Apetitar 4 anos depois

Bruno Rossi


Ao longo desses anos me apoiei em muitas historias, de sucesso ou não, de amigos , conhecidos, empresários distantes e isso muito me ajudou. Hoje, conto um pouco da historia do Apetitar, essa criança de 4 anos que muito nos ensinou e que hoje se despede do mundo em grande estilo. Espero que de alguma forma esse texto devolva um pouco do que recebi em minhas leituras. Desculpem a franqueza e as frases diretas mas fazer um negocio dar certo não depende em nada desse bla bla bla que ouvimos e lemos todos dias .

Hoje, oficialmente, o Apetitar passa o bastão ao IFood. Hoje nosso código será zipado e armazenado em algum repositório e servirá apenas para tirar duvidas. Deveria ser um dia triste… apenas deveria.

Quando outra empresa se interessa pela sua,

Ja me perguntaram muitas vezes o que nos motivou a criar o Apetitar. Estaria mentindo se dissesse qualquer coisa bonita do tipo: “Vimos que existia um grande problema no delivery do Brasil e o Apetitar foi pensado pra acabar com isso” (ok, em algumas entrevistas eu falei isso, me desculpem).

“Por enquanto o site conta com 20 associados”

Na verdade tudo nasceu de uma necessidade de bebermos durante a semana aliado a uma grande vontade de sairmos dos nossos empregos (se desse pra ficar rico também seria ótimo). Nada mais , nada menos.

Marcamos varias reuniões em barzinhos distintos durante algum tempo, sempre com a pauta: “Vamos abrir uma empresa de que?” . A medida que as cervejas vinham uma inteligência descomunal pairava na mesa e varias ideias iam surgindo. Cogitávamos todo tipo de atividade… sim, também pensamos em fazer um site de baladas.

A ideia que mais nos encantou foi criar uma empresa que vende anuncio em caixas de pizza . Na época , éramos eu , Daniel e Paulo Benite (posteriormente ele seria demitido pelo Daniel rs). Ótimo . Realmente nos empolgamos. Era simples. Faríamos as caixas, venderíamos os anuncios e daríamos de graca para as pizzarias da cidade. Algumas semanas depois descobrimos que algum abençoado ja tinha patenteado isso e então, voltamos a beber.

Não demorou muito e o Benite deu a ideia de um site de delivery. Nos aprofundamos e vimos que ja existiam alguns no mundo e um no Brasil (Restaurante Web, hoje parte do grupo IFood também). Analisamos e decidimos copiar . Sim , nada novo , nada revolucionário. Apenas uma linda copia. O site era bem fraco então focamos no GrubHub que nos parecia bem mais completo.

Durante o desenvolvimento alugamos um escritório (como manda o figurino). Quando iniciamos o mapeamento do banco de dados começamos a ver que não seria tão simples como havíamos pensado e, durante, esse desanimador processo as energias foram acabando.

Vergonha alheia demais essa entrevista

Vou dar uma pausa pra lembrar de algo que foi decisivo no futuro do Apetitar. Nessa época eu havia acabado de voltar da Europa. Trabalhei por algum tempo como Arquiteto Java em Portugal. Foi, sem dúvidas, uma grande experiência e como toda boa experiência, ela deixou marcas. Voltei ao Brasil viciado em RedBull e decidido a ter minha empresa.

Minha decisão também não foi motivada por nada puro e lindo como sempre acontece. Foi matemática, pura e simples.

Eu ganhava muito bem e o euro estava cotado a quase R$ 4 (era lindo). Eu estava próximo do topo financeiro da minha carreira e, de quebra, ainda tinha a limitação acadêmica. Não tinha muito a almejar e isso se mostrou, ao longo da minha vida, algo insuportável. Se não tenho como aumentar meu salario , vou abrir minha empresa, easy!

Voltei pro Brasil e, com o dinheiro que juntei comecei a construir casas. Abri minha construtora. O momento era propício, o governo acabara de lançar o Minha Casa Minha Vida e , acelerado pelo cenário, a Rossi Construtora cresceu 1500% em menos de 2 anos. Então, eu decidi que eu teria 10 empresas em 10 anos (esse tipo de insanidade acontece quando se toma 5 energéticos por dia).

Resolvi comprar uma franquia de Pizzas. E qual o motivo? Nada de mais novamente. Precisava abrir outra empresa (eu ainda precisava de 8) e sempre via essa rede de pizzas lotada, logo, do alto da minha imbecilidade virei franqueado.

Vender pizza deveria ser algo simples. Mas se mostrou a coisa mais complicada da minha vida. Vendi minha alma ao demônio das pizzas. Parei de ter vida. O forno sempre estragava aos domingos e, quando não estragava meu forneiro, resolvia faltar o trabalho pra ir beber. Manjericão parecia desaparecer do mercado mundial toda quinta feira e todo dia algum funcionário esquecia de descongelar as barras de queijo no dia anterior. Era um inferno.

Fui forneiro, pizzaiolo, atendente, motorista, panfleteiro, motoboy e tudo mais. Anos mais tarde decidi fechar a pizzaria. Mas o demônio das pizzas voltou e eu ainda levei o carma de 9 processos trabalhistas. Ao fim, ficaram apenas o odio ao manjericão, os processos e uma puta experiência de delivery.

Voltando ao desenvolvimento do baby. Mapear o banco de dados levantou várias questões desanimadoras. Gastaríamos mais tempo que o esperado e muitas perguntas ainda ficariam sem respostas. Eu estava arrebentando na construtora e muito empolgado com a Pizzaria, então o Apetitar ficou sendo minha 3a prioridade (se é que isso existe). O Paulo Benite também desanimou e acabou sendo “demitido” pelo Dandan (na verdade ele ate que ficou feliz). Eu, apesar de não tão empolgado, continuei.

Falam por ai que sócio bom e sócio morto. Eu preciso discordar. Ter os socios certos e essencial. O Apetitar não estava sendo minha prioridade, mas era a do Daniel. E assim foi. As telas foram surgindo. Em pouco tempo ja podíamos fazer testes. Faltava agora o layout. E eis que surge o novo personagem: Elio Basilio. O programador que nao programa e o designer que nao faz layout.

Não queríamos pagar ninguém pra fazer nossa logo e nosso layout. Lembrei de um humano que tinha trabalhado comigo e chamamos ele pra ser nosso sócio. Ele topou. Pra nossa surpresa, depois de 4 anos, descobrimos que não foi ele quem fez a logomarca, ele pediu pra namorada fazer. Sim, eu também fiquei chocado quando descobri.

Ficou pronto. Vamos botar os restaurantes na base. Era bem complicado, ninguém conhecia o serviço e as pessoas não ficam satisfeitas em pagar por algo que desconhecem. Comecei a abordar os restaurantes menores e, pra minha surpresa, eles cagavam pra essa maravilha de sistema. Eu tinha o papel no quadro societário de manter todo mundo animado então evitava comentar dos não’s que tomava. Ok, não estava tendo muito sucesso nessa estratégia, então decidi mudar: vou trazer os grandes, os pequenos quando perceberem, vão querer entrar também. Vender pra grandes marcas requer mais desenvoltura. Foi entao que entendi o real motivo de eu ter uma pizzaria. Eu conhecia muito de delivery, respirava aquilo todo dia. Os grandes comecaram a me respeitar, e aceitaram testar nosso sistema.

Fechamos com os maiores deliveries de Brasilia, e então os pequenos começaram a vir com certa facilidade. Os pedidos chegaram, sem grande volume. Estava tudo ótimo, mas não dava dinheiro.

O Apetitar consumia 70% do nosso dia e nos dava 0% do dinheiro que precisávamos. Novamente apliquei a matemática e resolvi me dedicar efetivamente ao que dava dinheiro. Decidi abandonar o Apetitar.

Durante um bom tempo o Elio e o Daniel tocaram sozinhos. O Apetitar passou a crescer apenas de forma orgânica, era de se esperar uma vez que eles não traziam nenhum restaurante novo pra base (apesar deles insistirem que fecharam vários enquanto eu estava fora). Por uma serie de razões e quase 2 anos depois, decidi voltar.

Chamei eles pra conversar e eles disseram que estavam retirando R$ 700,00 de pro-labore. Opa, como assim? A empresa tinha receita liquida de R$ 2500,00!!

A grande questão era que o Apetitar dava trabalho pra caralho e eles ficaram sozinhos por muito tempo. Não era absurdo já estarem de saco cheio. Sem investimento, o Apetitar morria e tudo se resolvia.

O tempo cansou eles mas, com a mesma velocidade, me descansou. Eu estava querendo voltar.

Uma forma que encontrei de não parecer tão ridículo pedir pra voltar foi: vou fingir que sou essencial. Falei que eu voltaria, mas só voltaria se eles parassem de tirar esses R$ 1400,00 de pro-labore. Bom, eles caíram nessa historia e eu não precisei rastejar (sim, o Daniel com certeza iria exigir isso)

Em pouco tempo, nós 3 estávamos muito empolgados. Contratamos uma agência de marketing, redefinimos o layout e a logomarca ( sim, a logo que nosso socio “fez” ) eu fui pra rua trazer restaurantes. Trabalhamos muito. Eu vendia, Elio cadastrava os cardápios, Daniel cuidava do sistema . Tudo indo perfeitamente bem ate que o Elio resolveu se enfiar embaixo de um carro e ficou hospitalizado por meses. (daria uma outra historia isso)

Putz, foi foda. Recebemos a ajuda da namorada dele por vários meses. Quando ele sofreu o acidente nos movimentávamos 2000 pedidos por mes, quando ele recuperou a consciência nos ja estávamos com 10000.

Quando chegamos a 10k descubro que o IFood (eu nunca tinha tido um concorrente) estava vindo pra Brasilia. Ja tinham vendedores na cidade e todos os dias um cliente nosso aparecia no aplicativo. Como brigar com o maior site do Brasil? Os caras com todo dinheiro do mundo e dispostos a conquistar a cidade. Sim, não tinha muito o que fazer a não ser me cagar todo de medo.

Entrevista para Rede Globo

Me restava recorrer ao bom serviço que prestávamos. A cada cliente nosso que ia pro IFood, eu marcava reunião em seguida e desfazia o contrato deles. Cada um usa as armas que tem. Nosso sistema era bom, estávamos crescendo rápido e os donos de restaurante confiavam em mim, por que eles iam querer o IFood? (bom, fazia sentido eles quererem o IFood, mas eu não podia deixar eles perceberem).

Durante todo o tempo foi uma concorrência saudável. Uma briga que só fazia bem para Brasilia. Por fim, começamos a conversar. Eu pouco tempo chegamos num acordo e eu, Daniel e Elio voltamos a trabalhar. Em 2015 ja processávamos mais de 90mil pedidos. Isso e coisa pa-ra-o-ca-ra-lho. São quase 70 milhões de reais por ano passando pela nossa plataforma. Viramos a 2a maior plataforma de delivery do Pais com 4 funcionários. Porra! Nos conseguimos.

Assinatura do Contrato com o IFood

Como disse no inicio: Hoje tinha tudo pra ser um dia triste , mas não, não é.

Não criamos um projeto que mudou o mundo. Não mudamos a cultura de um pais. Nós apenas respiramos o Apetitar intensamente. Colocamos nele todas as nossas energias. Deixamos de lado muitas coisas. Nossas namoradas, nossas familias e , por algumas vezes ate mesmo nossa amizade ficou em segundo plano. Ok , não é necessário terminar o namoro, deixar a família de lado ou brigar com seus sócios . Apenas se dedique ao extremo e trabalhe. Trabalhe muito.

Fizemos sim um puta trabalho e essa sensação de que fizemos o melhor que podíamos é maravilhosa, acreditem em mim. Talvez seja isso que motive tanta gente a criar coisas novas.

Agora são 5 da manha e estamos finalizando a migração para o IFood. Hoje, dia 22 de fevereiro, o coração do Apetitar passa a bater em outro corpo. Deixa um legado de sucesso em Brasilia (e outras cidades), 700 restaurantes satisfeitos, mais de 400.000 usuários felizes e seus 3 criadores orgulhosos pra caralho.