A angústia do progressismo, ou, Como é ruim ser de esquerda no Brasil atual

Querer o bem comum faz mal. De cara, pra alguém que vai dizer que há uma angústia no progressismo, é necessário definir duas coisas: o que é progressismo e o que é essa angústia que ele tem. Sejamos sensatos: o que mais há no Brasil e, particularmente, na internet, são vozes completamente ignorantes de ideias fundamentais da política. Progressismo, certamente, é uma delas.

O progresso é uma ideia que colou na história lá pelo século XVIII e, particularmente, XIX. Ela tem uma longa história de associação ao avanço social: às vezes ligado a uma forma de governo, às vezes a uma forma de tecnologia, entre outras coisas. A essa altura do campeonato o progressismo tomou uma forma relativamente reduzida e simples: é o avanço social em direção a uma sociedade mais justa e mais igualitária. Então, obviamente, o progressismo é antônimo de qualquer coisa que represente as ideias de permanência ou de retorno: tipo os tais conservadorismo e o reacionarismo. [Existe diferença entre esses dois últimos? Existe. O conservador, como diz, quer conservar, deixar como está. O reacionário é o “extremo” do conservador, quer tanto que não haja progresso que deseja o retorno de coisas antigas. O português é claro.]

“Mas cacete, cara, como que pode haver uma angústia numa ideia que só quer coisa boa?” Pois é, né? Bom, basta perceber que se você concorda com essa pergunta retórica, você acha que uma sociedade mais justa e igualitária é coisa boa. Mas, diferente de você e de mim, há quem não ache. A angústia é um sentimento agudo de tristeza, aquele famoso “aperto no peito”. É algo que te deixa muito na bad. O progressismo ficou angustiante (ou talvez sempre tenha sido) porque, cada vez mais, seus antônimos crescem.

Uma coisa fundamental para o progressismo é ser guiado pelo horizonte. O horizonte sempre está a frente: geograficamente, é um ponto distante ao qual efetivamente nunca se chega; temporalmente, é um momento futuro que nunca se conclui. O progressista, de certa forma, é sempre um camarada utópico. Ele precisa daquele sonho, daquela expectativa pra seguir adiante. É ela que o impulsiona. Assim, fica fácil entender porque é tão ruim lidar com um conservador ou reacionário: se você pauta sua curta estada nesse mundo por um futuro melhor, imagina a frustração de ouvir uma pessoa que deseja o retorno de instituições, costumes, formas de governo, etc. do passado?

Vamos colocar as cartas na mesa: as classes sociais estão cada vez mais desiguais, a política pública revelou laços inacreditavelmente promíscuos com o lucro privado, a violência urbana chegou a níveis alarmantes porque a fronteira entre o legal e ilegal se apagou para os próprios agentes de segurança. E mesmo com a multiplicação das expressões de gênero e sexualidade, com a ascensão incrível do feminismo no país, nada tem sido suficiente pra lidarmos com esse prato cheio de realidade que nos é servido diariamente. Por quê?

Não tem sido suficiente porque o progressismo tem numa coisa positiva sua maior fraqueza. O progressismo é plural. O intuito é um só: chegar a uma sociedade mais justa e igualitária. Mas os meios de chegar a essa sociedade são muitos. Reconhecemos todas as expressões de gênero ou será que abolimos a ideia de gênero de uma vez por todas? Precisamos passar por eleger melhor nossos representantes ou devemos abolir o Estado? E pra abolir o Estado, tem que passar por governos proletários ou acabar de vez com o sistema de representação da democracia burguesa? Marx e Engels ou Bakunin? Foucault ou Chomsky? Dworkin ou Butler? Os meios de retornar à opressão de velhos costumes; de extirpar atuais direitos; de subjugar indivíduos hoje (minimamente) emancipados de problemas sociais que antes os afetavam; esses meios são mais escassos e, por isso, mais fáceis de realizar. Construir é difícil, mas destruir é extremamente simples.

De certa forma, a bandeira do progressismo é a bandeira dos direitos humanos. Sob ela, luta-se pela igualdade de todas as pessoas perante a lei, que elas tenham direitos fundamentais independentemente de seu gênero, raça, classe social, idade, religião, e qualquer outro fator de diferença. Mas na profusão de meios de lutar pelos direitos humanos, abrem-se as brechas pra que o conservadorismo e reacionarismo coloquem seus pés no peito das pessoas. Independentemente da sua opção teórica no feminismo, se você se identifica como um dos gêneros tradicionais ou se se considera não-binário, se você é branco, negro, índio ou pardo; independentemente de qualquer um desses fatores de diferença, se você é progressista com certeza você acha absurdo que mais uma mulher tenha sido estuprada, ou que mais uma pessoa tenha sido assassinada pela sua expressão de gênero, ou que mais uma pessoa negra tenha sido presa injustamente. A única coisa que une os progressistas, hoje, é sentir a mesma dor do pé do conservador/reacionário apertando o peito. Essa é a angústia do progressismo.

O progressista se sente mal com essas coisas. Física e mentalmente, até. É deprimente ver uma sociedade que naturaliza a violência. É causa de pânico pra uma mulher ter que passar numa esquina cheia de homens à noite. É o cúmulo da indignação pra um homem ser revistado só porque ele é negro. É o fundo do poço pra uma pessoa homossexual ser rejeitada pela própria família. Tudo isso fere a dignidade básica de qualquer pessoa. Todo progressista se ofende (ou deveria) com isso. Mas ao reacionário, o que é mais um preto sem dignidade quando trabalho escravo não é nada demais? Ao conservador, o que é mais uma mulher sendo violentada à noite, já que mulher tem que ser “bela, recatada e do lar”?

Ora vejam vocês: eu nem falei de capitalismo aqui. Quem me conhece, sabe que não sou grande fã. Mas não falei por quê? Ora vejam vocês, o progressismo social não é exclusividade da esquerda política. Chocados? Caso não conheçam o senhor Justin Trudeau, do Partido Liberal e primeiro-ministro do Canadá, é só olhar os links. Trudeau ficou famoso há pouco tempo pelas atitudes humanitárias com relação à igualdade de gênero e à recepção de refugiados. Mesmo assim, a agenda econômica do governo Trudeau é liberal. A diferença fundamental é que, no Brasil, entre os poucos liberais que temos não há progressistas. Absolutamente nenhum liberal (ou neoliberal, como preferir) brasileiro tem agenda social progressista. E isso faz o buraco ficar mais embaixo para os progressistas de esquerda (socialistas e comunistas, principalmente).

Essa situação fez com que os direitos humanos tenham virado “coisa de esquerdista”. No Rio de Janeiro, Marcelo Freixo já cansou de explicar que a defesa dos direitos humanos é defender a vida: do infrator, do policial, dos inocentes, de qualquer pessoa. É defender uma concepção de instituições, de leis, de segurança pública, de prisões, de uma sociedade mais humanizada, mais justa. O conservador e o reacionário já não gostam do progressismo. Quando a maior parte dos conservadores e reacionários estão na direita política, e na inexistência de progressistas na direita, o mal-estar do progressismo sobra todo pra um lado do espectro político.

Desse ponto de vista, pelo andar histórico da carruagem, o progressismo no Brasil foi tomado pela hegemonia da esquerda política. Há quem diga que essa binarização é bobagem, que atrapalha os brasileiros a enfrentarem os desafios da política e da economia. Mas, o que fazer se a história nos deixou onde estamos? Não há culpa entre os progressistas de esquerda se não há progressistas de direita para haver campo comum no debate político e econômico. Os desafios da política e da economia só se tornaram disputa binária entre esquerda e direita porque, de forma simétrica, os conservadores e reacionários dominaram a direita política.

No fim das contas, há saída? Boa pergunta. As utopias se multiplicaram, os progressistas aumentaram. No Brasil, o progressismo é hegemonicamente de esquerda. Sem campo comum, nos vemos obrigados a olhar pra direita e ver apenas os pés daqueles que querem nos esmagar. Enquanto seguir assim, lutamos pelo futuro, mas com angústia no peito. É ruim e faz mal, mas continuamos querendo o bem comum.