BRINCADEIRA DE CRIANÇA

O homem passa o resto da vida adulta desejando voltar à infância. De fato, até consegue. Mas só durante os 90 minutos em que seu time entra em campo.

Nem o adulto mais egoísta consegue ser tão infantil quanto nós torcedores. Explico:

Criança não tem responsabilidades. A sua única preocupação é se divertir. Assim como todo santo domingo, ainda que cheios de problemas a resolver, nós agimos como se não houvesse nada mais importante que os três pontos de nossa equipe.

Criança, porém, é cheia de medos: de escuro, do bicho papão, da mula-sem-cabeça, etc. Quando crescemos, lidamos com coisas bem mais amedrontadoras, como fim do mês e ônibus lotado sem ar-condicionado, por exemplo.

Mesmo assim, o que realmente nos faz tremer de medo e pedir ajuda a Deus, tal qual uma criança, é o risco de rebaixamento. Na infância, aliás, éramos até mais corajosos; se antes deixávamos a luz acessa pra poder ver os monstros, agora qualquer decisão de pênaltis já nos faz fechar os olhos.

Criança grita pra conseguir o que quer. Nós, por 90 minutos, desafiamos a lógica e acreditamos que quanto mais alto gritarmos o nome do nosso time, maior a chance de conquistarmos a vitória.

Quando não conseguimos, em vez de fazermos birra, vaiamos.

Crianças — muito pela falta de experiência — estão sempre aprendendo uma coisa nova. Já na arquibancada, a experiência não importa. O futebol sempre dá um jeito de ensinar uma nova lição até mesmo ao mais antigo torcedor.

Criança, aliás, é muito ingênua, confia em tudo que dizem. Enquanto isso, todo ano o meu coração colorado acredita piamente quando falam que somos favoritos ao Brasileirão.

Mas, se existe uma coisa que a criança pode ensinar aos adultos, é como fazer amizades. Quando crescemos, os “amigos” viram “colegas”. Na arquibancada, basta vestirmos a mesma camisa para aquele sujeito desconhecido se tornar um amigo de infância, mesmo que somente até o apito final.

O indiscutível é que nada supera a facilidade da criança em ser feliz. É a melhor época de nossas vidas.

E o futebol, por instantes, nos faz voltar a ser criança.

Porque, cá entre nós, ser adulto o tempo todo é chato pra caralho! (mas, pelo menos, pode-se falar palavrões sem ficar de castigo.)

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