Guia cético para a palestra “A glândula pineal” — Sérgio Felipe de Oliveira

Publicado originalmente no Blog cético

Antes de explicar a finalidade deste texto devo dizer que ele é uma homenagem ao melhor blog brasileiro de todos os tempos, o lendário Dragão na Garagem, pois eu, assim como muita gente de bom gosto por aí, li obcecadamente todos os tópicos daquele espaço tão cheio de bom humor e inteligência, fui inspirado por ele e desejei escrever tal como seus autores e ter o domínio dos assuntos que eles tinham. Para a decepção geral daqueles que conheceram o trabalho de Alexandre Taschetto e Widson Porto Reis, no entanto, estou hoje muito aquém disso: meu conhecimento científico está no nível de qualquer pobre vítima da escola pública e escrevo sem aquela simplicidade elegante que tinham os meus inspiradores. Estou entre aqueles que jamais descobriram a utilidade da fórmula de Bhaskara e meu idioma está mais para brasileiro que para português, digamos assim.

Apesar disso, acredito que a motivação dos autores ao denunciar o erro sem recair no proselitismo tolo é a mesma que me acompanha aqui e ambos queremos promover debates sérios a respeito daquilo que conhecemos. Espero que a esse respeito eu possa fazer um trabalho a altura deles.

Introdução

Como diz o título, este texto consiste numa análise da palestra A Glândula Pineal novos conceitos e avanço nas pesquisas, em que o médico Sérgio Felipe de Oliveira (disponível aqui) defende uma interpretação científica e espiritualista da mente humana. Para analisá-la, separarei os elementos sobre os quais a palestra está fundamentada e observarei o quanto eles se sustentam sozinhos e o quanto se sustentam dentro do grupo de afirmações em que estão inseridos. Sobre isso é preciso esclarecer três coisas.

Primeiramente, este não é um texto sobre ciência; mas sobre filosofia. Embora a palestra tenha sido proferida por um médico que crê apresentar os resultados de suas pesquisas, pretendo demonstrar que sua argumentação está sustentada em premissas filosóficas e não científicas. Sendo assim, me ocuparei especificamente com a maneira pela qual ele usa a ciência para sustentar suas teses filosóficas, ou seja, tratarei da filosofia que envolve a ciência praticada por ele e o modo pelo qual ele usa a ciência para construir tal filosofia.

Quero ressaltar também que este é um guia cético, uma orientação que não pretende assentir com verdades absolutas e convida o leitor a desconfiar daquilo que analisamos. Deste modo, não estarei interessado em dissuadir qualquer um de sua própria fé, em convencê-los da verdade do materialismo ou mesmo em atingir o palestrante em sua pessoa, até porque sinto que há boa vontade no que ele diz. Ocorre, porém, que sua argumentação produz muitos amadorismos conforme se desvia da ciê

ncia e se imiscui em questões filosóficas complicadas, abordando levianamente assuntos profundos e fazendo apologia religiosa com o nome da ciência. É sob esse aspecto que desejo problematizar o que ele diz. As críticas feitas aqui concernem unicamente ao contexto da palestra e nada mais.

Uma última coisa é que, para evitar um texto longo demais, não analisarei nem toda a palestra, nem todas as falas do médico, embora, é claro, eu tenha assistido tudo para compor o que escrevi. Apresentarei aqui somente os primeiros vinte e dois minutos do vídeo pois considero que neles estão contidas as teses e argumentos que como um todo a sustentam, sendo que depois desse ponto o médico apenas expõe o desdobramento das coisas que defendeu até ali e nenhum novo argumento é dado. Além disso, nesse espaço de tempo são afirmadas várias coisas que nada contribuem para a finalidade deste texto e serão ignoradas também. Quem achar que essa seleção de tempo e de falas implicou num prejuízo à argumentação do médico durante meu texto, por favor, aponte onde isso ocorre e eu responderei com prazer ou até incluirei numa revisão se for o caso.

Vamos começar.

Biografia (até 8:48)

Iniciando a palestra com sua biografia, Sérgio Felipe conta como chegou ao estudo da glândula pineal, narra um pouco da mística em torno desse órgão (Descartese os Hindus, por exemplo, tinham teses espiritualistas sobre ela) e, o mais importante, afirma que apresentará uma pesquisa que teria desenvolvido parte em consultório privado e parte na Universidade de São Paulo: “Aí saiu a pesquisa que eu vou mostrar pra vocês e os derivativos dela” (8:20). Com essa breve introdução somos apresentados ao tema da palestra — a natureza da mente — e ao modo pelo qual ele será discutido: uma abordagem científica feita com todo o rigor e precisão exigida.

Citar isso pode parecer bobo, porém desejo ressaltar como o médico entende o que faz, pois grande parte deste texto tentará demonstrar que a palestra se apresenta como uma coisa (ciência), mas se desenvolve como outra (filosofia), sendo necessário entendermos tanto o que ela pretende ser quanto aquilo que ela é.

Alienígenas e suas mentes de carbono quântico (de 8:48 até 11:00)

Depois da introdução o palestrante conta uma pequena anedota: os habitantes de um planeta longínquo teriam, certa feita, descoberto a humanidade e as coisas incríveis que ela produziu, ficando espantados ao perceber que somos feitos de carne e somente de carne a despeito de nossas grandes capacidades. O tom empregado pelo médico sugere que a redução do ser humano à carne — ou à matéria, se quiserem — seja controversa e que, mesmo não sendo dado nenhum argumento nesse momento para tal, um ser que pensa, sente e deseja não poderia ser composto somente de carne. A moral da história fica sendo esta: nós humanos não podemos ser somente carne. Ou algo do tipo.

Suponho que em algum momento da vida todos nós já ouvimos algo assim e é simples assumir esse tipo de pensamento para argumentar em favor da imaterialidade da mente, todavia, é igualmente simples perguntar por que a complexidade da carne seria insuficiente para explicar a complexidade humana, algo que tal anedota pressupõe mas não justifica. Digo isso porque mesmo supondo que os extraterrestres sintam estranhamento diante de nossa mente de carne, poderemos sustentar o mesmo estranhamento diante de suas mentes de… Seja lá do que elas forem feitas, já que uma mente capaz como a humana só foi encontrada em nossa própria raça e nem por isso sabemos exatamente como ela surge ou funciona, deste modo, seria surpreendente descobrir outras formas de vida que tivessem uma mente tão complexa quanto a nossa e não fossem de carne. Se nossos observadores alienígenas aparecerem aqui algum dia, eles serão a prova viva de que a mente não é um fenômeno da carne e pode surgir de outras fontes materiais como, no caso dessa anedota, carbono quântico. Aliás, não seria incrível? Ocorre, porém, que nossos amigos extraterrestres ainda não deram as caras por aqui e com isso não temos considerado procurar mentes nos diversos compostos de carbono, mesmo que não tenhamos certeza se a mente só pode surgir na carne humana ou não.

Com essa discussão toda quero defender que a afirmação “a mente não é produto da carne” precisa de boas justificativas para que possa ser considerada válida, aliás, a afirmação contrária — a mente é produto da carne — também: a ciência não prova nem uma nem outra; apenas descreve e tenta entender como funciona o nosso cérebro de carne na medida em que dispõe de meios para isso. A posição do palestrante é de que é possível decisão pela imaterialidade da mente por meio de um discurso científico. Ele apresentará alguns argumentos em favor disso, na verdade, duas analogias. Vamos analisá-las individualmente e ver como ele se sai, aí quem sabe, poderemos dizer se ele apresenta uma justificativa que torne sua tese cientificamente válida.

Analogia um: cérebros são como televisores? (11:00 até 11:30)

Após contar a tal história dos extraterrestres, Sérgio Felipe nos apresenta uma analogia contra a materialidade da mente afirmando que a crença de que o cérebro produz sozinho o pensamento equivale a: “achar que os atores moram dentro do televisor” (11:10). Sendo assim, caso aceitemos raciocínios primários como esse, aceitaremos igualmente que um defeito no televisor implica no fim da novela ou que uma lesão no cérebro implicaria no fim da atividade psíquica (11:19).

É simples notar que essa analogia traz implícita uma apologia da imaterialidade da mente mediante a associação de quatro elementos: o televisor, a novela, nosso cérebro e nossa mente, sendo os dois primeiros comparados respectivamente aos dois posteriores. Embora o palestrante não detalhe como esses elementos podem ser comparados uns aos outros, creio ser aceitável supor que ele entenda que o televisor seja assemelhado em seu aspecto mecânico e automatizado ao nosso cérebro e que a programação transmitida nele, em sua independência do aparelho, seja assemelhada à nossa mente. A analogia consiste em afirmar que tal como existe uma independência entre televisão e sua programação, sendo que mesmo que um televisor seja quebrado, sua programação continua existindo de algum modo e em algum lugar, ainda que tenhamos um corpo que é responsável por nossos pensamentos, eles não tem origem nele mas em algo que independe dele, numa mente imaterial. Com esse argumento o palestrante tenta provar a impossibilidade de nossa mente ter uma origem corpórea e sua necessária origem não material.

Bem, há um problema nessa analogia se formos muito rigorosos com ela, afinal, presume-se que a novela seja a encenação de algo material (realizado pelos atores) que é transmitido por ondas até a antena da televisão. Nesse sentido a novela seria tão material quanto o televisor e a analogia do médico simplesmente não funcionaria, pois se compararmos a encenação à mente, então, contrariamente ao que defende o palestrante, ela deveria existir fisicamente e o que soubermos dela será apenas uma transformação em imagem do que lhe ocorre.

Em razão disso proponho que sejamos um pouco condescendentes com o médico, deixemos de lado a ideia de novela e vamos ao princípio mais profundo dessa analogia: a ideia de que há uma programação imaterial que é transmitida para o televisor, o que equivale a dizer que a mente é uma espécie de transmissão (ou transmissora) direcionada para um cérebro material. Por essa via a analogia mostraria que há independência entre corpo e mente mas também que existe uma diferença na natureza de ambos: um é material e o outro imaterial. Esse formato de analogia, entretanto, também não está isento de problemas, pois diferentemente da mente humana, a transmissão por ondas funciona a partir de uma única fonte que envia as mesmas informações para milhares de televisores e, como consequência disso, se concebermos que ela tem paridade com a mente transmitindo informações para o cérebro, teríamos que admitir que milhares de cérebros tem a mesma mente que se origina num único ponto. A comparação não funcionaria desse jeito também.

Seria possível problematizar ainda mais os significados possíveis dessa analogia, entretanto não é difícil entender o que o palestrante quer provar: que temos uma alma imaterial de onde provém a mente (ou que se confunde com ela), que está relacionada de algum modo com o corpo e faz com que ele realize ações livres. Levemos essa concepção adiante pois a segunda analogia a aprimora, assim poderemos discuti-la melhor.

Analogia dois: é o cérebro um computador? (11:30 até 13:00)

Exposta a primeira analogia o médico passa logo à segunda e diz que algumas pessoas equiparam o cérebro a um computador, uma ideia com a qual ele assente: “De fato, é um computador” (11:35), mas com a ressalva de que nenhum computador pode produzir seu próprio programa, necessitando de um programador. Definindo os elementos em questão creio que ficaria assim: o computador é o cérebro, o programa é a mente e o programador é ninguém menos que deus.

Essa analogia é muito mais radical que a primeira, uma vez que atribui finalidade às coisas e adere a um princípio metafísico (deus) para explicar por que elas são dessa maneira, todavia, antes que analisemos os problemas suscitados por ela precisamos definir seu significado.

A princípio, visando esse fim, podemos colocar a questão a respeito do que significaria comparar o cérebro com um computador, quer dizer, perguntar o que no cérebro humano é semelhante ao computador e de que maneira o é. Certamente não será o fato de que a máquina é feita de metal ou devido a esse ou aquele formato corporal que ela possua, por exemplo. Não se trata disso porém de algo mais específico.

Para fazermos uma analogia entre duas coisas basta que encontremos nelas predicados análogos que possam ser comparados entre si, ou seja, é preciso selecionar componentes existentes tanto num quanto no outro que sejam parecidos e que, graças a isso, possam ser comparados. E quais seriam tais elementos nessa analogia? Que predicados do cérebro estão sendo equiparados e quais predicados do computador? Sérgio Felipe não diz, consequentemente, não podemos saber em que exatamente se sustenta o seu argumento; apenas concebemos certa ideia vaga de cérebro e de computador que pode ou não corresponder àquilo que ele pensa.

Assim, para fins desse texto, analisarei a analogia com base numa ideia de cérebro que o médico constrói na totalidade da palestra, o que não parece estar errado, entretanto não deixa de ser um palpite sobre seu significado real. Se alguém desejar complementar isso seria ótimo.

*

A meu ver, a equiparação entre um órgão biológico e uma máquina se dá a partir de quatro elementos:

I primeiramente, comparar o computador, um objeto que reconhecemos ser criado artificialmente por um motivo, com a mente, que não sabemos se foi criada assim, ele deseja transferir a característica que concordamos existir no primeiro para o segundo, quer dizer, comparando-os o palestrante deseja sugerir que, tal como a máquina, a mente também é criada por alguém com uma finalidade.

II além disso, o computador é uma estrutura auto-organizada e tal como o cérebro humano também mantém uma articulação organizada entre as partes que o compõe, de maneira que ambos operam através de certa estrutura física que possibilita e condiciona suas ações em algum grau. Com isso o médico quer sugerir que tanto o cérebro quanto o computador são sistemas: estruturas que se autoregulam por meio do funcionamento das partes que as compõe.

III mais, o computador executa operações que não são consequentes simplesmente de sua estrutura física e dependem da intervenção de uma inteligência sobre ela, em outras palavras, ele não cria programas ou executa tarefas somente por ter sido montado e saído da fábrica, mas depende de uma interferência inteligente sobre si que o faça realizar tais coisas. A analogia consiste em afirmar que também o cérebro não funcionaria somente por ser uma estrutura corpórea e funcional, mas dependeria de algum tipo de ativação ou princípio inteligente externo que o colocasse em funcionamento, a alma (o software), de modo que nossa imaginação e pensamento precisariam ser instaladas no cérebro porque não são consequências diretas dele, por exemplo.

IV por fim, o computador computa dados, isto é, processa uma enorme quantidade de informações de “maneira similar” ao cérebro humano. Qual maneira seria essa e em que a capacidade computacional da máquina seria semelhante à nossa inteligência, é algo que não é muito nítido no correr da palestra.

Se aceitarmos esses quatro aspectos concordaremos que a mente é, minimamente, um sistema imaterial inteligente, estruturado de maneira a produzir a atividade cerebral.

Sem medo de errar eu diria que essa é a grande tese defendida pelo médico no decorrer da palestra e foi por isso que tentei expô-la com o máximo detalhamento, no entanto, a despeito dessa importância tremenda, tal tese recebe o mesmo tratamento superficial que as demais e contém vários problemas que podemos perceber sem nem precisar ir muito longe, a começar pelas perguntas que podemos lhes propor: como provar que tal como a programação do computador um cérebro não produz a mente? Que eu me lembre, nunca se viu por aí um pensamento andando fora do cérebro para que pudéssemos defender que exista uma independência entre ambos, além disso, quando um cérebro para de funcionar ou é danificado a mente sofre consequências diretas disso como se tivesse uma ligação indissociável com ele. É claro que no estado atual de nosso conhecimento não podemos defender que tudo o que é preciso saber sobre a mente seja essa intersecção com o cérebro, entretanto há evidências suficientes a esse respeito para fazer com que a ciência investigue esse lado da questão mesmo sem fechar sua opinião sobre o assunto. Considerando isso, seria surpreendente se as afirmações de Sério Felipe em favor do outro lado fossem acompanhadas de evidências, pois um novo mundo se abriria para a ciência e para a filosofia. Um mundo incrível, aliás. O que o médico nos apresenta, todavia, são somente analogias que, mesmo podendo aparentar credibilidade, são bastante controversas e, ainda que possam ser filosoficamente melhoradas, continuam carecendo de provas para que sejam consideradas cientificamente válidas. Vou argumentar melhor.

*

Para começar a problematizar a validade das analogias podemos nos perguntar a respeito de sua pertinência argumentativa e o quanto provam o que almejam provar.

Inicialmente, podemos questionar até que ponto tais comparações são válidas e um computador é mesmo parecido com o cérebro e em que medida devemos recusar a analogia por que ela traz elementos inconvenientes. Por exemplo: supondo que sejamos tal como os computadores, então também somos constructos sem liberdade? Parece-me que o palestrante não aceitaria essa consequência e colocaria algum limite na comparação de maneira a especificar sob quais aspectos ela vale e sob quais aspectos não. Com isso, certos elementos do cérebro e do computador seriam desconsiderados na comparação e somente alguns contariam. Todavia, mesmo que especifiquemos o que está sendo comparado em cada um dos objetos em questão, a comparação ainda é um recurso imaginativo que assemelha esses elementos sem que eles sejam realmente semelhantes, afinal, ninguém vai dizer que um computador é inteligente da mesma maneira que um cérebro embora afirmemos que ambos possuam inteligência. É apenas uma licença poética. A consequência disso é que para defendermos cientificamente que a mente tem certas características iguais àquelas do computador, seria preciso especificar tanto o que significariam tais características nos dois lados da comparação que, conforme ocorresse esse detalhamento, seria preciso desconsiderar cada vez mais as diferenças ou especificidades dessas mesmas características para fazer a analogia funcionar. Ao fim teríamos uma comparação precisa mas extremamente forçada de alguns elementos da mente e do cérebro.

Não seria mais razoável investigar o cérebro por si só e descobrir o que há lá que possa ser apresentado como prova? Inclusive, não é isso que fazem os cientistas?

No mais, mesmo se considerarmos a mente como uma entidade imaterial, como quer o palestrante, criaremos um sério problema para quem deseja fazer ciência, a saber, como investigar aquilo que ultrapassa todos os nossos meios para fazer ciência? Como investigar o imaterial com nossos recursos científicos materiais? Como seria possível apresentar uma prova científica a respeito da existência uma entidade imaterial, por exemplo? E mais: como podemos atribuir a uma coisa imaterial funções que só conhecemos relacionadas à carne, como o sentir, por exemplo? Sinceramente, não tenho ideia, e esses são apenas os problemas filosóficos da palestra. Consigo pensar em maneiras de responder questões como essas que apelariam à filosofia (sobretudo à Metafísica), no entanto não consigo conceber como um cientista as responderia satisfatoriamente.

Seria possível enumerar outros problemas e mostrar como essas analogias falham como provas científicas, entretanto, mesmo que eu estivesse equivocado a esse respeito e o médico apresentasse um argumento consecutivo do outro em favor do espiritualismo, a argumentação poderia ser convincente mas jamais seria científica. As analogias introduzem um tema a ser debatido (a natureza da mente) e funcionam como uma espécie de exemplo favorável a um dos lados em disputa conforme mostram sua racionalidade, contudo não passam de um recurso lógico que embora explicite um princípio racional contido em si, não contribui com qualquer experimento ou resultado de pesquisa que comprove que esse princípio é verdadeiro. Não há ciência nessas afirmações. Deste modo, para além dos problemas filosóficos que apontei, o discurso do médico ainda tem problemas no que tange à ciência que pretende apresentar, sendo que, mesmo quando ele diz que pode ocorrer atividade mental numa área lesionada do cérebro ou que certas configurações de pineal favorecem determinados tipo de mediunidade, lá pelo fim da palestra, essas alegações constituem mero discurso sem evidências. Aliás, onde estão as evidências de Sérgio Felipe? Embora ele tenha afirmado que apresentaria suas pesquisas feitas na medicina: “Eu procuro raciocinar dentro da ciência formal” (12:45), por ora não foi feita uma argumentação com base em qualquer experimento ou teoria científica. Exploremos isso.

Provar o materialismo? (13:01 até 14:17)

Bem, creio ser simples perceber que até agora a apresentação de Sérgio Felipe se fundamenta em pressupostos filosóficos. Ao contar a anedota dos alienígenas e seu espanto com nosso cérebro de carne, por exemplo, notamos que o susto dos extraterrestres será compreensível somente se pressupusermos que a mente não é material e portanto não pode surgir da carne, quer dizer, caso adotemos um pressuposto filosófico metafísico. Eles se espantam conosco porque possuem de antemão um conceito de mente que não é corroborado pela realidade, inclusive, é exatamente essa a posição do médico durante a palestra: em vez de investigar os fenômenos e a partir dele criar hipóteses interpretativas, Sérgio Felipe tenta encaixá-los numa hipótese que os antecede e já é considerada verdadeira. As evidências científicas são apresentadas somente depois de estabelecidas as verdades que se deseja provar, como uma demonstração empírica de uma verdade metafísica.

Pessoalmente, acredito que o médico não tenha consciência de que procede assim — confundindo filosofia e ciência — e que não tenha dúvidas de que apresenta evidências científicas ao público. Boa parte de minha própria dificuldade em escrever esse guia estava em tentar entender os motivos pelos quais ele cometia certos amadorismos oriundos dessa mistura, posto que ele mesmo não esclarece muito bem o que pensa. E não esclarece pois nem considera as sutilezas do assunto. Por sinal, em certos momentos isso é tão acentuado que ele diz: “O materialismo não teve prova científica” (13:10) e a minha favorita: “Em qual laboratório foi provado o materialismo?” (13:22). Ora, se Sérgio Felipe entende o materialismo como uma realidade existencial — segundo as palavras dele — então alguém precisaria esclarecê-lo que realidade, materialismo e existência são termos da discussão filosófica e não da científica. A ciência trabalha com átomos, elétrons, peso, corpos e com tudo aquilo que pode ser quantificado, porém não com as noções metafísicas tais quais matéria, existência e realidade 1. Como seria possível provar cientificamente que o materialismo é uma realidade existencial, por exemplo? Com quais testes e com quais equipamentos? Aliás, antes de tudo, o que é exatamente uma realidade? Ou mesmo, o que é uma realidade existencial? São possíveis realidades não existenciais? O uso que o médico faz dos termos permite que coloquemos todas essas questões mesmo que atribuamos os sentidos mais banais para cada um deles. Indo um pouco mais longe, mesmo que aceitemos utilizar noções metafísicas — como materialismo — na ciência, será preciso definir o que esses termos significam e aí surge um entrave: definições metafísicas sempre estão em disputa. A noção de matéria, por exemplo, tem uma coleção de definições diferentes de acordo com o período filosófico e o pensador em questão. O que torna a definição de Sérgio Felipe verdadeira ou melhor que as demais? Por que ficaríamos com ela e não com qualquer uma das outras? A propósito, o que é uma boa definição? Tais discussões precisam ser feitas caso desejemos empregar noções metafísicas na ciência e, no entanto, elas nos levariam para longe do horizonte da ciência e daquilo que o próprio palestrante propõe.

Assim, independentemente da definição de materialismo que decidamos empregar, a ciência não terá em seu favor qualquer evidência porque ela está fora de seu âmbito. A esse respeito o médico está correto ao dizer que: “Quando o cientista coloca uma visão materialista é opinião pessoal dele, não a opinião da ciência” (14:05), por exemplo, todavia isso ocorre porque o materialismo não é uma tese científica e por isso é errado colocá-lo nesses termos. De fato, qualquer pesquisador que declare que a ciência é materialista está apenas afirmando sua opinião pessoal, tal como o palestrante afirma, contudo ele ignora é que o mesmo se dá com pesquisadores espiritualistas como ele: ambos somente produzem opiniões sobre ciência. Há uma contradição estranha em seu discurso: ele assume o critério científico para julgar as hipóteses disponíveis, rejeita o materialismo como sendo mera opinião, mas deseja provar uma tese metafísica… Uma tese que vai além do campo de investigação da ciência.

Acreditar na matéria requer fé? (16:17)

Permitam-me adiantar algo que Sérgio só dirá mais adiante, mas que integra sua crítica ao materialismo e ficaria melhor apresentado agora.

Depois de abordar o tema da constituição atômica da matéria o médico nos brinda com uma pérola: “O materialista acredita no que ele não toca e no que ele não vê. Precisa muita fé para se tornar um materialista” (16:17). Com essa afirmação ele pretende defender que a crença em entidades como átomos, elétrons e gravidade é baseada em algum tipo de fé, mesmo que seja também corroborada por evidências. Exploremos os problemas implicados nisso.

*

Comecemos pelo óbvio: antes de tudo, uma acusação de fé sobre os materialistas é uma provocação. Ela visa colocar sobre os materialistas toda a carga de carolice que os espiritualistas são acusados de possuir. Pensando assim, a fé seria uma espécie de sinônimo para a injustificação — quiçá irracionalidade — assumida por alguns cientistas ao aderir a certas crenças, como o materialismo. Pessoalmente, acho que esse tipo de acusação depõe contra o próprio espiritualismo, já que implicitamente se desmerece a fé conforme a entende como algo negativo com o qual se acusa e desmerece o adversário, mas esse tipo de discussão não importa para o que estamos tratando agora, ignoremos e vamos adiante.

É aceitável supor que crer em coisas que não percebemos por meio de nossos sentidos não seja uma questão de fé, porém de simples bom senso. A exemplo disso, suponhamos que eu apanhe um objeto pequeno e feche os meus dedos em torno dele fazendo com que suma da visão de todos, com isso, embora ele tenha se tornado imperceptível aos sentidos das pessoas e que ninguém mais possa vê-lo, ouvi-lo ou senti-lo (além de mim), nenhuma pessoa duvidará que ele continua entre os meus dedos conquanto não tenham a percepção atual dele. A partir do momento em que o objeto saiu da percepção das pessoas, passa-se a inferir que ele se encontra ali porque foi visto sendo colocado lá, ou seja, organiza-se racionalmente um conjunto de observações e assim supõe-se alguma coisa que tem base nelas mas que não é dado por elas. A racionalização faz com que possamos realizar inferências sobre o que não está na própria percepção. Se somente acreditássemos naquilo que percebemos por meio de nossos sentidos, então teríamos que acreditar que o objeto sumiu tão logo saiu do nosso campo perceptivo e não teríamos motivos para inferir que ele continuasse lá independentemente de o estarmos percebendo. Todo o tempo supomos coisas com base nesse tipo de raciocínio. E dá certo.

Além disso, mesmo em nossa experiência cotidiana nos deparamos com diversos limites para nossas capacidades sensoriais e aprendemos que se nos guiarmos inteiramente por elas seremos induzidos ao erro. Podemos pensar que quando olhamos o sol em sua marcha diária pelo céu, por exemplo, não acreditamos que ele seja como uma tampinha de refrigerante, embora seja assim que os nossos olhos o mostrem. Fora a distorção visual dos objetos, nosso paladar também pode perceber gostos de maneiras diferentes de acordo com nosso estado atual e nossa audição é menos eficiente na percepção de certos sons que a dos cães, por exemplo.

Todas essas banalidades explicitam o limite de nossas percepções e implicam na existência de coisas que não podemos atingir por meio delas. A crença naquilo que ultrapassa nossa capacidade sensitiva independe de qualquer fé porque pode ser inferida a partir da própria experiência de nossos limites, ou seja, pela própria constatação de que nossos sentidos não podem captar a totalidade do mundo.

Evidentemente, as pessoas acreditam em muitas coisas que extrapolam seus sentidos e as teorias científicas só supõe a existência de algumas, como os átomos e os quarks, ao passo que desconsideram várias outras, como deuses e extraterrestres. A seleção entre elas é feita por meio das evidências obtidas com os recursos que a ciência dispuser no momento. Podemos, por exemplo, utilizar máquinas para conhecer aquilo que ultrapassa nossas capacidades físicas, perceber tais entidades e, mesmo que de maneira incompleta, compreender como agem. Com o avanço da complexidade dos instrumentos de observação foi possível aos cientistas perceber a existência de bactérias, microrganismos e partículas tão ínfimas que nunca seríamos capazes de notar somente com nossos corpos. Deste modo, entidades cuja existência é impossível de verificar sensivelmente podem hoje ser notadas com instrumentos, o que impele a ciência a saber ainda mais sobre elas e a melhorar seus recursos tanto quanto possível.

Seria possível contra-argumentar assim: nunca vimos um átomo e por isso não há motivos para crer neles; no entanto, mesmo que não percebamos os átomos, percebemos fenômenos físicos cuja melhor explicação até hoje é dada por eles. Átomos existem exatamente como a ciência formula? Não sabemos, embora haja bons motivos para que possamos pensar que sim, a começar pelo sucesso da química como ciência. Se um dia nossos equipamentos puderem observar um átomo diretamente, teríamos uma confirmação poderosa da teoria atômica (não que alguém duvide dela), entretanto mesmo que isso não aconteça e nunca tenhamos uma evidência direta do átomo, continuaremos a ter boas razões para crer nele porque a ciência feita com base nessa crença funciona bem. Analogamente, malgrado eu nunca ter visto o interior de meu tórax, tenho alguns bons motivos para supor que ali dentro pulsa o meu coração e que não posso abusar muito dele. Até o momento minha suposição tem dado bons resultados e não creio que se mostrará falsa ou arbitrária.

Caso queiramos insistir mais no assunto seria possível ir ainda mais longe no questionamento da matéria, porém, mesmo que um dia observemos a realidade ínfima da matéria e descubramos que não existem átomos e que a ciência estava errada, os cientistas não continuarão a crer num átomo com base na fé, mas mudarão suas crenças justificados pela empiria. As crenças em entidades extra-sensíveis postuladas pela ciência estão baseadas em evidências (por mais insuficientes que estas sejam) e não são crenças arbitrárias vindas da opinião dos cientistas. Elas podem ser revistas assim que forem apresentados bons motivos para tal. Aliás, Sérgio Felipe seria capaz de mudar sua crença na existência de uma alma imortal caso a ciência não a corroborasse? Poderia não acreditar num deus criador de almas? Tenho a impressão de que não, mais ainda, tenho a impressão de que nos últimos duzentos anos de ciência nenhum laboratório conseguiu provar a existência da alma humana e que isso não faz a menor diferença para o palestrante. As atuais teorias científicas são aquelas que sobreviveram às críticas, que puderam prever fenômenos com antecedência e que aguentaram centenas de testes no mundo todo que poderiam mostrar que são falhas mas somente as confirmaram, em outras palavras, há milhares de corroborações nas hipóteses científicas que as tornam aceitáveis em suas formulações atuais. Caso o palestrante deseje provar que uma hipótese espiritualista também pode ser válida, é preciso prová-la e torná-la forte o suficiente para suportar tudo o que uma hipótese científica tem que suportar para que seja aceita.

A tal da espiritualidade (14:18 até 21:45)

O materialismo é apenas opinião e o espiritualismo é uma realidade existencial: é com essa concepção que Sérgio Felipe desenvolverá sua argumentação daqui por diante, entendendo o espiritualismo como uma espécie de correção dos rumos da ciência, até hoje iludida pelo materialismo. Se existe engano, então é preciso conduzir as pessoas ao caminho correto e mostrar como a ciência pode ser compatível com a espiritualidade. Esse é o seu modo de arguir.

Pensando assim o médico dirá que: “A espiritualidade é um campo aberto à pesquisa científica” (14:18), aliás, um princípio muito bacana, pois há mesmo muito o que explorar no que diz respeito à espiritualidade na ciência. Felizmente, muita gente séria se dedica ao estudo do funcionamento dos sonhos, tenta entender como rezar mexe com nossa mente e o motivo pelo qual ter fé frequentemente nos faz bem, ou como operam os efeitos incríveis da meditação, dos transes hipnóticos e outras coisas do gênero; todavia, parece que esse tipo de pesquisa não satisfaz a curiosidade científica do palestrante e não é nesse sentido que ele concebe a espiritualidade. No seu entender, espiritualidade não é um termo que diz respeito a certos fenômenos naturais ligados a crenças e práticas humanas, mas a uma espécie de mundo sobreposto ao nosso mundo, uma coisa invisível, inodora e insípida, oculta detrás do véu da matéria e que caso seja pesquisada pela ótica adequada, por meio da doutrina correta e da religião verdadeira, poderá ser descoberta. Investigar a espiritualidade implicaria na investigação de entidades metafísicas como alma, deus, em suma, “outras realidades” que ultrapassam o escopo normal da ciência. Tal concepção de espiritualidade é tão nítida na cabeça do médico que ele sequer desconfia que a palavra possa ter outro sentido ou ser fonte de alguma disputa.

Daí, ele desenvolve: “A questão é que falar de espiritualidade numa universidade é, sobretudo, trazer à ciência a lucidez e a honestidade” (16:47), ou seja, o espiritualismo contribui com a universidade levando promovendo a lucidez e a honestidade, sendo que, caso livremos os universitários dos erros e das desonestidades materialismo, levaremos até eles uma ciência honesta e lúcida, condizente com a realidade existencial correta e, é claro, espiritualista. É notável que ao dizer que o espiritualismo leva essas duas virtudes à universidade, Sérgio Felipe implicitamente acusa os materialistas de não fazerem o mesmo, todavia, ignoremos esse tipo de bobagem; fiquemos, porém, com a obviedade que ele atribui à espiritualidade para que entendamos melhor o desenvolvimento de sua palestra. Quando diz que: “A universidade deve ensinar e pesquisar todas as formas de pensamento” (17:00), por exemplo, o médico considera que espiritualidade seja um tema tão facilmente consensual que possa até mesmo ser ensinado na universidade da maneira pela qual ele o entende.

A partir disso o médico cita uma frase inscrita na praça do relógio na USP para ajudá-lo a expandir o assunto: “No universo da cultura o centro está em toda parte”. Um princípio sublime, sem dúvidas, cuja interpretação o médico distorce ao concluir que: “Então o centro de uma universidade não pode estar baseado em uma cultura materialista, sobretudo quando o todo que sustenta nossas universidades é de aculturamento espiritualista. Seria um contra senso.” (17:32). Ora, se o centro do universo está em toda parte ele não pode estar sustentado somente num eixo — como o ponto de vista materialista, por exemplo –, ao passo que seria parcial e restritivo por adotar uma ótica única para julgar a totalidade da cultura, no entanto, o mesmo vale para qualquer outro eixo cultural, inclusive aquele das pessoas que sustentam a universidade. Se o centro está em toda parte não faz sentido que a universidade seja materialista e nem mesmo espiritualista: os mesmos motivos válidos para um lado são válidos para o outro e ela deve ser universal e colocar o centro em toda parte — não é esse o sentido da frase? A impressão que tenho ao ouvir o palestrante dizer isso é que não há problema na escolha de um centro para a universidade, desde que seja o centro “correto”.

Essa concepção vai tão longe que o palestrante é levado a crer que até psicólogos estrangeiros concordaram com o seu modo de pensar e, citando um documento da associação americana de psiquiatras que afirma que o médico deve se precaver para não diagnosticar fenômenos espirituais como alucinações ou psicoses, Sérgio conclui que os psiquiatras americanos assentem com seu modo de pensar a espiritualidade: “O médico hoje (…) tem recursos dentro da medicina oficial para saber se aquela pessoa está sofrendo de um mal psiquiátrico primariamente, ou se ela está sofrendo de um problema de mediunidade” (21:45). Caso ele tenha razão, então considerações sobre espírito, alma e deus fazem parte da ciência tal qual é praticada lá pelas bandas dos Estados Unidos — um escândalo, não? O raciocínio é o seguinte: se os psiquiatras admitem que fenômenos espirituais vividos por pacientes não são alucinações ou psicoses, então eles só podem ser manifestações espirituais legítimas, logo, os psiquiatras americanos aceitariam a mesma espiritualidade que Sérgio Felipe professa: “Espiritualidade entra oficialmente dentro da medicina como um consenso [grifo meu] das nações unidas” (19:16). Desenvolvamos isso melhor.

Pergunto: quando alguém diz que teve um sonho com um parente morto, por exemplo, ou quando alguém entra num templo e se enche de deus, trata-se de uma alucinação? Mais: uma pessoa conversa com um padre e sai do confessionário revivida, sentindo que deus a perdoou, está delirando? Certo, pode acontecer que sim, afinal há muita gente biruta por aí, mas creio que seria somente numa parte pequena dos casos. Experiências assim — espirituais, se quiserem — são bastante comuns e não precisamos considerá-las como padecimentos físicos. Quem leu O alienista conhece o risco de tratarmos cada comportamento incomum como sendo doentio e, bem dizendo, é exatamente esse risco que o documento quer evitar: comportamentos que envolvam a espiritualidade do paciente não devem ser simplesmente tratados como doentios e constituir motivo para a medicação do mesmo, quer dizer, quem vê deus nas nuvens, quem tem um pressentimento de que o destino reservou uma coisa especial para si, ou qualquer coisa parecida, não precisa estar louco. Afirmar isso, todavia, não significa assentir que deus perdoa as pessoas que se confessam e é por isso que elas se sentem aliviadas, nem dizer que pessoas que pensem incorporar espíritos estejam mesmo incorporando, ou algo do tipo, mas que é possível lidar com um paciente que apresente tais comportamentos sem tratá-lo como alguém que delira ou alucina, apenas compreendendo seu jeito como um modo de pensar e se relacionar com o mundo. É por isso que a espiritualidade deve ser considerada no trato com os pacientes: porque eles frequentemente acreditam nela e vivem com base nela. Os psiquiatras americanos não estão fazendo uma afirmação de fé ou dizendo que espiritualidade tem fenômenos com causas metafísicas reais, mas defendendo que a espiritualidade pode ser estudada fora do escopo das desordens físicas e mentais. Aí está o consenso dos médicos e ele não envolve nenhuma metafísica.

Finalizando: o materialismo é mesmo verdadeiro?

Bem, com tudo o que disse até aqui creio ser possível perceber como o médico pensa e de que maneira ele erra ao pensar assim. Além disso, embora tenham sido afirmadas muitas coisas que deixei de lado ao elaborar este guia e várias outras tenham sido rearranjadas para que melhor se concatenassem neste texto, espero ter feito uma análise justa do que foi afirmado.

Terminados os primeiros vinte e dois minutos o médico passa a misturar indiscriminadamente uma descrição científica da pineal com o espiritismo kardecista, sem dizer o que vem de um e o que vem do outro, adicionando a isso coisas bizarras como ectoplasma, mediunidade, incorporação, vibração mental, imagens de power point mostrando pessoas fora do corpo no melhor estilo do cinema trash, citações em que Santo Agostinho (um católico convicto) é usado para afirmar a mediunidade, a alegação de que gêmeos são distinguidos constitucionalmente porque possuem, cada um deles, uma alma singular e várias outros dizeres que soam arrepiantes diante do bom senso. Analisar a palestra até o fim seria uma tarefa inglória, tendo em vista que o texto até aqui já ficou imenso.

Antes de pôr fim a isso tudo, no entanto, eu gostaria de melhorar o que apenas mencionei no princípio do texto. Trata-se do seguinte: embora os argumentos do médico para recusar o materialismo sejam pedestres, disso não se segue que não possam ser formulados bons motivos para recusar o materialismo.

Se estivéssemos a discutir seriamente o assunto, isto é, com um bom domínio do que ele envolve, poderíamos começar nos perguntando como, por exemplo, é possível falar de materialismo em relação à mente, uma vez que o conceito de mente é pressuposto em toda investigação do assunto e antecede a empiria. A mente não é um dado tal qual um neurônio ou um cérebro que possa ser investigado com um bisturi suficientemente afiado e, mesmo que todos tenhamos acesso à nossa própria mente, só podemos supor que as demais sejam parecidas com ela: os outros humanos provavelmente pensam, tem sentimentos e coisas assim, contudo, agrupar esses elementos e supor que sejam comuns a todas as pessoas é suficiente para formar um conceito, mas não um dado empírico. Em outras palavras, a mente continua inacessível à ciência por meios diretos e para falar dela continuamos supondo o que ela seja sem acessá-la empiricamente. Ademais, pelo menos na aparência, temos mais estados mentais do que atividades cerebrais correspondentes, sendo que uma mesma fotografia do cérebro pode corresponder a mais de um pensamento ou estado da mente. Isso significaria que nem toda a mente é redutível ao cérebro? Tenho a impressão de que não, pois talvez o aprimoramento técnico possa precisar melhor o que ocorre no cérebro, mas uma boa discussão poderia se iniciar daí.

Com tudo isso que foi dito quero afirmar que o modo pelo qual o médico prossegue é ruim, mas que a discussão é boa e pode ser feita com propriedade. Aliás, é o que espero ter começado aqui, talvez até conseguido.

1 Antes que alguém contra-ataque: átomos não são imateriais, leis não são entidades mas descrições de comportamentos e, por óbvio, o fato da ciência não considerar entidades imateriais não implica em sua inexistência.

Like what you read? Give Bruno Oliveira a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.