Diário de Bordo, Data Estelar 94608.37

A nossa relação com o tempo é gozada, né não?

Ela envolve tanta coisa, tanto sentimento, tanto pensamento, mas o principal fator que guia a nossa relação com o tempo talvez seja a memória. Não uma memória coletiva e construída, essa até ser secundária em alguns casos, mas sim a nossa capacidade de lembrar e relembrar fatos, eventos e narrativas à nossa volta. Uma das mais marcantes características do tempo social sobre nós é como ele é capaz de transmitir e cristalizar discursos, sejam eles de qualquer natureza. Quando eu era adolescente — insira aqui aquele meme do Titanic — uma das coisas que mais ouvi, e mais detestava por sinal, eram falas de uma nostalgia decadente, o famoso “ah, no meu tempo é que era bom”.

Veja bem, nada conta a nostalgia, muito pelo contrário, se não tivesse algum tipo de respeito pelo passado eu não teria optado por estudar História, eu mesmo cultivo o passado afetivo, o que me irrita é estar com os pés no presente, porém com a cabeça no passado, ou trocando em miúdos, negar o presente. Mesmo achando que tive uma infância incrível não consigo achar que as infâncias que sucederam a minha no tempo geracional foram melhores ou piores, elas apenas foram. Em suma, se nos debruçarmos sob a história da humanidade vamos encontrar tempos que foram melhores e piores de se viverem do que o nosso por esse ou aquele aspecto e no futuro haverá alguém que dirá que era no nosso tempo que se vivia a boa e a má vida.

Outra característica que salta aos olhos quando pensamos na nossa relação com o tempo social é o fato de que que ele é vetor tremendo no que diz respeito a nossa capacidade de renovar as esperanças, o que, convenhamos, é bem ilógico e irracional.

Pegue a virada do ano como exemplo: toda santa vez é sempre a mesma coisa, dezembro chega e notamos como os corações se sentem renovados em esperança nessa época, parece mesmo aquela figura clássica do ano velho, um velho barbado, sendo um escoltado para fora pelo ano novo, um bebê imberbe nas fraldas ainda, uma renovação automática e plena simplesmente pelo farfalhar da folhinha. Okey, eu sei que calendários são apenas convenções, pululam cômputos aqui, ali e acolá, e marquinhas nesse calendário servem justamente para facilitar a construção de uma narrativa — exemplo prático disso: qual o sentido de comemorarmos nosso aniversário? Ou estamos sendo autoindulgentes e narcisistas, celebrando a nossa figura, ou estamos celebrando algo sem substância que é o nosso êxito em termos completado mais uma volta ao redor do Sol, em ambos os casos sem sentido para esse humilde escriba. Dedos eretos e inquisitoriais podem me contradizer e falar que é uma celebração à pessoa aniversariante, tá, ok, mas por que num dia fixo, re-retruco, e específico? Isso, a celebração, não poderia ser a qualquer momento? Mistério…

Pois bem, é justamente sobre renovar as esperanças que eu gostaria de tratar aqui: por mais ilógico e irracional que eu sei que é, nesse dezembro eu tive minhas esperanças levemente renovadas quando o ano velho apontou no retrovisor.

2016 foi um ano difícil em todos os aspectos, há muito material sobre esse ano para os historiadores, dos mais diversos campos, do futuro trabalharem. Tivemos o Brexit, o impeachment, as eleições de Donald Trump, João Dório e Marcelo Crivella, a tragédia da Chapecoense, mortes e mais mortes de pessoas próximas e celebridades, o horror do governo Rodrigo Duterte nas Filipinas, etc etc etc. Como eu disse, muito material a ser estudado.

Particularmente para mim, no âmbito pessoal, eu tive uma grande vitória: a alta no tratamento contra a depressão, o que me possibilitou dar passos enormes na minha vida pessoal, como estabilidade financeira, mesmo em tempos de crise, a certeza das minhas vocações, um passo definitivo e firme rumo ao fim da minha graduação, retomar antigas amizades, ser produtivo academicamente e criativo esteticamente. Obviamente que o ano não foi apenas de bons ventos, algumas pedras eu tive que pular ou contornar, durante o ano perdi algumas pessoas a quem tinha muito, mas muito carinho e admiração, além de um amigo muito próximo teve uma doença série, ele foi a primeira pessoa próxima a mim e da minha idade que risco de morte, o que traz um fantasma indesejável para próximo.

O que se conclui com toda essa exposição acima?

Bom, chego eu a conclusão que 2016 teve momentos bons, momentos ruins, de medo, de alguma tristeza, de alguma alegria, etc etc etc. Assim como também os tiveram 2015, 2002, 1997, 1984, e por ai vai. Um ano é apenas um ano, nada mais, nada menos. Um ano é o período que a Terra leva para dar uma volta completa ao redor do Sol e voltar ao seu ponto de origem, e atribuímos essa voltar, de forma convencional, que esse período dura 365 e algumas horas e minutos. Além de ordenarmos e numerar essas voltas de forma cronológica, ou seja, não há nenhum espírito maligno que renda esse ou aquele período determinado de tempo, existe a ação humana e suas consequências, além das reações a essas consequências. Não acordamos no dia 01/0/2017 com tudo mudado, esperanças renovadas, um reboot da vida, não, muito pelo contrário, nossos sentimentos ainda estavam lá, nossas ações reverberando em contínuo e coisa e tal, qualquer mudança, de qualquer natureza, depende do nosso movimento, da nossa ação na materialidade e não apenas em concatenações sem nexo no plano das ideias. A mudança nominal do ano não altera em nada na sua vida se você não agir a vida, afinal, como nos ensina Pink Floyd:

The sun is the same in a relative way

But you’re older