Design thinking não é sobre como fazer — é sobre quem você é

O design thinking vem ganhando muita visibilidade nos últimos anos no Brasil. De workshops a aulas em MBAs, a abordagem é vista como um diferencial e usada como um chavão nas empresas brasileiras — mesmo quando não se sabe o que é.

Entre os designers, o design thinking é visto com desconfiança e desdém, principalmente pelo modo como é ensinado na academia brasileira. Ora, como pode essa metodologia ter a pretensão de descrever e engessar a criatividade, quando sabemos que os profissionais desta área contam com processos muito pessoais e flexíveis? O erro está justamente aí — o design thinking não é uma metodologia.

Como vivemos em uma sociedade cartesiana, com uma academia que evoca a ideologia da industrialização desenvolvimentista, presenciamos uma cadeia do conhecimento linear. As coisas só passam a fazer sentido quando começamos do passo um e chegamos ao passo dez, com resultados mensuráveis e certeiros. Esse tipo de pensamento segue o paradigma da inteligência lógico-matemática, supervalorizada em relação aos outros tipos de inteligência que podemos desenvolver. Para profissionais criativos, não existem passo um e passo dez. O processo de criação é orgânico, associativo e incerto. É muito difícil de prever o seu resultado, uma vez que não sabemos o que será criado, exatamente porque aquilo ainda não existe.

O design thinking vem, dessa maneira, tentar facilitar e organizar o processo criativo. Entretanto, Tim Brown alerta que não se trata de uma metodologia, mas de uma abordagem — a despeito da tradução errônea que estampa a capa do seu livro no Brasil. Mas afinal, o que ele quer dizer com abordagem? Vamos por partes. Por não ser uma metodologia, o design thinking não traz métodos. Isso mesmo. Toda aquela história das ferramentas, dos infindáveis diamantes que temos que seguir para chegar a um resultado não passam de uma tentativa de linearizar a criatividade. Claro, as ferramentas têm o seu valor, mas existe um momento certo para empregá-las. Uma abordagem quer dizer algo anterior ao uso de uma ferramenta, que diga respeito a quem utiliza aquele processo como um guia para inovar e gerar uma solução. O design thinking é, então, um modo de encarar uma situação. Muito mais que um passo-a-passo, ele evoca fatores psicológicos do indivíduo.

Vamos dar um passo para trás e pensar nas pessoas que criam. Papanek, em uma frase célebre, afirma: “todo mundo é designer”. Isso quer dizer que todos e todas nós temos a habilidade para criar e mudar o mundo a nossa volta. A criatividade, portanto, não é um dom e muito menos um processo — é uma habilidade que desenvolvemos com a prática e quebra de paradigmas individuais e sociais. Ela acontece quando exercemos nossa capacidade de ter ideias, nos arriscamos, apostamos na incerteza e na possibilidade de erro. Essas características são fundamentais em indivíduos altamente criativos.

Quando temos essas habilidades, as ferramentas que usamos passam a fazer mais sentido. De nada adianta passar uma semana com seu público alvo se você não tenta se colocar no lugar dele. Igualmente ineficaz é acreditar que o primeiro produto que você vai ter será completamente assertivo e eficiente. Cabe ao indivíduo criativo desconstruir esses paradigmas e desenvolver suas capacidades de empatia, tolerância ao erro, confiança criativa e por a mão na massa.

Entretanto, em uma cultura que teme o erro, que acredita que o mundo é dividido entre “certo” e “errado”, aquilo que é novo e diferente não encontra seu espaço. A grande dificuldade de se desenvolver processos de design thinking vem da incapacidade da cultura brasileira estimular o que é diferente, inovador e criativo. Estamos presos a uma lógica dualista e mecanicista, acreditando que o mundo é um grande manual de instruções.

Falta ao empresariado brasileiro — e às universidades — uma humanização de suas culturas. Entender que somos seres emocionais, criativos e que erramos; dar espaço a uma vivência mais humana dentro das empresas, quebrando o mito do profissionalismo, é uma aposta certeira para ambientes mais criativos. Precisamos pensar na criatividade muito mais como um tipo de inteligência que um processo a ser seguido. E como qualquer inteligência, todas e todos nós somos capazes de praticar e nos desenvolver enquanto pessoas criativas. Então pare de focar no que fazer e comece a olhar para quem você é — e o design thinking seguirá.