Respire

Cedo ou tarde, você vai ter que respirar fundo e decidir: termino com ela ou vamos tentar outra vez? Faço particular ou vou para mais um ano de cursinho? Peço demissão ou aproveito mais um, dois, três meses da comodidade fútil do dinheiro? Será que é hora de ter um filho? Será que é melhor esperar pra realizar um sonho? Será que ainda há espaço na sua gaveta de projetos esquecidos pra mais uma rebeldia sem coragem?

Cedo ou tarde, você vai ter que respirar fundo ao decidir: e vai doer: ela já foi embora, o cursinho já começou, não há mais dinheiro no banco, seu filho precisa de roupas, o sonho mofou na mesma gaveta de cartas, fotografias e velhos brinquedos aposentados pelo tempo: você é apenas mais um na engrenagem ridícula do desespero: apenas mais um marcado como gado: apenas mais um sem casa, sem teto, sem vida; e aí, então, você descobre: a lua nunca é bonita para quem precisa dormir na rua.

Assim são as decisões: situações orgânicas, vivas, movidas por algo que vai além de você. Decisões são antônimos: ir e vir, desistir e continuar, aceitar e recusar. Banais, arbitrárias, duras. Elas carregam o peso da mudança, mas são, também, o presságio do sonho: decidir nos joga fora da órbita, nos coloca à disposição do mundo, nos mostra a fragilidade de todo e qualquer homem: somos todos casca e, à beira de uma decisão, quebramos feito ovo a cair da mesa: e lá está um menino de 15 anos com um revólver apontado pra própria cabeça, lá está uma mulher alcoólatra deglutindo frascos de remédio, lá está um velho depressivo posicionando a cadeira embaixo da corda.

Decisões mostram que aquela velha gaveta, que poderia ser casulo, é caixão: e o sonho, enterrado vivo, morre na hora do parto: não há mais vontade, não há mais riso, não há mais nada: só o que resta são algumas caixas de Nescau, uma bronquite, algumas meias sujas, livros velhos, uma pequena cidade no interior da Bahia e os olhos verdes mais lindos do mundo.

Respire.

O mundo grita e você, menino, precisa responder: decida. Rápido, não adianta ir pra debaixo da cama ou se esconder atrás das cortinas: não adianta subir no lugar mais alto da árvore e ficar atrás de folhas e galhos e troncos: tudo é olho do mundo no mundo.

Respire.

Algo que começa pode dar certo ou errado. Algo que não começa nunca vai dar errado. Mas também nunca vai dar certo.

Respire.

Angústia e felicidade: do riso para o risco apenas uma letra C.

É só uma letra.

Respire.

Uma letra não pode ser tão ruim assim.

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