Crítica | A Esposa

Longa que rendeu o Globo de Ouro a Glenn Close mostra as dificuldades das mulheres no mercado editorial.


O mercado editorial, assim como inúmeros outros, é um ambiente machista e preconceituoso. Publicações de jovens mulheres têm chances bem menores de chegarem às prateleiras quando comparadas a livros escritos por homens. E mesmo quando chegam, possuem uma divulgação aquém do que merecem.

Historicamente, o patriarcado sempre se fez presente neste meio. Mary Shelley não pode assinar a primeira versão de Frankenstein. As irmãs Brontë lutaram para desmentir boatos de que suas obras haviam sido escritas por um homem. Maria Firmina dos Reis, mulher negra e maranhense, mal é citada nas escolas como a primeira romancista brasileira. O pioneirismo é todo atribuído a José de Alencar, que lançou suas obras após a dela. Mais recentemente, a britânica Joanne passou a assinar como J.K. Rowling para ser publicada. Ela temia que garotos não lessem seus livros por serem escritos por uma mulher.

Parece (e realmente é) contraditório que o mercado livreiro tenha esse comportamento, visto que a literatura é uma experiência empática por excelência. Contudo, os exemplos citados acima são tão frequentes na vida real que ganham destaque na ficção, como no filme A Esposa. Adaptado a partir da obra de Meg Wolitzer e dirigido por Björn Runge, o longa é focado na relação do escritor Joe Castleman (Jonathan Pryce) e sua mulher, Joan Castleman (Glenn Close). Logo no início vemos Joe receber a notícia de que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Ao acompanhar o marido na viagem de premiação, Joan questiona uma série de decisões que tomou e que levaram os dois até aquele momento.

Com um roteiro eficiente, o filme se utiliza de flashbacks para mostrar a vida pregressa do casal. Por eles vemos que Joan era uma jovem escritora de talento anunciado, mas que acabou não seguindo carreira por dificuldades do mercado. Essas constantes visitas ao passado concedem bom ritmo à produção e são essenciais para a compreensão da trama como um todo. A alternância de cenas antigas e atuais constrói uma certa tensão e conduz o espectador para a revelação final que, mesmo esperada, não deixa de surpreender.

O texto também estabelece os personagens e suas motivações de forma competente. Logo no começo vemos que Joan é atenciosa e submissa aos desejos do marido. Ela cuida de Joe e se acostumou a ficar nos bastidores enquanto ele colhe os frutos de seu trabalho. À medida em que a trama avança, os ressentimentos afloram e ela pede que o cônjuge não a agradeça em seu discurso de aceitação do prêmio. Ela não quer ser retratada mais uma vez como a esposa sofredora que abdicou das próprias vontades para agradar o homem que tem a seu lado.

Tal reação é um contraste direto com a Joan do passado, completamente devotada e dependente do amor do marido. Ao longo dos anos a vida endureceu o coração desta mulher e a tornou amargurada. Essa transição emocional é bem interpretada pela dupla de atrizes Annie Starke e Glenn Close. Ambas realizam escolhas assertivas e demonstram a profundidade de sentimentos que perpassam a mente da protagonista ao longo do tempo.

Em paralelo temos Joe que, por trás de uma fachada amorosa, se mostra um homem controlador e hipócrita, que anseia por regular o comportamento da mulher. Suas recorrentes infidelidades são revoltantes, principalmente por ele sempre incluir os mesmos truques sedutores baratos.

Em comparação, as duas figuras se mostram faces opostas de uma mesma moeda. Apesar dos nomes muito parecidos suas atitudes perante a vida não poderiam ser mais diferentes, assim como os valores que orientam suas ações. Para demonstrar essa oposição disfarçada de proximidade, a direção de arte trabalha na base dos contrastes. Quando recebem boas noticias, geralmente pelo telefone, os dois nunca estão juntos. O casal se separa fisicamente e, com isso, os enquadramentos destacam suas emoções contraditórias.

Completando a lista de personagens interessantes temos o filho, David Castleman (Max Irons), um escritor em formação. O jovem é profundamente desapontado com a postura pomposa de Joe, mas ao mesmo tempo, possui uma necessidade de aprovação paterna com relação ao trabalho que desenvolve. O rascunho de sua história é um retrato fiel da relação entre seus pais, mas Joe não o leva a sério. A idolatria às avessas de David só muda após uma conversa com Nathaniel Bone (Christian Slater), o biógrafo que deseja escrever as memórias do laureado pelo Nobel, e que funciona aqui como uma porta para o passado.

A elegância do roteiro e dos personagens se estende também aos temas abordados no título. Quando em tela, A Esposa dá uma sacudidela no público e trabalha verdades por trás do mito criado de que atrás de um homem bem-sucedido existe sempre uma mulher. Na realidade, o sucesso de Joe só existe por Joan. Ela sim é a protagonista e dona de uma voz que merece ser ouvida. O longa apresenta ainda, em tom de denúncia, as situações que mulheres enfrentam no mercado editorial e os cortes criativos a que são submetidas para terem suas histórias ao menos avaliadas. Enquanto isso, os homens mostram sua hipocrisia mais comum: se pavoneam para os amigos como donos do lar mas não são capazes de lembrar o horário de tomar os próprios remédios.

Em última análise, a película em questão agrada não só pelas questões que levanta ou pelo ritmo cadenciado que embala a trama. Mais que isso, A Esposa nos faz refletir sobre o real papel da mulher, seu verdadeiro lugar no mundo e as humilhações que elas enfrentam todos os dias. É um daqueles filmes que deixam o espectador pensativo após a sessão e que relembra a necessidade urgente da equidade de gêneros.

Crítica publicada originalmente no site Cinemascope.