O feed é infinito, mas apequena a vida

Bruno Ramos
Jul 20, 2017 · 3 min read

A tendência é fazer teses.

Embora nunca tenha desenvolvido um nível de pensamento pra chegar fazendo teses sobre tudo o que acontece no mundo, a impressão que tenho é que quase todo o resto do mundo desenvolveu. E estão por aí no feed do meu facebook. A cada segundo uma nova tese. Uma nova verdade. Com suas estatísticas, processos históricos escritos em sete linhas, piadinhas irônicas, referências jogadas, textos acidentados, com sua autoridade e seus memes. Os memes sintetizam a realidade melhor que qualquer outro método.

Num meio desse, você também não se sente obrigado a ser um grande elaborador de teses?

Desejo muito não me deixar levar por essas coisas. Esses modos facebookanos de se perceber o mundo. A política e a narrativa como são jogadas no feed frenético. Essas coisas que imobilizam. Essa lógica de querer encucar coisas na sua cabeça, te minar, te entoxicar, esvaziar sua imaginação.

Existem outras maneiras de se perceber o mundo. A ficção é uma delas.

Quando penso em ficção, penso aqui especificamente em cinema e literatura.

Quando penso em cinema e literatura, penso num espaço amplo. Num campo enorme de sensações, inquietações, possibilidades criativas e contradições, um campo onde a vida paira ali pra você poder acessá-la de várias formas. Um espaço solitário, mas cheio de vozes que são evocadas pelo ato de ler e assistir. Uma viagem solitária de descoberta, mas povoada com a Voz do autor, com Pensamento e História.

Quando penso nas formas narrativas específicas da internet — a lógica do feed e os formatos de produção de sentido apropriados a este — , penso num espaço apertado, cheio de gente, amontoado de gente, pouco tempo pra pensar, falta de espaço pra contradizer, impossibilidade de posicionar para além de dicotomias impostas, impossibilidade de possibilidades. O lugar do desconforto, da pressa, da ansiedade, da falta de espaço. Um lugar autoritário.

Um lugar ao qual sempre volto.

Mas sem deixar de perceber a vida por meio do que a literatura e o cinema podem oferecer.

No entanto, a experiência da percepção de um filme e da leitura de um livro está cada vez mais restrita. Clubes de leitura? Cineclubes? A saudável e rica livre troca de ideias face a face? Talvez ocasionalmente, com muita organização ou indo de supetão mesmo em certos eventos. (ou pertencendo a uma aristocracia intelectual hereditária, quem sabe)

Fora o ocasional, no máximo você pode fazer um blog/vlog ou uma postagem sobre as coisas que leu ou sobre as impressões de um filme que assistiu, mas sua ânsia de estender a experiencia fílmica e literária morrem numa rápida troca de comentários e curtidas.

Você sente-se cada vez mais fadado ao lugar tóxico do feed.

É verdade que existem fórums específicos que atendem a certa demanda da expansão das experiências com as artes narrativas em questão. Talvez no reddit você possa encontrar um fórum de discussão com pessoas interessantes — inclusive encontrei um de literatura fantástica onde uma das regras é “No memes” — , mas não muitos desses são brasileiros.

Especulo que no Brasil, deixamos cada vez mais de lado a ficção. Ficção como arte. Como forma narrativa de inventar ou reinventar a realidade. Arte de tramar, metaforizar, enredar e significar fatos motivados por personagens. Arte movida por paixão, por ideias, por sonhos, que tenha algo a dizer sobre a humanidade. Arte que exige tempo, imaginação, capacidade poética, mas também rigor. Arte que exige leitura, o tipo de deslocamento que só a literatura e o cinema podem proporcionar.

Pode ser aristotélica, anti-aristotélica, modernista, pode usar das variedades de gêneros cinematográficos e literários, pode recusar as convenções de gênero. Seja como for, a ficção me parece extremamente subestimada.

Os motivos eu não sei, não faço teses. Só especulo.

Mas para além das questões do que a academia possa ter a ver com isso, para além de questões culturais, comerciais ou estratégias artísticas que tenham a ver com o problema, essa tendência de deixar de lado a ficção, deve ter algo a ver, também, com a pequenez do espaço do feed.

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