Diário de Bordo, Data Estelar 95401.71

Quanto de nós mesmos está plasmado naquilo que lemos, vemos, ouvimos ou comemos? Quanto de nós está no exterior ao invés do interior? Salve essas perguntas, acredito que elas pautaram o texto que segue.

Ontem tive uma das experiências mais bacanas pela qual eu de vez e nunca sou convidado a fazer: avaliar uma biblioteca. Não sei muito bem o porquê das pessoas me chamaram para fazer isso, talvez elas caiam na meia dúzia de bobagens que vivo repetindo, talvez elas caiam no engodo da minha afetada aparência de intelectualóide de botequim universitário, talvez eu realmente saiba um cadinho de um tudo, vai saber. Essa resposta, oxalá, não é minha para buscar.

Adorei ficar olhando os livros, revistas, recortes de jornal — se lembram que a gente já fez isso um dia? — velhas agendas e objetos de um ex-procurador do Estado recentemente falecido. Nunca conheci o Doutor Ulysses, nem o famoso, mas pelos livros que ele tinha guardado em casa, muitos do que ele já teve se perderam ao longo da vida, nem preciso o conhecer para saber que isso é um fato, e separar o que era lixo, literalmente, desperdício de papel, e o que teria alguma serventia para outras mãos e olhos ávidos por poeira e saber. Não sou nenhum expert em Direito, Filosofia do Direito ou Sociologia do Direito, mas ali, com certeza, havia alguns exemplares que servirão de matéria prima para algum estudante ou entusiasta pela área. Para mim ficaram alguns livros como forma de retribuição pelo favor, peguei alguns livros de História Econômica e Sociologia, meus pontos fracos em termos de formação acadêmica, além de alguns poucos exemplares de literatura.

Como historiador, sou treinado a olhar qualquer objeto por sua posição no tempo, tentar entender o tempo que o seu objeto se encontra auxilia entender o próprio objeto. O Doutor Ulysses era um senhor nonagenário, procurador do Estado, oriundo de uma família de imigrantes europeus que atingiu um alto patamar de vida, inserido no contexto da segunda metade do século 20. Tínhamos ali e aqui alguns livros que poderiam ser considerados retrógrados ou acusatórios, por exemplo havia uma bela quantidade de livros do Oliveira Vianna, alguns de autores liberais e neoliberais, algum material de crítica aos Socialismos e Comunismo. Ao mesmo tempo, tinha uma biografia do Stálin escrita por Trotsky, o famigerado História do Socialismo e das Lutas Sociais, de Max Beers, Doutor Ulysses não deve ter gostado muito desse, além de livros do Durkheim e outros autores considerados progressistas.

Não posso considerar que conheci o Doutor UIysses, mas ali havia um belo retrato de um homem de seu tempo, ávido por conhecimento e com múltiplos interesses.

Quando cheguei em casa resolvi olhar para a minha, humilde, bibliotequinha. Olhando os livros que comprei, ganhei, roubei ou que simplesmente surgiram. Será que um dia, num futuro muito distante espero eu, algum jovem “Bruno” virá à minha casa e fará o mesmo exercício e a mesma reflexão? Será que esse ser hipotético conseguirá entender, mesmo que difusamente, um pouco quem sou e fui? Essa, meus amigos, talvez seja uma das perguntas mais basais daqueles que tentam entender o homem, o tempo, e as relações entre eles.

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