Pra cair na porrada, é preciso ter paixão.

“Se essa galera brigasse pelo Brasil, igual briga por futebol, esse país seria melhor.” É com essa frase que eu vou começar o meu texto de hoje, e eu tenho certeza que você já ouviu algo dentro desse contexto, pelo menos uma vez na vida.

Fim de ano já está aí gritando no nosso cangote, final de temporada do nosso futebol brazuca, e é certo que muita porrada ainda vai comer por causa de bola rolando, pelo menos até o estourar da Sidra Cereser no dia 31, porque enquanto tivermos disputa de campeonato, teremos porradaria e confusão, principalmente quando os resultados forem negativos.

Isso faz parte da nossa cultura, e a apesar do projeto de gourmetização do futebol, essa é uma característica que jamais sairá das nossas vísceras, e eu estou falando de paixão!

E não, eu não sou romantizando a violência no futebol, muito menos acho isso certo; eu, como vascaíno, jamais verei um flamenguista como inimigo, por exemplo, e muito menos irei cair na mão com ele por causa de futebol, pois eu entendo e sei que ele não é meu inimigo, é apenas um torcedor do time rival, que merece uma zoeira, uma perturbação, um famoso meme da era digital, por mais que eu ainda prefira a zoeira futebolística do meu tempo de moleque no colégio, uma época onde a galera chegava na segunda-feira com a capa do jornal esportivo pronta pra esfregar na cara do amigo perdedor, era gastação a aula toda, sem falar dos casos de título, que a camisa do time entrava no lugar do uniforme oficial do colégio; o tio da portaria até liberava a entrada, mesmo que a contragosto.

Mas não quero pagar de saudosista aqui, quero falar de paixão mesmo, uma paixão que, apesar dos pesares, ainda é muito presente no torcedor brasileiro, e em cima da frase que iniciei o texto, eu quero fazer um paralelo com o patriotismo exercido no Brasil.

É importante se perguntar: você acha que o brasileiro é um povo patriota? Eu acho que não, mas você pode e tem todo o direito de pensar diferente. Agora vou reformular a pergunta: você acha que se estourasse uma guerra no Brasil, a maioria dos homens iria para uma guerra de bom grado ou apenas por obrigação? Se a sua resposta for a última opção, você acabou de confirmar que não existe patriotismo por aqui.

Agora analise pelo prisma do futebol e veja quantas pessoas travam uma verdadeira guerra com outras pessoas justamente por causa do seu time de futebol, alguns até matam e morrem por isso, pois eles entendem que é um propósito de vida, uma defesa da honra, uma missão. E veja bem se todos esses não são os fatores que fazem uma guerra ser lutada por paixão ou até mesmo amor.

Em terra de analfabetismo funcional, é sempre importante ratificar que não estou fazendo juízo de valores do torcedor de futebol brasileiro aqui, muito menos dizendo que matar o outro por causa de um time é certo, inclusive, eu já deixei claro que acho errado, mas a questão é outra, bem outra! Como um escritor provocador, eu quero que vocês analisem a paixão, uma paixão que o Brasil nunca gerou na maioria dos brasileiros, mas o clube de futebol provoca isso cotidianamente no seu torcedor, seja na hora dos títulos, seja na hora da derrota.

Agora relembre aí a última vez que o Brasil te deu um orgulho, daqueles de bater no peito, arrepiar a pele e marejar os olhos, se é que ele já te proporcionou isso alguma vez, e eu não tô falando da seleção brasileira, tô falando do Brasil, esse mesmo que deixa político corrupto cumprindo prisão domiciliar, esse mesmo que segue com índices de desempregos alarmantes, e esse mesmo que ainda faz paciente morrer numa maca de hospital, sem contar outros inúmeros absurdos, é deste Brasil que eu estou falando!

Esse Brasil de caos, aparentemente lindo por fora e podre por dentro, não gera paixão, consequentemente, não gera patriotismo, que costuma ser a força motriz das grandes nações.

Tenho certeza que tem muito moleque crescendo sem saber cantar o hino nacional, mas o hino do time tá na ponta da língua, e isso é fruto da falta de cidadania, falta de identidade, falta de vivência de bons momentos, e o futebol dá aula nisso, é por isso que existem diversas pessoas que entram numa guerra por causa dessa paixão, pois esse é um sentimento que se constrói ao longo dos anos, com momentos bons e ruins, com pertencimento; você precisa se sentir importante para expressar sentimento por algo, e o futebol consegue causar isso por diversos aspectos, já o Brasil…

Eu dou aula de cidadania no curso pré-vestibular da Educafro, e sempre digo para os meus alunos que a verdadeira cidadania consiste em direitos e deveres, que pra cobrar, você também precisa fazer a sua parte, mas cadê o país que não faz a parte dele? E quando pensamos em quem está nas camadas menos abastadas da sociedade, tudo piora, o descaso é constante, e não dá pra regar paixão neste solo improdutivo.

Também gosto de usar o exemplo do favelado que queima ônibus quando a chapa esquenta na comunidade dele; isso é certo? Não! Mas essa é uma das poucas opções que ele tem de ser notado, foi assim que ele aprendeu, e para agir diferente, ele precisa se enxergar como cidadão, e o Brasil vive dizendo que ele sequer é um ser humano, que dirá um cidadão. E aí, como que a gente vai exigir noção de cidadania de um cara desses? Como que a gente vai pedir pra que ele não quebre tudo, sendo que o esgoto está correndo a céu aberto na porta do seu barraco, como?

É por essas e por outras que o brasileiro cai na porrada por causa de futebol mesmo, invade campo, aborda jogador no treino, pois ele quer ver raça, quer entrega, respeito pelo seu sentimento, e ele sabe que nunca poderá exigir isso de um país que segue ignorando a sua existência e a sua cidadania.

Bruno Rico.

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