Fortunato era um apresentador muito engraçado

Fortunato, aquele apresentador de TV marcante do filme ‘Tropa de Elite 2’, é um personagem de fácil identificação pelo brasileiro que tem o hábito de acompanhar o noticiário local, em qualquer lugar do País. Fortunato fazia dancinha, piadas, zombava de grupos que defendiam os Direitos Humanos e instigava o Poder Público contra a “bandidagem”.
Fortunato anunciava o caos. Dizia que o Rio de Janeiro estava tomado pela criminalidade, elucidando o discurso de que os ‘cidadãos de bem’ estavam presos em suas casas, com medo, enquanto os bandidos estavam à solta. Fortunato exibia os crimes em seu programa e chocava sua audiência.
Fortunato não media as palavras para manifestar sua ânsia por sangue. No caso, o sangue dos ditos criminosos, custe o que custar. “Porrada neles!” era o bordão que servia como apito de cachorro para o Estado encontrar seu álibi.
Fortunato era deputado, estava no poder, conhecia as entranhas do sistema e era aplaudido em reduto de milicianos. Fortunato achava aquilo normal, porque aquilo fazia bem ao grupo dele.
Na TV, Fortunato não tinha preocupação com métodos de apuração, fontes seguras e levantamento de versões para tentar elucidar crimes. Para Fortunato, se a Polícia matou, o dever foi cumprido. Cancelar a existência alheia tem salvo-conduto se ela estava em zona periférica dita perigosa, e ponto final.
Fortunato conquistava a simpatia de milhões de pessoas com o seu jeito descontraído. Era sucesso de audiência. Casos que poderiam ser melhor apurados e retratados jornalisticamente para a população se transformavam no humor que todos queriam, para manipular a opinião pública do jeito que as entranhas do sistema quer(ia).
Na ficção, Fortunato acaba se dando mal. Mas alguma coisa do filme tinha que valer pra que a gente mantenha os pés no chão e estabeleça algum elo com a realidade:
O sistema é foda.
