Os curiosos banquinhos do meu prédio

Sempre morei no mesmo lugar.

Lá, eu cuspi as primeiras palavras, dei os primeiros passos, ganhei algumas cicatrizes, arrumei boas encrencas e conquistei bons amigos. Sem sombra de dúvidas, foram anos bem vividos.

Mesmo ainda morando lá, o passar dos anos foram me afastando daquele lugar. Coisas que pra mim eram importantes, hoje não passam de cenários de alguém que vai para casa apenas para dormir. Desde os porteiros, que agiam como cúmplices de tudo que aprontávamos, até os moradores chatos que sempre se comportavam como grandes vilões. Quase nada é como antes. Tudo é muito anônimo.

Infelizmente, foram poucas as coisas que se salvaram. Os dois banquinhos do térreo, por exemplo. Continuam no mesmo lugar, na mesma posição e da mesma cor.

Passo por eles todos os dias. Um fica de frente pra rua, o outro com vista pra porta de entrada do prédio, que, também dá acesso ao entra e sai nos elevadores. Enquanto um era o ponto de encontro da criançada, o outro era propriedade dos adultos. Por algum motivo, era desse jeito que as coisas funcionavam por ali.

Ontem, por ironia do destino, precisei me refugiar nos tais banquinhos enquanto ninguém chegava pra abrir a porta de casa. E por incrível que pareça, acabei optando por aquele que nunca havia sentado. Aquele com visão pra rua. Aquele dos adultos. Aquele que eu não sabia, mas que um dia serviria de assento para mim.

O intrigante é que precisei de alguns anos e uma porta fechada para ver que aquele banco não fazia mais sentido. Talvez, o problema é que só percebemos essas transformações, quando olhamos para aqueles bancos antigos vazios.