Como você poderia ser o Batman e nem sabia — uma história sobre crenças e expectativas

Hoje, numa conversa durante o almoço, me lembrei de um podcast que ouvi recentemente chamado How to become Batman, do Invisibilia. Embora tenha ouvido ele já há uns 3 meses e não lembre de todos os detalhes, sua mensagem principal continua até hoje bem forte em mim e por isso decidi compartilhá-la aqui.

"Daniel Kish is completely blind. He is usually called the Bat Man. Because he is the man who clicks like a bat. His remarkable, bat-like abilities."

Assim foi apresentado o principal entrevistado do programa, Daniel Kish.

Ele é completamente cego e aprendeu a ver (isso mesmo, um cego que aprendeu a ver) através de ecolocalização. Isso significa que ele aprendeu a enxergar basicamente da mesma forma que os morcegos fazem: emitindo sinais sonoros para, através do eco, mapear o ambiente em que se encontram. No caso dele, sua "visão" se dá através de pequenos estalos contínuos que faz com a boca.

Conhecido como Batman da vida real, essa habilidade permite a Daniel Kish não só viver uma vida normal, mas também explorar cidades desconhecidas sozinho, andar a cavalo, escalar e até andar de bicicleta. É incrível e vale realmente ouvir o podcast para saber mais sobre essa história.

Daniel Kish apresentado-se no TED: "Como uso o sonar para navegar pelo mundo"

Embora totalmente impressionante, há algo que me chamou ainda mais a atenção no podcast.

˜I definitely think that most blind people could move around with fluidity and confidence if that were the expectation"

Daniel trabalha ensinando sua habilidade a crianças cegas e, para ele, a principal dificuldade que seus alunos encontram no processo de aprendizado está em um elemento anterior ao ensino da técnica: a descrença que eles podem realmente aprender algo assim.

Dentre alguns fatores comentados no podcast, isso é explicado pelo fato de que crianças cegas são, muitas vezes, criadas em ambientes que naturalmente as tratam como diferentes. Até mesmo seus pais têm parcela importante nesse processo, pois costumam superproteger seus filhos, considerando que os mesmos não teriam condições de viver uma vida considerada normal.

Para Daniel, quando as crianças começam a acreditar que podem, porém, tudo muda: tornam-se realmente capazes de ter autonomia. Dessa forma, para ele, a maioria das pessoas cegas poderia se locomover com fluidez e confiança se essa fosse a expectativa da sociedade sobre elas.

"Daniel Kish make the argument that if we all just changed our expectations, the blind could come to see."

Aqui está, então, o X da questão: se as expectativas dos outros e suas crenças têm tanto poder sobre o que você é capaz ou não de fazer, o que você poderia estar fazendo se não pensasse que não pode? Em outras palavras, como você pode descobrir o seu real potencial?

Não quero trazer aqui o clichê do "se você realmente acreditar e/ou pensar positivo, você vai conseguir”. O mundo é muito complexo pra algo simplista assim: há coisas que realmente não vamos conseguir, não importa o quanto acreditemos.

O ponto é, na verdade, o contrário: o quanto deixamos de realizar coisas que sim, poderíamos conseguir, pelo simples fato de não acreditarmos que elas seriam possíveis?

Agora sim, provavelmente, a resposta é: deixamos de realizar muita coisa!

É muito difícil passar a viver sem essas crenças limitadoras. Eu, você, a torcida do Flamengo… todos nós estamos cheios delas. É natural. Mas não é porque é natural que não podemos, pelo menos, tentar diminuí-las, certo?

Posso não me tornar um Batman da vida real, como o Daniel, mas se eu me tornar alguém minimamente mais próximo do potencial humano que posso ter, pra mim, já vai ter valido a pena o exercício.