Vivo

Estamos dando uma geral no meu quarto, tirando a tonelada de papel que acumulei do colégio até a faculdade. Ela coloca um álbum do Caetano Veloso. Não sou muito dele, mas uma música bate forte.

“Walk down portobello road to the sound of reggae (desço a rua Portobello ao som de reggae)
I’m alive (estou vivo)
The age of gold, yes the age of (a era de ouro, sim a era do)
The age of old (a era do velho)
The age of gold ( a era de ouro)
The age of music is past (a era da musica é passado)
I hear them talk as I walk (ouço-os falar enquanto caminho)
Yes, I hear them talk (sim, ouço eles falarem)
I hear they say (escuto eles dizerem)
“Expect the final blast” (espere pela rajada final; algo como o fim está próximo)
Walk down portobello road to the sound of reggae
I’m alive

I’m alive and vivo muito vivo, vivo, vivo
Feel the sound of music banging in my belly (sinto a música batendo na minha barriga)
Know that one day I must die (sei que um dia tenho de morrer)
I’m alive (estou vivo)

I’m alive and vivo muito vivo, vivo, vivo
In the eletric cinema or on the telly, telly, telly (e o cinema elétrico na teve)
Nine out of ten movie stars make me cry (9 entre 10 estrelas de cinema me fazem chorar)
I’m alive
And nine out of ten film stars make me cry
I’m alive”

Não sei dizer se é a atmosfera da música, o swing, a letra ou tudo isso junto; mas aquela sensação de estar vivo bate forte.

Não estou falando da sensação de esperar seu horário em um consultório médico ou de andar apressado em direção a algum compromisso. Falo da simples sensação de encher os pulmões e se sentir vivo de verdade. De sentir o ar, o calor no peito e talvez até algumas lágrimas nos olhos.

“Im alive e vivo, muito vivo, vivo, vivo

eu to vivo pra caralho

vivo, vivo, vivo, vivo vivo

Nine out of ten movie stars make me cry

Im alive!!!!”, canto minha própria versão da música sem parar e cada vez mais alto.

Ela e meu irmão começam a reclamar. Canto ainda mais alto.

O espaço tempo se expande, e em um outro ponto qualquer, falo pra ela:

“Só não gostei da parte que fala em chorar com estrelas de cinema. Tanta coisa de verdade pra se emocionar.”

“É, mas as pessoas tão muito viciadas em telas pra sentir o mundo real”, ela responde.

“E se forem estrelas de verdade?Fica menos artificial. Também dá pra mudar a escala, daí faz mais sentido pra mim.”, penso em voz alta.

“Quê??” ela não acompanha meu raciocínio

“One out of ten million stars make me cry (uma entre dez milhões de estrelas me faz chorar)

Im alive”

Respondo cantando. Enquanto faço isso, olho fundo nos olhos dela e vejo o brilho daquela estrela. Dela, que entre tantas outras, conseguiu me tocar de verdade; que faz com que eu me sinta vivo.

Acabo de cantar e estou com os olhos cheios de lágrimas. Ela sorri e nos beijamos.

Sei que um dia tenho que morrer; estou vivo.

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