De volta para o Amanhã

Bruno Ogava
Sep 3, 2018 · 3 min read

Foi com pesar que ontem acompanhei por notícias o alastrar do fogo no Museu Nacional. Mesmo morando no Rio há quase dois anos, não havia visitado o museu e não sei se o visitaria num futuro próximo. Carrego em mim parcela da culpa pela degradação do museu que culminou neste triste lamento. Não significa que deixo de sentir a perda da informação biológica, arquitetônica, antropológica e de todos os demais ca’s que residiam na Quinta da Boa Vista.

No turbilhão de matérias sobre o incêndio, tive o triste prazer de ler matéria de 2013 da Revista Piauí sobre quatro múmias compradas pelos monarcas brasileiros de nomes enumeráveis. Múmias essas que pertenciam à uma pequena e ascendente nova classe média egípcia. O período de prosperidade no qual viveram permitiu que essa nova classe média acessasse novos bens e serviços, incluindo os funerários, os quais possibilitaram a chegada de seus corpos mumificados ao século XXI. Quão tragicômico é o fato das demandas de outra ascendente classe média, agora a brasileira, terem sido responsáveis pelo fogo que consumiu o que sobrara da egípcia?

Há quem atribua como culpadas as poucas medidas de controle de gastos públicos realizadas nos anos recentes, mas a precarização do Museu Nacional é bem anterior à elas. De ontem para hoje desenterraram diversas notícias sobre o estado do museu, uma delas alertando sobre o perigo de incêndio já em 2004. Desde 2014 o museu recebe verba menor do que os 550 mil reais necessários para sua manutenção. Em 2015 havia sido fechado para visitação por falta de repasses federais. A situação estava crítica já na época das vacas gordas.

Verdade seja dita, não foi exatamente a falta de verbas que acarretou na lastimável perda do ontem, mas sim como nós brasileiros elencamos nossas prioridades. Foi porque nós, brasileiros medianos, não costumamos nos importar com a preservação histórica que o museu não passou por reformas quando o dinheiro fluía livremente para as universidades federais e outros projetos educacionais. Priorizamos a interiorização das UFs e pagar o intercâmbio da população elitizada que nelas estudaram. A reforma do museu poderia estar incluída entre os diversos projetos de revitalização feitos para a Copa e para as Olimpíadas, porém não estava. Escolhemos voltarmos nossa atenção para o Amanhã enquanto viramos as costas para o ontem.

Vi em algum lugar (significando que não atesto a veracidade da informação) que a UFRJ, instituição responsável pelo o que agora é cinzas, tem orçamento anual de 400 milhões de reais e que 90% disto é destinado para o pagamento de salários. Os números talvez estejam errados, mas este é um antigo e conhecido problema das universidades públicas brasileiras. Fala-se em restrição de recursos, mas não se faz esforço para resolver problemas estruturais como esse. Pelo contrário, se criam barreiras. Também são culpados pelo incêndio aqueles que discursam, conjuntamente, contra a adoção de métricas de produtividade para professores universitários, a realização de parcerias público-privadas, a imposição de mensalidades para quem possa pagar ou contra qualquer outra medida neste sentido.

A manutenção do museu custava por ano o mesmo que um juiz ou deputado, não é mesmo? Até parece que a economia de qualquer quantia em qualquer setor não seria destinada para a conta da previdência. Enquanto existir o buraco negro que é o déficit previdenciário no orçamento público não há perspectiva de que algum dinheiro flua para outras contas, pelo contrário, deve continuar saindo delas como vem acontecendo. É por escassez, não por maldade, que se fala em reforma.

Foi questão de prioridades, privilegiamos atender as demandas da nossa classe média, entre as quais a preservação histórica não se inclui. O uso do orçamento público consiste de escolhas e escolhemos ignorar aquilo pelo qual agora lamentamos a perda.

Em suma, o incêndio não ocorreu porque faltaram recursos, mas porque nunca demos a devida atenção ao, agora falecido, Museu Nacional.

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