Você foi meu professor Girafales

Já se passaram alguns dias desde a tragédia final, o tempo tem cuidado das dores que você deixou. Me livrei das fotos salvas no meu celular, as escondi em algum lugar que, daqui um tempo, tenho certeza que esquecerei e talvez, seja o tipo de coisa que eu só encontre quando estiver procurando algo que eu realmente queira achar, então eu olhe e dê risada e mesmo que sinta saudade, será diferente. Não escuto nada triste ou melancólico, sempre ouço as músicas mais animadas na playlist. Sério, tenho escutado tanto reggaeton que estou quase fluente em espanhol.

Durmo tarde e consequentemente, acordo tarde, logo, tomo banho, me arrumo e vou para a academia. Tudo isso me deu um gás enorme para treinar, até dobrei o peso nos equipamentos. Espero que o resultado venha em breve.

Os convites para sair ou simplesmente dar uma volta no parque, ainda são um tabu. Não que eu os recuse, já fui a muitos lugares, porém é diferente agora. Parece que eu estava vivendo num universo paralelo, o mundo continuou aqui, mas eu… eu não. Na segunda-feira, eu fui ao ginásio da cidade e me sentei no mesmo lugar onde eu e meus amigos nos reuníamos para beber durante o ensino médio, é lindo como um lugar pode reunir tantas lembranças, é como se estivesse gravado lá. Engraçado como ficamos mais sensível ao mundo a nossa volta depois do final de um ciclo. Coisas tão triviais e tão significativas. Como ler, por exemplo, fazia um bom tempo que eu não lia, tinha esquecido como era tocar a página de um livro e a sensação de prazer ao se deparar com palavras que às vezes esquecemos, apesar de sempre estarem ali, esperando para serem ditas.

Tenho seguido o meu caminho, da minha maneira, como gosto de fazer. Quando qualquer sentimento negativo aparece, eu o convido para tomar uma xícara de café, deixo que fique por um determinado período e quando passa dos limites, peço gentilmente que se retire. Os sentimentos desagradáveis podem nos ensinar muito também, nos ajuda a amadurecer.

Ontem me dei conta de que esqueci o timbre da sua voz, não questionei como ou o porquê, talvez seja melhor assim. Quando percebo que você está se tornando uma lembrança distante, quase uma névoa aqui dentro, eu fico feliz e ao mesmo tempo, chateado. Uma pequena parte em mim, apesar de tudo, apesar da sua frieza e indiferença, quer correr até essa linha tênue que você tem se tornado e abraçar pra que não se vá. Em contrapartida, boa parte se contenta com o seu existir se tornando fumaça e parece em paz.

Fico feliz por isso ser mais fácil pra você, realmente fico. Culpo meu signo, tudo indica que ele é o único culpado aqui. A culpa é toda dele se eu sinto demais, se me desfaço em alguns momentos. E mesmo que a culpa seja minha, tudo bem, eu gosto de sentir, gosto de sentir o amor, gosto de sentir o coração quente com o ato de amar, gosto de sentir a tristeza e gosto de sentir o “desamar”, sou assim, uma pequena coisa no universo, movido pelos meus sentimentos e a certeza de que tudo passa. Absolutamente tudo, inclusive, você.