair dele se sentindo burro também. Dito isso: se você ainda não viu o filme, prepare-se para aquele tipo de cena onde a música te diz o que está acontecendo na tela, porque você — burrinho que é — jamais teria condições de entender por conta.

Pra fechar: o Steve Buscemi interpretava um detetive particular na excelente 30 Rock, e uma de suas “especialidades” eram disfarces. Num dado episódio, ele tenta se passar por um adolescente do Ensino Médio, usando roupas descoladas e gírias completamente descontextualizadas. O meme da cena é bem famoso. Essa ciranda de “adulto querendo ser criança querendo ser adulta” em Suicide Squad é a imagem perfeita da DC cinematográfica na atualidade: a pirotecnia é até bacana, mas já não conseguem disfarçar que o show de sons e luzes é apenas maquiagem para um universo suicida, condenado a desastres.

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