Crítica | It: Capítulo Dois

27 anos depois Pennywise volta para assombrar o Clube dos Perdedores

Bruno Tavares

Em 2017 IT: A Coisa foi um dos primeiros filmes que assisti como crítico. Lembro de ter me preparado, vendo os dois filmes pra TV lançados na década de 1990 e pesquisado sobre a vida e obra de Stephen King. À caminho da cabine de imprensa eu refletia sobre os elementos que deveriam ser atualizados na refilmagem, como o arco narrativo de Bev e o visual do próprio Pennywise.

Dois anos e muitos filmes depois estou aqui para falar sobre It: Capítulo Dois. Enquanto me dirigia à cabine fiz o mesmo exercício de antes e me perguntei o que gostaria de ver naquele filme. Sabendo previamente o desfecho da história, meu desejo era que o longa mantivesse o carisma do Clube dos Perdedores e justificasse melhor algumas decisões narrativas. Pois bem, assim como em 2017 tive minhas expectativas atendidas.

O novo capítulo, também dirigido por Andy Muschietti, começa com a cena icônica do Clube dos Perdedores mirim fazendo o pacto de sangue. Após ter derrotado Pennywise, os sete prometeram voltar a Derry, caso o palhaço endiabrado um dia retornasse. Pois bem, 27 anos depois a cidade continua um antro de maldade e preconceito, ambiente ideal para o retorno da Coisa.

Aos poucos, vamos descobrindo como estão cada um dos sete personagens, agora adultos. Bill (James McAvoy) se tornou escritor e, usando de metalinguagem, trabalha como roteirista de filmes de terror na Warner; Ben (Jay Ryan) emagreceu e se tornou um arquiteto de sucesso; Beverly (Jessica Chastain) casou-se; o piadista Rich (Bill Hader) tornou o humor seu ganha pão e faz shows de stand up comedy; o hipocondríaco Eddie (James Ransone) virou corretor de seguros; Mike (Isaiah Mustafa) nunca saiu de Derry e de Stanley (Andy Bean) tudo que sabemos é que teve uma boa vida.

À primeira vista o público se encanta com a assertividade do casting adulto que espelha característica dos atores mirins. A química que o grupo possui quando reunido é envolvente e verdadeira. Conforme o filme avança, nos aprofundando na psique de cada um e vemos que, no fundo, eles permanecem os mesmos. Em uma rápida cena, descobrimos que Eddie se casou com uma mulher que é a versão mais jovem de sua mãe. Bev segue na mesma linha e se relaciona com um homem violento, assim como seu pai.

Quando retornam a Derry, impulsionados pelo terror de Pennywise, os personagens vão aos poucos adquirindo características infantis. Bill volta a gaguejar, Eddie e Rich retomam suas implicâncias e o clima amoroso entre Bev e Ben reascende. Mesmo com um elenco numeroso, o diretor dá aos membros do Clube dos Perdedores seu tempo de tela. As cenas individuais trabalham os temores e fraquezas de cada um, exceto com Mike, que se mostra o personagem menos desenvolvido.

Quanto à Coisa, Bill Skarsgård desempenha um papel primoroso. Dessa vez temos cenas onde Pennywise não aparece em sua costumeira viagem de ácido e o ator consegue apresentar toda sua capacidade dramática. O terror e o suspense desses momentos chegam a desconcertar o espectador. Para completar, temos a participação especial de Stephen King, no melhor estilo Stan Lee. A cena em si não importante, mas a presença do autor funciona como aquela piscadinha marota do filme para o público.

Por vezes contrário às adaptações de suas obras, King parece ter concordado com o estilo de de It: Capítulo Dois. Muito disso se deve ao roteiro escrito por Gary Dauberman, que tem no currículo os scripts de A Freira (2018) e a trilogia Annabelle. O texto utiliza flashbacks de maneira sábia para fazer a história avançar. De maneira geral, a produção funciona em dois tempos, mostrando ora o passado, ora o presente, atando plots lançados no primeiro filme e encaixando as duas histórias perfeitamente.

De caráter episódico, a trama leva os personagens a viverem quests individuais e depois em grupo, de maneira a primeiro exorcizar seus medos pessoais e em seguida os temores coletivos. Por utilizar esse recurso em demasia, o segundo e o terceiro ato ficam um tanto longos, o que compromete um o ritmo e o gênero do filme. Afinal, o excesso de momentos tenebrosos acaba por amaciar o espectador, que se acostuma e deixa de se retrair diante das bizarrices de Pennywise.

Outro fator curioso é que, apesar de se vender como um terror, It Capítulo Dois mescla assombro com tiradas espirituosas, fazendo o público variar entre o susto e a risada. Brincando com emoções de sua plateia, o roteiro coloca os personagens queridos em constante perigo, trabalhando bem o jogo de luz e sombra, o visto e o não visto. Em suma, dominando as características de um bom suspense.

O espectador que vem em busca de cenas mais gráficas também sai recompensado. O filme continua uma violência extrema, embalada por uma trilha sonora dissonante feita para deixar inquietar. Vale destacar ainda o trabalho competente da equipe de montagem e edição, que trabalha as transições entre as sequências como trampolins, catapultando a história de um ambiente a outro. O design de produção também ganha pontos por esconder nos cenários pistas de outras obras de Stephen King, assim como referências de terror dos anos 1990.

No início da jornada, escutamos um dos personagens atestar que “nós somos o que desejamos lembrar, mas também somos o que desejamos esquecer.”. It: Capítulo Dois é justamente uma mescla de dois mundos. Funciona como uma adaptação atualizada de um clássico, mas também é a continuação de uma história de qualidade. É uma jornada que combina tragédia e comédia, culminando a ação em um supremo enfrentamento de medos e traumas. É entretenimento feito com esmero e atenção. Uma junção perfeita que também se relaciona com a carreira deste que vos fala. No passado e no presente.

Crítica originalmente publicada no site Cinemascope


Bruno Tavares

Written by

Um publicitário que adora viajar, seja nos livros, nos filmes ou na vida real

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade