Vida privada e vida acadêmica: entre responsabilidades e vontade de mudança

No último domingo, 15, conversava com meu sogro a respeito da universidade. Ele frequentou por algum tempo no início da vida adulta, mas as circunstâncias da vida o levaram para fora da instituição. Já eu, estou cá terminando meu mestrado. Falamos principalmente como a universidade é um espaço de abertura, sobretudo da cabeça. Longe de ser anatomicamente, é claro.

Em determinado momento, disse a ele que um dos poucos orgulhos dos quais não me privo é o de ser inteligente e estudioso. Falo por reflexão sobre minhas próprias ações e trajetória de vida, assim como pelas impressões que as pessoas geralmente têm de mim. Isso tudo me deixou com um pouco de vontade de passar adiante e tentar responder uma coisa que sempre me dizem, às vezes como comentário elogioso ou como pergunta: o fato de eu conciliar minha vida privada e minha vida acadêmica.

Senta que lá vem uma breve autobiografia. Em março de 2012, mudei para o Rio de Janeiro, vindo de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Morava com meu pai, com quem decidi ficar desde os 14 anos, após uma rebeldia contra minha mãe (adolescentes, né?). Mudamos para o Rio por duas razões principais: no ano anterior, eu tinha conseguido entrar no curso de licenciatura da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Mudando para a zona norte (Vila da Penha, à época) ficaria mais fácil me deslocar até a universidade. E, por outro lado, era uma reaproximação do meu pai com a família dele (que sempre morou na capital, enquanto ele construiu a vida em Duque de Caxias como professor da rede municipal e casando-se com minha mãe).

Entre 2012 e os meses finais de 2013 vivi uma vida bastante normal do recém-adulto que entra na universidade: morava às custas do meu pai, tinha dinheiro para passagem, xerox e lazer de vez em quando; consegui uma bolsa, comecei a construir uma biblioteca pessoal, etc. As coisas mudaram quando, se não me falha a memória, em 13 de dezembro de 2013 meu pai sofreu um derrame. Nessa época, por sorte (como em muitos outros momentos, vocês verão), estava de férias na universidade. Assim, pude me manter relativamente tranquilo no que concernia às minhas responsabilidades de ambos os lados da vida, privado e acadêmico.

Meu pai ficou internado por volta de um mês no Hospital Getúlio Vargas. Ele tinha seus 54 para 55 anos, algo em torno de 150 quilos e um histórico de doenças psiquiátricas que o atormentaram desde minha infância, quando da morte da minha avó (salvo engano meu, em 1996). O lado direito do meu pai ficou completamente comprometido em função do derrame. Imaginem, então, o estado mental de alguém nessas circunstâncias. Eu o visitava diariamente, tentava conversar: me fazer entender e entendê-lo. Diversas vezes uma frustração só.

Esse período de internação dele forçou uma nova realidade para mim: viver sozinho. Apesar da pouca distância que me separava de parentes (a travessia da rua), não podia depender de um tio e uma tia sexagenários. Precisei aprender a me virar dentro de casa: cozinhar e fazer faxina, principalmente. Faxina sabia fazer, mas sempre fiz a contragosto porque me senti intitulado à moleza: meu pai fica o dia todo em casa, ele que faça (mesmo com os 150 quilos e as 3 hérnias de disco)! Cozinhar, por outro lado, sempre fui convidado a aprender: algumas coisas prestei atenção, outras nem tanto. Mas, a cozinha vira um bicho de sete cabeças quando é você sozinho contra ela.

Depois de algum tempo, meu pai teve alta do hospital e abriram-se as portas de um novo drama: acolhê-lo fora do hospital. Nossa casa era um velho apartamento de primeiro andar numa antiga casa duplex. Apenas um lance de escadas, muito do ingrato. A retirada do meu pai pelos bombeiros no dia da internação foi uma guerra contra os degraus: foram necessárias 3 equipes de bombeiros para retirá-lo. Portanto, era impossível retornar. A solução foi acolhê-lho na casa dos meus tios.

Com essa nova situação, outro baque. Meu pai completamente incapacitado, em cima de uma cama. Por força das circunstâncias (familiares, financeiras) tive que assumir, em diversas ocasiões, o papel de enfermeiro. Isso incluía alimentá-lo, barbeá-lo, escovar os dentes, trocar fraldas, dar banho. E isso tudo em cima de uma cama hospitalar. Lembro que cheguei a acordar três ou quatro vezes por noite para atendê-lo. Nessa época, terminei de ler ao menos três ou quatro livros, incluindo acadêmicos e A sociedade do anel.

Passadas essas dificuldades, conseguimos interná-lo numa casa de repouso para idosos, em que ele teria os devidos cuidados. Eu poderia retornar à universidade e visitá-lo sempre que possível, torcendo pela recuperação. Infelizmente não foi o caso. Na segunda-feira de Carnaval, meu pai faleceu em função de uma pneumonia. Quem o descobriu morto fui eu. Me ligaram da casa de repouso, dizendo que ele precisava ser levado ao hospital por estar com muita febre. A instituição já havia pedido uma ambulância do plano de saúde dele e eu fui para lá. Quando cheguei, antes da ambulância, era tarde. As enfermeiras, ao me perceberem sair transtornado, tentaram acudir e ressuscitá-lo, sem sucesso. Depois do baque, tive que ajudá-las a transportar o corpo do meu pai: colocá-la numa cadeira de rodas, tirá-lo do prédio e colocá-lo num quarto exterior em que ficam os eventuais falecidos do local. Já com a presença de um dos meus tios, acertamos detalhes de enterro e colocamos o corpo no caixão.

Por que contar tudo isso? Porque a vida não é mole e mesmo quem parece ter a vida resolvida já passou pelas piores coisas do mundo. E há mais. No de 2014 que se seguiu, passei cerca de 6 meses vivendo da ajuda financeira da minha mãe e outros parentes, fazendo durar os últimos 6 mil reais de salário do meu pai — de abril a outubro, quando consegui um estágio remunerado. Desse momento em diante, começou uma fase nova na vida. Independência forçada.

A essa altura do campeonato eu sabia cozinhar mais ou menos e dar conta das tarefas de casa. As piores coisas passaram. Ao fim do ano, minha mãe anunciou que havia comprado uma casa, onde moro hoje (minha mãe segue morando na casa do companheiro dela). Ao longo de 2015 li muitos livros, saí, me diverti, namorei por uns 9 meses, assisti a centenas ou milhares de episódios de seriados. E, além de tudo isso, concluí a graduação e fui aprovado no processo seletivo de ingresso no mestrado. Daí a bendita pergunta: “como você consegue fazer tudo isso?”

Pois bem. Lembra das tais noites mal dormidas, quando meu pai estava em casa? Mesmo àquela época não deixei de ler ou estudar. Admito, não guardei quase nada dos livros acadêmicos que li. Inclusive, cometi a loucura de ler Indivíduo e cosmos na filosofia do Renascimento, de Ernst Cassirer, em inglês! Mesmo em português custei a entendê-lo (aliás, cabe relê-lo ainda hoje). “Porra, tá me dizendo que todo mundo tem que ser doido igual a você e ler com um pai ou mãe adoentado?” Óbvio que não.

Meu ponto é que naquela época, eu tinha como resolução que cumprir minha licenciatura em História era o que eu devia fazer para abrir as possibilidades do mundo para mim. Inclusive a possibilidade de, no futuro, poder cuidar melhor do meu pai e de mim. Coisa que com relação ao meu pai, não deu tempo. Desde aquela época até hoje — e a experiência dentro do mestrado foi fundamental quanto a isso — passei por uma profunda ressignificação da minha relação com os estudos. Passei a estudar melhor e a compreender melhor o que significa estudar.

Longe de dizer que me filio a qualquer concepção freireana (passei a graduação toda e até hoje sem ler uma linha sequer de Paulo Freire, caso queiram saber), o conhecimento que obtenho através da vida acadêmica é um meio de libertação. Todas as vezes que estudo e compreendo algo, me sinto livre para entender e escolher entre todas as possibilidades que o mundo dispõe à minha frente. E, não apenas isso, o conhecimento me dá capacidade de me relacionar com o mundo e com as pessoas e, principalmente, comigo mesmo.

As pessoas me indagavam demais sobre como eu conseguia dar conta de tudo à minha época de graduação e, mesmo hoje, no mestrado, continua. Às vezes as pessoas até esquecem que eu não sou uma máquina de pesquisa histórica (quem dera!) e que sou um cara muito do preguiçoso, até (confere lá no Twitter, pesquisa “preguiça” e “@brunossgodinho”). O que posso dizer é que conseguir isso tudo não é resultado de uma vida privilegiada ou favorecimento institucional algum. Da forma como vejo, ou como me vejo, isso tudo é resultado de uma mudança radical (que continua sendo efetuada, a todo momento) na minha concepção do conhecimento e o que ele diz a respeito das minhas responsabilidades e da minha vontade de mudança.

Como ainda frequento o grupo de Facebook do meu curso de graduação, consigo ver que isso não se dá com muitas pessoas. Talvez com a maioria. Não se trata de apontar dedos, mas sempre há pedidos de provas anteriores, perguntas sobre datas de avaliações, coisas do tipo que sempre fazem surgir a seguinte pergunta: “mas esse povo não vai à aula, não?”. É claro que muita gente, de fato, pode não ir à aula por diversos motivos. Matei muita aula, dormi em várias outras. Não julgo quem tem seus motivos.

O que me incomoda um tanto é que as pessoas tendem a me tratar como se eu fosse alguém extremamente diferente delas no que diz respeito à vida acadêmica. E não é o caso. A diferença, a única na minha visão, é que eu aprendi a ver a universidade com um propósito simples e prático: é um espaço de aprendizado, do qual preciso aproveitar o máximo, no menor tempo possível. A universidade e o mundo acadêmicos podem ser (e quase sempre são) extremamente enfadonhos. Cabe a cada de um nós compreender as dinâmicas desses espaços e nos movimentarmos ou movimentá-las a nosso favor.

Todo mundo tem seus problemas. Precisa faltar às aulas ou fica desanimado da universidade por milhões de razões. Mas, do que adianta o desânimo e frequentá-la ao mesmo tempo? Sem vontade alguma de tirar o máximo das experiências que ela te proporciona e tentar, em troca, proporcionar novas experiências às pessoas que virão depois de você na mesma graduação? Do que adianta ler o texto da prova de História Medieval I ou História do Brasil IV apenas com o intuito de colocá-lo em um arranjo de historiografias concordantes ou discordantes numa avaliação? As 20 páginas de um texto de uma aula de uma quinta-feira nublada podem ser as 20 páginas de um grande livro, que mudaria sua concepção sobre a história de um período inteiro.

Falando como professor e historiador (se eu posso me dar esse título de ofício), às vezes acho que falta às pessoas o baque da historicidade que todo grande historiador adquire. Não se trata de erudição. Se trata de entender seu lugar no mundo e o que você pode fazer a partir dele. E isso tem pouco a ver com a opção profissional: não precisa ser professor adjunto numa cadeira universitária. Você pode ser um típico professor de colégio ou curso pré-vestibular, mas investido dessa consciência radical de que o conhecimento te liberta e dá possibilidade de libertar outras pessoas.

O conhecimento não é um fim em si. É um instrumento. Alinhar suas responsabilidade diárias, semanais, mensais, anuais, pessoais ou familiares, com sua vontade de mudança (seja individual, seja do mundo) é uma relação que vai apenas se beneficiar com essa mudança radical de entender que estudar, ter conhecimento, não é questão de erudição nem de soberba; mas, na verdade, de ter liberdade e poder dar liberdade aos outros. Compreendendo que o que a vida te proporciona, de bom ou ruim, faz parte das responsabilidades das quais você conseguirá dar cabo através da sua liberdade exercida com auxílio do conhecimento é a chave dessa história toda.

Não se trata de cursar uma graduação ou um mestrado para ser subserviente aos ditames que a vida acadêmica impõe. Pelo contrário, faz parte justamente do caminho para acabar com essa subserviência. É ter consciência de como o mundo funciona e explicá-los àqueles que virão depois de você. Formar a si próprio e auxiliar na formação alheia. Porque as suas responsabilidades serão as de outra pessoa. Da mesma forma que meu pai, pedagogo formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, tentou me ensinar a viver, eu busco hoje (refletindo sobre os meus erros em não ter aproveitado os ensinamentos dele, em não ter cuidado dele de modo a evitar as circunstâncias que hoje me colocaram onde estou) através da liberdade que o conhecimento proporciona me tornar um ser humano suficientemente autônomo e capaz de ajudar outras pessoas a chegarem a essa mesma liberdade: seja como professor, seja como amigo, seja futuramente como pai.

A vida acadêmica e a vida privada, portanto, não são coisas distintas. Elas são uma única vida: a sua. Acorde amanhã e olhe seus textos, seus livros, sua monografia, dissertação ou tese com desejo, com vontade de mudança. O conhecimento é a ponte que as une e que faz com que ela vá adiante, rumo à liberdade.

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