Paula e os meus sapatos

Amarro o sapato marrom de camurça já gasta. Seguro as duas ponteiras separadamente e as entrelaço. Junto a ponta esquerda até formar um balão e depois circundo com o lado direito. Paula me ensinou a amarrar os sapatos quando eu tinha 10 anos. Era por volta das três horas da tarde. O piso branco e gélido da cozinha da minha vó contrastava com as pedras quentes que preenchiam o pátio.

Paula cuidava de mim há alguns meses. Era robusta e alta. Paro com o jogo de futebol e rumo à entrada da casa, com o tênis preto com cinza sujo do contato com a terra que soltava dos vãos das pedras do pátio. Pergunto a Paula se ela poderia amarrar meu tênis para que eu pudesse retornar à disputadíssima partida. Ela se ajoelha e demostra, com movimentos cirúrgicos, como se amarrava. Em 5 passos aprendo algo que levarei para o resto de minha vida.

Durante os anos seguintes esqueci da existência de Paula. É provável que eu nunca mais a encontre. Talvez passe ao seu lado num corredor de hospital, talvez peça a mão de minha namorada no mesmo restaurante em que Paula ficou noiva. Talvez eu nunca mais chegue perto de Paula por puro descompromisso do dia a dia. Talvez nunca mais a encontre. Independente de como esses encontros ou desencontros transcorram, ela sempre estará comigo. A cada nó e laço. A cada balão e puxada. Toda vez que eu calçar o sapato e, automaticamente, efetuar a amarração, lá estará ela.

Divagar sobre como aprendi a amarrar os cadarços me fez pensar em quão errada está a definição de que nos tornamos o que somos por força própria. A construção parte do outro. Talvez eu aprendesse a amarrar meus sapatos sozinho, talvez outra Paula poderia ter me ensinado.

Entretanto, foi ela e isso a coloca para sempre no meu cerne. Eu posso ter me tornado um ser taciturno e noctívago. Eu posso ter visto o belo sucumbir e ter feito escárnio com meus inimigos.

Posso ter deitado no chão sujo de todas as impurezas e imundícies dos que me rodeiam. Trépido, eu posso ter visto meu futuro desmoronar como um castelo de areia ao ser engolido pela salgada água da onda. Posso ter sido Deus e seu filho e filho de seu filho. Posso ter sido nada. Mas se fui tudo isso, fui com meus sapatos amarrados e Paula estava comigo.

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