Ignorância vs. Preconceito: A batalha do século

Bruno Rosa
Jul 28, 2017 · 6 min read

Chegou às minhas mãos um vídeo de uma youtuber, que também se apresenta como jornalista e escritora, onde ela tenta apresentar algum tipo de detratação à Idade Média europeia e, ainda mais, fazer uma espécie de revisionismo sobre o papel dos mulçumanos no período e utilizando aqueles mulçumano como exemplo de erudição e iluminação, como guardiões do saber e do conhecimento clássico, e que se esse só chegou aos nossos dias é graças aos maometanos. Até ai, nada de novo sob o sol, afinal um dos papéis da História é buscar no passado as raízes do nosso presente, de forma crítica e rigorosa, além de sempre buscar quebrar conhecimentos já cristalizados de forma idiossincrática.

O vídeo em si não apresenta nenhum contexto sobre o debate no qual está inserido, mas em todo momento a youtuber se referia a um pseudofilósofo, o que na internet, principalmente entre aqueles não o idolatram, é quase uma senha e contrassenha para se referir ao pensador Olavo de Carvalho, conhecido por suas opiniões nada convencionais, e conservadoras, sobre o islamismo, economia, história entre outros assuntos, dê um google e coloque Olavo de Carvalho e heliocentrismo para ganhar o seu dia.

Podemos notar que a intenção dela é boa, muito boa eu diria, afinal trazer luz a qualquer tipo de discurso obscuro é sempre louvável, ainda mais quando se trata de qualquer assunto relacionado às humanidades, afinal qualquer um que saiba fazer um O com um copo pensa que pode opinar profissionalmente sobre humanidades. Vocês ficariam espantados com a quantidade diária de groselha que eu tenho que escutar quando abro a boca e digo que sou da História. Quando descobrem que sou, futuro, medievalista então, nossassinhora.

Mas, como diz o ditado popular, de boas intenções o inferno tá cheio.

Ao tentar combater a ignorância alheia, a youtuber destila todo uma cantilena já batida sobre a Idade Média, dizendo que foi uma época de guerra, ignorância e pestilência. Ora, ora, como retratar um período de mais de mil anos, e, que segundo alguns historiadores, é totalmente diferente tanto da Antiguidade Clássica quanto da Modernidade, ambos mais construções discursivas do que uma realidade latente e palpável, sobre a modernidade recomendo muito a leitura do ensaio “Jamais Fomos Modernos”, do antropólogo francês Bruno Latour, ao ponto de configurar uma civilização própria e única? Como podemos chamar de ignorante um período que nos brindou com o neoplatonismo, a patrística, a escolástica, o românico e o gótico, o renascimento carolíngio, apenas para citar apenas alguns poucos episódios que ocorreram no período.

É preciso ressaltar que essa visão de um medievo visto como Mil Anos de Trevas deve, e muito, ao Iluminismo, principalmente francês, e sua visão anticlerical e racionalista de mundo, que, distorcidamente, via no Ocidente Medieval um período onde apenas o pensamento imposto pela Igreja romana prevalecia. É estranho que esses mesmos iluministas devem à pensadores como Pedro Abelardo, Guilherme de Ockam e Francis Bacon, todos fruto do movimento universitário medieval. Tal visão deturpada da civilização medieval já foi amplamente debatida e rebatida, principalmente pelos historiadores românticos e, principalmente, pelas duas primeiras gerações da Écoles des Annales, no qual poderíamos citar como membros historiadores do quilate de George Duby, Jacques Le Goff, Pierre Nora, Marc Bloch, entre outros tantos.

O grande problema, entretanto, no vídeo não é o fato da opinião da apresentadora ser contrária a minha, isso feria os meus sentimentos republicanos e democráticos, acredito que somos livres para ter a opinião que quisermos, desde que minimamente racionalizado e entendido. Eu, por exemplo, não posso sair dando pitacos sobre química orgânica porque meu conhecimento é menos do que raso sobre o assunto.

O que se vê no vídeo é a utilização, pela apresentadora, de três livros de ficção, três bons livros de dois bons autores, Umberto Eco e Victor Hugo, por sinal como base para a sua argumentação. Ai está a chave de todo o grande problema que tive com o vídeo, a autoria se utilizar de autores não historiadores, Umberto Eco é muito lido por historiadores mas isso não faz dele um historiador profissional, e Victor Hugo é utilizado, inclusive, como fonte documental para estudar… o século 19, escrevendo ficção e ela trata isso como se fosse uma verdade absoluta, documental e final. Extrapolando muito, é como ver um filme e acreditar que aquilo tudo que se passa é verdade, o que é estranho vindo de alguém que trabalha com ficção e que, se espera, conheça o conceito de supressão da realidade, aquele que, para dar verossimilhança a uma obra ficcional, nós suprimimos nossa noção de realidade e aceitamos o que está sendo exposto e lido como crível e verdadeiro. Mesmo os livros se “baseando em fatos reais”, “O Corcunda de Notre-Dame” está longe, mas muito longe de ter qualquer traço de realismo em si, eles são ficcionais em sua natureza, contendo recortes, pontos de vista, imaginação e uma narração que os amara como uma obra coesa em si mesmos. A realidade histórica serve apenas como um pano de fundo, um conhecimento prévio, a mesa onde o jantar é servido, para o desenrolar da trama. Lembrando que a literatura, mesmo aquela produzida por autores que visam fazer uma reconstrução histórica do passado dialoga muito mais com tempo presente de sua criação do que com o passado remoto, melhor exemplo do que citar o revival do romance de cavalaria que o 19 assistiu se faz desnecessário.

À youtuber faltou um pouco de rigor teórico e pesquisa sobre o tema, afinal bastava ela ter lido alguns poucos escritos para perceber que a visão plasmada nos livros citados, nenhum deles, aliás, tem como gênero o romance histórico, nem “O Nome da Rosa” é um romance histórico, e sim um romance policial que se passa na Idade Média, está carregada de uma visão idealizada do medievo. Dessa forma, ela está combatendo ignorância com ignorância, o que não faz muito sentido, não mesmo. Não que a história acadêmica é o suprassumo das benesses, mas ninguém ao falar de engenharia se utiliza de “Os Pilares da Terra” como base argumentativa, ou quando se trata de anatomia, utiliza “Frankenstein”.

Essa ânsia de mostrar a Civilização do Ocidente Medieval como um horror, o ponto mais baixo que a história branca, ocidental e cristã já é bem manjada e ultrapassada, é uma ferramenta que é recorrente e usado sempre de tempos em tempos para demonstrar que, por mais barbáricos sejam os tempos, o passado remoto sempre foi mais violento ou pestilento. Afinal um dos usos mais vulgares da História e da ciência histórica é ratificar o presente, seja para os aspectos positivos quanto para os negativos.

Para quem quiser ver o vídeo a qual me refiro, segue abaixo o link:

PS.: O vídeo foi retirado pela youtuber depois que eu postei esse vídeo, infelizmente.

Bruno Rosa

Written by

Professor e historiador por profissão e vocação, escritor e fotógrafo por amor, palmeirense sofredor, além de humanista ateu convicto e ecossocialista.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade