Refletir não é difícil… quando se tem café fresco.
A música em si só diz respeito a parte disso tudo, mas só porque ela não saía da minha cabeça enquanto tentava pensar: o refrão foi assustadoramente esclarecedor num sentido de interpretação completamente diferente do que ele quer dizer.
“If you’re a 555, then I’m a 666”
Neste caso, não teve relação com a conotação pagã e debochada que a música representa. Não mesmo. Em vez disso, entendi que a mensagem foi “não sou o que penso, nem o que você pensa que sou. Sou apenas um processo em andamento ainda sem resultado e, se você não aceita, não serei aquilo o que você é.” Sem indiretas, sem cutucões. Esta mensagem foi de mim para mim.

O começo da odisseia que é refletir sobre a própria vida e as próprias decisões sob uma perspectiva “de fora” pode ser bastante difícil num primeiro momento, mas, quando temos à disposição uma garrafa de um bom café fresco e paciência, os rascunhos das respostas começam a tomar forma que surgem de lugares inesperados.
Durante bastante tempo eu pensava que meu maior prazer era ensinar as pessoas aquilo que posso. Sempre gostei, também, de fazê-las pensarem naquilo que dizem para que refletissem melhor se suas ideias realmente fazem sentido.
Como assim? Por quê?
Entendo que entre apenas pensar e dizer o que você pensa em voz alta, há uma diferença: o impacto ao ouvir as próprias ideias - as vezes elas podem dar luz à novas ideias, ou simplesmente soar muito absurdas, impraticáveis, descartáveis. É como se ao pronunciar um pensamento as palavras da mente saíssem de sua forma abstrata assumindo forma física e, assim, simbolizando a razão da ideia tornando-a mais fácil de se entender e julgar.
Praticar esse exercício em silêncio é a parte difícil, pois quando se está sozinho, ou rodeado por pessoas que não dizem respeito às suas questões, não há para quem dizer suas ideias em voz alta. Afinal, o conflito interior é seu e você o divide com quem quiser, ou não.
No entanto, além do café, existe uma forma muito útil de se chegar a algumas conclusões. Ela é até bastante conhecida em algumas áreas e me pareceu bastante oportuna: chamam de “Os 5 porquês”, onde basta se questionar “porque?” após cada resposta que encontrar até chegar a um ponto em que o “porque?” não é mais viável.
Nessa pesquisa interior, entendi que não gosto apenas de ensinar. Eu gosto sobretudo de aprender com o que ensino à medida que vou explicando, porém a partir do entendimento e da reflexão do outro. Ou seja, eu tenho sede de conhecimento, de aprender, absorver e enxergar através da experiência das outras pessoas, independentemente de eu ensinar ou não.

Daí que tudo fez sentido. Eu imaginava que gostava de falar, quando na verdade eu prefiro ouvir. Inconscientemente sempre fui assim. A necessidade de falar era apenas a necessidade de vocalizar meu pensamento, meu conhecimento e sentimento, para ouvi-lo e analisar melhor o que tudo representa.
Nosso caráter, ideias e ideais são formados pela somatória e reflexão de todas as experiências e influências do mundo a nossa volta. Ninguém é formado baseado apenas em si próprio. Isso não existe. Em vez disso, nós refletimos a todo o momento sobre todos os estímulos do ambiente e das pessoas, acumulando conhecimentos e experiências que nos levam a decidir quais ações tomamos.
Talvez ouvir os outros, digerir suas ideias, entender suas perspectivas e suas razões, para depois dizer para si, em silêncio, os próprios pensamentos e sentimentos que carrego tenha sido a melhor forma que encontrei de chegar próximo do auto-entendimento.