Food truck, o Nespresso da comida de rua

O lego imitando a vida. Foto: Mista Carrot/Flickr.

A fome atormenta. É criador e criatura em busca de comida. Passos largos igualando-se a correria dos carros. Um exagero do autor. É um restaurante ali, um food truck acolá. É uma infestação de ramos alimentícios — reflexo do grande retorno financeiro, “apesar da crise”, um bordão do jornalismo sem aprofundamentos, ou na falta da temida. Na dúvida, a tranquilidade da rua, acompanhado de uma breja e um lanche, afaga a barriga dos mais desesperados. Comida de rua, o ponto chave da nossa conversa — alias, alguém está me ouvindo? Bom. Há tempos questiono-me acerca da apropriação no conceito de comida de rua e nos valores ofertados nos food trucks (ou trucks gourmets, seja lá como definam os caminhões moderninhos).

O que nasceu para atender a rotina desenfreada nas metrópoles — espalhando-as feito semente por todo globo — com comodidade, ou seja, rapidez e baixo custo, deu vazão ao refinamento. É a gourmetização. Uma apropriação — e por que não evolução? — do termo transformando-se em porta de entrada para divulgação de cozinheiros desconhecidos e fatigados do trabalho dos bastidores. É a era do MasterChef. Era dos empreendedores. Tornar chefe de si mesmo. Não há nada de errado nessa questão, sejamos claros, é de fundamental importância pra economia brasileira. Porém devemos observar que os preços ofertados nos cardápios são semelhantes — ou maiores — em comparação a restaurantes e lanchonetes. Os truckeiros não fazem jus à vantagem lucrativa ao, principalmente, ignorar o baixo custo dos pequenos caminhões. Seja na construção (o investimento varia entre 50 a 70 mil reais, segundo o Sebrae) ou no funcionamento/manutenção dos mesmos. Perdendo a chance de criar uma forte concorrência contra as redes tradicionais. Perdendo a chance de tornar-se um UBER contra os taxistas, ou o NETFLIX contra as operadoras de televisão. Oposto a isso, estão à procura da rápida ascensão comercial, condizente com a geração Y — sempre visando o sucesso meteórico sem buscar a experiência -, dando razão a elevação de preço. Às vezes, absurda. Uma pena.

Afinal, estamos falando de comida de rua. Ao ar livre. De comida. Do podrão ao gourmet. Food truck é o Nespresso da comida de rua. Ponto. Você compra cápsulas — de pequenas doses — para sentir o mesmo sabor do café em pó, achocolatado ou chá. Aqueles de vidro, lata que duram o mês inteiro. Uma “fortuna” contrastada com o pequeno valor, encontrado em qualquer mercadinho de esquina. A diferença está na embalagem, na forma apresentada — pronta para fotografia nas redes sociais. Cada vez mais efêmeras. Sendo assim, seguindo a média de preços e eliminando grande redes de fast food, o que vale mais? O comodismo, o barato ou o caseiro? Um hambúrguer “gourmet” — com diferentes texturas — de 20 reais? O clássico — com sabores conhecidos — hambúrguer de lanchonete, acompanhado de suco, por 14 reais? Ou, de forma caseira, preparar em casa por valores mínimos? Que escolha difícil aos poupadores, hein? Visando o futuro, os foods trucks necessitam mostrar estratégias, no jogo da concorrência, para não tornarem-se apenas tendências de mercado. Ou seja, evitando seguir o amargo do esquecimento junto com os cupcakes, brownies, frozen yogurts, cantores sertanejos de apenas um sucesso… e do destino das paletas mexicanas, que não provém do México, quem sabe? Passageiro. O mercado é cruel com quem se aproveita do efeito novidade.

Uma leitura complementar ao texto: Empresários têm prejuízo com franquias que viram moda, crescem e decaem rapidamente, da Folha de São Paulo.

Bateu uma fome…

- Opa, manda um podrão pra viagem!


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